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Estamira

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Marcos Prado.

Depois de produzir o estupendo Ônibus 174, um dos melhores documentários já realizados no país, o paulista Marcos Prado estréia na direção de longas com outro belíssimo exemplar do gênero, Estamira, que se concentra em uma catadora de lixo que, esquizofrênica, foi acompanhada por mais de dois anos pela equipe do cineasta, expondo com assustadora intensidade toda a dimensão de seu distúrbio psiquiátrico.

Porém, mais do que isso, Estamira traça um painel contundente sobre a desigualdade social e a crueldade que sempre a acompanha. `Quem não enlouqueceria ao ser levado a viver sob aquelas condições?`, parece perguntar o filme. Apesar do sofrimento decorrente de suas paranóias e alucinações persecutórias (a pobre mulher acredita ser detentora de um conhecimento que a torna capaz de enxergar os planos diabólicos dos `Trocadilhos` – figuras que manipulam nossa realidade e os seres humanos), não seria, para ela, mais pavoroso se dar conta de sua realidade? Afinal, ela vive em condições sub-humanas, buscando, no lixo da sociedade, sua subsistência. E mais: projetar suas frustrações sobre os `Trocadilhos` não seria algo mais reconfortante do que culpar a Sociedade, já que isto possibilitaria um mínimo de esperança de melhora?

Demonstrando um carinho comovente pela protagonista do filme, Marcos Prado e sua equipe adotam uma estrutura visual inteligentíssima e altamente reveladora: na maior parte do tempo, o universo real de Estamira (seu cotidiano no lixão, principalmente) é retratado com uma fotografia suja, com grãos grosseiros em um preto-e-branco opressivo. Em contrapartida, quando fala sobre suas visões e sua natureza `superior`, a mulher surge em cores, como só então ganhasse vida.

Isto não quer dizer, contudo, que Prado romantize a loucura de Estamira – simplesmente não há como fazê-lo. Sempre nervosa e tensa, ela vive uma existência de sofrimento, com suas dores (que ela atribui ao `controle remoto natural superior`) e manias de perseguição (são os `espertos ao contrário` que controlam o mundo). Captados pela câmera sempre atenta do cineasta, os tremores nas mãos e nos pés de Estamira fazem par com seus olhos nervosos, sempre em busca daqueles que podem querer derrotá-la. Além disso, o filme nos apresenta também à frustração dos filhos da personagem-título, que lidam, cada qual à sua maneira, com a loucura da mãe: o mais velho, evangélico, atribui a instabilidade mental a uma espécie de possessão demoníaca; a outra deposita a `culpa` sobre os ombros do pai, que maltratava a esposa; enquanto a caçula apenas se ressente por ter sido levada a viver com uma família adotiva e a abandonar a mãe num de seus piores momentos.

Empregando, ainda, belas metáforas visuais (como o próprio plano que encerra o filme e traz Estamira, em contraluz, de frente para um mar violentamente agitado que reflete seu estado emocional), o longa não tenta evitar o fato de que ver alguém conversando intensamente ao telefone em uma língua imaginária pode ser engraçado – e é -, mas, mesmo permitindo o riso do espectador, não utiliza a doença da `personagem` para ridicularizá-la. Ao contrário: se há algo que fica claríssimo em Estamira é o carinho com que Marcos Prado tratou aquela mulher, exibindo uma dedicação evidenciada até mesmo pelo longo tempo de realização do filme, já que a acompanha por alguns anos.

E é comovente perceber que, ainda que não possa ter alterado a realidade do objeto de seu documentário (e como poderia?), o cineasta foi responsável, no mínimo, por presenteá-la com o dom da imortalidade, deixando sua existência e seus sofrimentos registrados para a posteridade. Com isso, conseguiu converter o sentimento ilusório de grandeza de Estamira de algo fantasioso para um fato irrefutável, permitindo que sua passagem por este mundo deixasse uma marca indelével e profundamente tocante.
``

 

29 de Agosto de 2005

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

O documentário conta a história de uma mulher de 63 anos que sofre de distúrbios mentais e vive e trabalha há mais de 20 anos no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, um local renegado pela sociedade, que recebe diariamente mais de oito mil toneladas de lixo produzido no Rio de Janeiro. Com um discurso eloqüente, filosófico e poético, a personagem central do documentário levanta de forma íntima questões de interesse global, como o destino do lixo produzido pelos habitantes de uma metrópole e os subterfúgios que a mente humana encontra para superar uma realidade insuportável de ser vivida.

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