A Voz de Hind Rajab
Dirigido e roteirizado por Kaouther Ben Hania. Com: Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury, Amer Hlehel.
Hind Rajab tinha cinco anos de idade quando tanques israelenses dispararam mais de 300 tiros contra o carro no qual se encontrava ao lado dos tios e de quatro primos, matando o casal de adultos e três das crianças instantaneamente. Depois que sua prima de 15 anos conseguiu ligar para um parente que morava na Alemanha, as duas sobreviventes foram contactadas por um voluntário da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, uma organização humanitária que coordena os serviços de emergência na região – e enquanto o homem tentava acalmá-las, novos disparos foram feitos pelos soldados de Israel, resultando na morte da adolescente e deixando a pequena Hind presa com seis cadáveres durante as três horas seguintes à medida que esforços desesperados eram feitos para coordenar um resgate.
E foi a partir das gravações das conversas entre a garotinha e os integrantes da SCVP que a cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania concebeu o roteiro deste longa, que, numa decisão sábia, mantém o espectador na sede da organização ao lado dos voluntários enquanto estes, encarnados por um elenco pequeno e brilhante, interagem com a voz (real) de Hind Rajab.
Porém, longe de ser um esforço narrativo simples em função da ambientação limitada, o filme comprova a fascinação de Ben Hania por estruturas híbridas (algo já demonstrado no fabuloso As 4 Filhas de Olfa e, de certo modo, em O Navalha de Tunis) não apenas ao trazer áudios autênticos do incidente, mas também ao combinar imagens das figurais reais e dos atores que as interpretam – como no tocante e inspirado momento em que alguém filma uma conversa com o celular e vemos, ao mesmo tempo, as duas versões de cada uma daquelas pessoas na sala. De modo similar, há passagens nas quais os atores deixam de recitar suas falas e apenas expressam os sentimentos das figuras que encarnam enquanto escutamos os registros originais. Além disso, o nervosismo crescente da câmera, frequentemente inquieta em seus planos fechados, evoca a atmosfera angustiante nos escritórios da SCVP e a frustração que toma conta daquelas pessoas diante dos obstáculos impostos pelos procedimentos de segurança exigidos para o resgate.
Porque aí reside um dos aspectos mais enlouquecedores de todo o caso – e que ressalta a monstruosidade israelense: além de ter atacado aquela família enquanto esta deixava o bairro de Tel al-Hawa na Cidade de Gaza cumprindo ordens do próprio exército sionista, o governo de Netanyahu impôs um protocolo kafkaniano aos serviços de resgate palestinos, que precisam da aprovação dos militares invasores antes de despachar qualquer socorro – um processo que primeiro envolve estabelecer a rota que será usada pelos socorristas e, depois, a espera pela autorização para que estes finalmente possam segui-la, com cada etapa envolvendo horas de espera até passar por todos os intermediários necessários (e ignorar as formalidades praticamente garante que aqueles enviados para o resgate também serão atacados).
Assim, por mais que o apego do supervisor de turno Mahdi Aljamal (Hlehel) aos regulamentos cause desespero em seu subordinado Omar Alqam (Malhees), é difícil culpá-lo por isso, já que, como lembram as fotos dos vários socorristas assassinados em serviço pelas Forças de Defesa de Israel que ele mantém como tributo em seu escritório, as consequências de um ato impulsivo – por mais necessário que seja – são graves e definitivas. Responsabilizar indivíduos como Mahdi não apenas é injusto como desvia o foco dos verdadeiros causadores de todas aquelas tragédias: genocidas que, em um imenso ato de cinismo, empregam a tragédia vivida por seus antepassados recentes como escudo para que eles próprios possam cometer atos que deixariam qualquer nazista orgulhoso.
