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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/10/2009 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Te Amarei Para Sempre
The Time Traveler`s Wife

Dirigido por Robert Schwentke. Com: Eric Bana, Rachel McAdams, Ron Livingston, Arliss Howard, Michelle Nolden, Brooklynn Proulx, Jane McLean, Philip Craig, Stephen Tobolowsky, Tatum McCann, Hailey McCann.

Assim como o Billy Pilgrim de Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, o personagem de Eric Bana em Te Amarei para Sempre enfrenta o estranho problema de ser capaz de “soltar-se no tempo” a qualquer momento. A primeira vez em que isto ocorre, as circunstâncias são trágicas e confusas: ele está prestes a sofrer um acidente de carro ao lado da mãe quando, no segundo seguinte, encontra-se parado ao lado da versão adulta de si mesmo ouvindo a explicação sobre seu “dom”. Por que isto ocorre? De acordo com o roteiro de Bruce Joel Rubin (baseado em livro de Audrey Niffenegger), a causa é, acreditem ou não, uma mutação genética.

Dito isso, acreditar que uma mutação genética dispararia viagens no tempo não é mais absurdo do que aceitar que um DeLorean correndo a 141 km/h seria capaz de fazê-lo; o importante é como a narrativa emprega as viagens em si – e o fato é que Te Amarei para Sempre (tradução melosa, eu sei) desenvolve de maneira bastante interessante sua história. Roteirista com sua parcela de acertos (são dele Ghost, Alucinações do Passado e Minha Vida, mas também Impacto Profundo e O Pequeno Stuart Little 2), Rubin faz um bom trabalho ao estabelecer a dinâmica do relacionamento entre Henry (Bana) e Clare (McAdams): apaixonada pelo rapaz desde criança, quando ele viajava no tempo para visitá-la em sua casa de campo, a moça finalmente o encontra já adulta – e, embora ele não a reconheça (já que foi sua versão futura quem visitou a garota), Henry logo se apaixona pela bela artista plástica. Porém, se o casamento ocorre mais rapidamente do que poderíamos esperar (em filmes do tipo, normalmente só acontecem no terceiro ato), logo percebemos que a visão romântica e idealizada que Clare fazia do marido cede lugar à constatação de que a falta de controle deste diante das viagens no tempo a transformam numa mulher constantemente solitária.

Não é à toa que o título original (A Esposa do Viajante do Tempo) a coloca em pé de igualdade com Henry diante da narrativa: esta é, afinal, uma história tão dela quanto dele. Aliás, em certo sentido, Clare é a personagem verdadeiramente trágica da trama, já que, como acaba observando em certo ponto, jamais teve sequer a oportunidade de escolher um destino diferente, sendo condicionada desde a infância a aceitar Henry como seu futuro marido – e é revelador notar como, ao finalmente se encontrar com ele já adulta, ela diz que ele “era” seu “par perfeito”. O que ela não percebe, porém, é que isto prenuncia o futuro dos dois: o Henry que ela ama é um paradoxo, uma versão mais velha e amadurecida do homem que acabou de conhecer e cuja maturidade será (ou foi) ainda mais realçada pelo contraste com a idade que ela tinha ao encontrá-lo pela primeira vez, ainda criança. Da mesma maneira, não deixa de ser sufocante perceber como ela sequer tem a chance de escolher a casa em que irá morar, já que Henry, tendo visitado o futuro, conhece o imóvel que eles comprarão – e, assim, é como se o gosto futuro de Clare imperasse sobre suas preferências presentes. (E é um grande mérito do filme não martelar a cabeça do espectador com estes conflitos, que são apresentados de maneira sutil, podendo até mesmo passar despercebidos por boa parte do público.)

Para Henry, porém, a situação não é muito mais fácil: obrigado a fazer jus à imagem idealizada que a amada criou dele a partir das visitas que ele ainda nem fez, o sujeito está sempre competindo consigo mesmo – e Bana encarna este dilema com um equilíbrio perfeito entre a frustração e a diversão, já que Henry não pode deixar de constatar a ironia do problema que criou para si mesmo. Menos cômica, no entanto, é a constatação de que ele talvez não tenha muito mais tempo de vida – e a maneira com que ele encara as revelações acerca da própria morte confere um importante peso dramático ao seu relacionamento com a esposa.

Econômico em sua narrativa, o roteiro de Rubin não perde tempo com explicações sobre as constantes viagens de Henry no tempo – e mesmo os demais personagens, quando informados sobre os “poderes” do protagonista, rapidamente saltam da incredulidade para a aceitação, o que, embora cause certo estranhamento inicial, acaba se revelando a decisão acertada para que a narrativa não desperdice minutos preciosos com algo que não tem a menor importância (a história, afinal, é sobre o relacionamento de Henry e Clare, não sobre o impacto que as viagens têm sobre os coadjuvantes). