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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/12/2006 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Feliz Natal
Joyeux Noël

Dirigido por Christian Carion. Com: Benno Fürmann, Guillaume Canet, Daniel Brühl, Gary Lewis, Alex Ferns, Dany Boon, Diane Kruger, Steven Robertson, Lucas Belvaux, Ian Richardson, Frank Witter, Bernard Le Coq, Christopher Fulford.

O segredo para se entregar de corpo e alma à guerra reside em jamais enxergar o inimigo como ser humano, mas apenas como alvo móvel sem individualidade. Transformá-lo em símbolo de tudo o que há de errado e podre no mundo também é recomendável – e é este tipo de lavagem cerebral que se encontra na base de praticamente todas as ideologias que conduziram o Homem ao confronto armado. Assim, é apenas natural que Feliz Natal, um libelo humanista (e, conseqüentemente, anti-bélico), inicie sua narrativa enfocando crianças de três países diferentes sendo levadas a proferir, em sala de aula, uma racionalização do ódio que são obrigadas a sentir por seus “inimigos”, num exemplo triste da lógica perversa que leva cada Sociedade a corromper a inocência de sua juventude.


Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2005 (quando perdeu para Tsotsi - Infância Perdida), Feliz Natal é ambientado no início da Primeira Guerra Mundial, quando cada lado do conflito demonstra certeza sobre a breve duração dos combates, sem conseguir imaginar que o terror ainda irá perdurar por quase quatro anos e custar milhões de vidas. Diferentemente da dinâmica que se estabeleceria nas guerras seguintes, quando a sofisticação tecnológica das bombas e dos aviões passaria a permitir ataques feitos a distâncias cada vez maiores do alvo, boa parte dos confrontos da Primeira Guerra envolveu intensos embates corporais nos campos de batalha: lutando desesperadamente para conquistar cada centímetro do território inimigo, os exércitos de cada lado se entrincheiravam a poucos metros um do outro, dando início a ataques pouco eficazes que geralmente resultavam na morte daqueles que se aventuravam nos espaços entre as trincheiras (a chamada Terra de Ninguém) – e foi justamente esta proximidade que permitiu a ocorrência de um incidente único na história das guerras: na véspera do Natal, em várias regiões de combate, soldados inimigos (agindo sem permissão de seus respectivos comandos, é claro) declararam tréguas provisórias e comemoram juntos a data.

Buscando retratar de maneira imparcial os combatentes alemães, franceses e escoceses que protagonizam o filme, o roteiro do diretor Christian Carion demonstra compreender que, ao contrário do que ocorreria na Grande Guerra seguinte, o conflito iniciado em agosto de 1914 não envolveu questões ideológicas ou religiosas claras, sendo impulsionado principalmente por interesses territoriais e por ações irresponsáveis de líderes de ambos os lados (e colocar um judeu como oficial alemão representa uma idéia inteligente de Carion, ressaltando a triste ironia da situação). Assim, Feliz Natal não encontra dificuldades para levar o espectador a se importar com os soldados das três frentes; em vez de alemães, franceses e escoceses, enxergamos apenas seres humanos que se comunicam em línguas diferentes.

Elegantemente construído, o filme de Carion freqüentemente utiliza metáforas e rimas visuais para desenvolver suas idéias, como no instante em que dois jovens escoceses comemoram a declaração de guerra ao mesmo tempo em que o padre local contempla, com tristeza, o significado de tudo aquilo: mais experiente, ele sabe que a empolgação idealista dos rapazes logo dará lugar ao terror provocado pelo desperdício de vidas – e o travelling que vem a seguir e enfoca várias velas apagadas serve como símbolo perfeito destas perdas. Da mesma maneira, logo em seguida o longa retrata um tenor em seu camarim, à espera do momento de entrar em cena, enquanto este ouve o aviso de que “faltam dois minutos” para sua deixa – o que o leva a caminhar até a coxia e pegar seu adereço de cena: uma espada cenográfica. O espetáculo, então, é interrompido pelo aviso de que a guerra foi declarada e, imediatamente, passamos a acompanhar um tenente francês que, já nas trincheiras, recebe o aviso de que “faltam dois minutos” para o início de um ataque, o que o leva a pegar sua baioneta – um exemplo da bela lógica temática do filme.