Como o mesmo fôlego que lamenta o destino de Anne Frank pode ser usado para tratar o ocorrido com Hind Rajab como uma mera infelicidade, como uma consequência “aceitável” da guerra – ou pior: como “propaganda terrorista”? Por que as mortes de mais de 70 mil palestinos (incluindo 20.179 crianças, das quais 1.029 com menos de um ano) são apenas uma estatística, ao passo que cada morte israelense é tratada como um evento que deve ser pranteado por todo o planeta? Quando 15 judeus foram mortos por uma dupla de canalhas na Austrália, no dia 14 de Dezembro, manifestações de solidariedade surgiram ao redor do mundo – uma reação correta, humana -, mas os 414 palestinos massacrados por Israel desde o “cessar-fogo” declarado em 10 de Outubro representam um número que, sou capaz de apostar, é ignorado pela maior parte das pessoas, já que os grandes veículos da imprensa corporativa se preocupam mais em reproduzir o discurso oficial sionista do que com a dimensão do terror vivido por pessoas de pele escura em uma região que, depois de décadas de opressão, se tornou um amontoado de ruínas nos últimos dois anos.
Mas ouça a voz frágil e amedrontada de Hind Rajab enquanto implora para que alguém a busque antes que anoiteça, já que tem medo do escuro. Registre a terrível ironia do instante no qual revela o nome de sua escolinha pré-primária: “Infância Feliz”. Imagine as horas que passou cercada pelos corpos estraçalhados dos parentes: o cheiro do sangue, o calor, a impossibilidade de compreender como aqueles cadáveres mutilados eram os primos com os quais brincava todos os dias. “Eles estão dormindo”, ela explica inicialmente quando Rana Faqih (Kilani), tentando aliviar o fardo do colega Omar, assume a tarefa de conversar com a menina e tenta confirmar o estado dos demais ocupantes do carro – mas não demora muito até que a realidade se torne incontornável até mesmo para uma garotinha que jamais deveria ter sido forçada a pensar no conceito de morte aos cinco anos de idade. Lembre-se das crianças que você conhece e… não, não tente visualizá-las na situação de Hind; é uma imagem pavorosa demais até como simples exercício de imaginação.
Agora tente conciliar o que está sentindo com o descaso constante com que o genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestino é tratado pela imprensa, por evangélicos e pela extrema-direita. Quando um voluntário da SCVP sugere, por exemplo, que os áudios das conversas sejam publicados nas redes sociais como forma de pressão para que o resgate da menina seja autorizado com urgência, um colega simplesmente aponta a futilidade do esforço, já que nem as imagens frequentes das crianças mortas pelo exército sionista foram capazes de impedir que os massacres continuassem – e se o mundo está anestesiado diante do extermínio de dezenas de milhares de crianças, por que a voz de mais uma pequenina perto de morrer mudaria isso?
Porque o fato é que Hind Rajab morreu naquele carro (não vou tratar esta tragédia como spoiler, como “reviravolta” narrativa – e o filme demonstra sobriedade e respeito notáveis ao tampouco tentar utilizá-la como um clímax dramático). E não só os soldados israelenses sabiam que uma criança estava no carro como eram capazes de vê-la tanto a olho nu quanto com seus equipamentos de visão infravermelha, o que não os impediu de voltar a disparar contra o veículo, aproveitando a oportunidade para também executarem os dois socorristas que finalmente tentaram resgatá-la com autorização oficial.
A Voz de Hind Rajab é um filme imprescindível não por sua imensa força dramática (e é uma obra formidável), mas por ser um tributo a Hind e às mais de 20 mil crianças mortas por Israel - além das outras 1.102 que passaram por amputações, dos 420 bebês natimortos e das quase 60 mil que se tornaram órfãs desde outubro de 2023 (e não devemos nos esquecer das mais de 900 mil que estão sendo privadas de educação, já que o cotidiano de fuga, fome e luto dificilmente viabiliza os estudos).
Caso a humanidade tenha futuro – e neste momento não creio que tenha -, seremos todos julgados severamente por termos permitido que um genocídio transmitido em cores e em tempo real tenha se tornado parte de nosso cotidiano.
Uma espécie capaz de abandonar seus filhotes desta maneira merece a extinção.
31 de Dezembro de 2025
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