Se é verdade que o Homem tem grande facilidade em se entregar a impulsos violentos e degradantes (e quem acompanha meus textos há algum tempo sabe que não tenho muitas ilusões a este respeito), Feliz Natal procura demonstrar que o oposto também pode ser verdadeiro: em situações extremas de profunda desumanização (como numa guerra), basta que uma pequena brecha se abra para que os indivíduos envolvidos redescubram a própria humanidade, num tema que também já foi desenvolvido pelo maravilhoso Zona de Risco, do sul-coreano Chan-wook Park. Esta brecha pode ser uma data com significado para todos os envolvidos (como o Natal, neste caso) ou mesmo a música – e há uma cena em Feliz Natal, na qual a personagem de Diane Kruger canta para dezenas de soldados comovidos, que remete diretamente à seqüência final – igualmente tocante - de Glória Feita de Sangue, de Kubrick.

Infelizmente, como diz alguém em certo instante da projeção, por mais que aqueles soldados tentem esquecer a Guerra, esta não os esquece: e os bombardeios ouvidos à distância forçam-nos a lembrar de que aquele pequeno oásis de paz tem um tempo de duração pré-definido. Além disso, não há como negar que um armistício é algo que contraria diretamente as ordens superiores – e os generais não são indivíduos que se comovem com besteiras como confraternização e humanidade (surpreendentemente, tampouco o são os representes máximos da Igreja de cada lado do confronto, que não hesitam em pinçar o evangelho de São Mateus em busca de uma justificativa dada pelo próprio Cristo para o derramamento de sangue: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”. Aliás, se você leu minha análise sobre A Paixão de Cristo sabe que não sou grande fã de Mateus.). Ainda assim, por mais que sofram ameaças de punição, é visível a mudança operada sobre os soldados retratados no filme: depois de resgatarem um pedacinho de sua decência e sensatez, eles jamais permitiriam que estas lhes fossem tomadas novamente. Ou talvez eu esteja sendo ingênuo: afinal, vinte anos depois o mundo mergulharia em um conflito infinitamente mais cruel.

É uma pena que, depois do competente trabalho ao desenvolver os acontecimentos principais do filme, Christian Carion venha a falhar no terceiro ato da trama, quando propositalmente ignora o que ocorreu nos dias seguintes ao fim da trégua: através da montagem, o cineasta procura até mesmo enganar o espectador, acelerando a chegada dos líderes de cada exército, mas o fato é que várias semanas deveriam ter se passado antes que estes pudessem tomar conhecimento dos incidentes e se deslocar até a frente de batalha – e é justamente este importante período de tempo que o longa procura esquecer. Ora, é inevitável que, ao menos em algumas regiões, os confrontos tenham sido retomados – e seria importante acompanharmos o impacto que isto traria para os envolvidos, que agora conheceriam pessoalmente seus “alvos móveis”. Infelizmente, o interesse do cineasta em criar um filme leve, que permitisse que o espectador saísse do cinema feliz, acabou enfraquecendo o projeto em seus momentos finais. (Além disso, assim como ocorreu com Penélope Cruz em Volver, a dublagem de Kruger e Fürmann nas cenas de canto soa terrivelmente artificial.)

Trazendo uma fotografia belíssima e uma trilha comovente, Feliz Natal é, apesar dos problemas apontados acima, um filme inspirador e tocante. E saber que o espetacular incidente relatado pelo longa realmente aconteceu é algo que, confesso, me reconforta imensamente.

30 de Novembro de 2006

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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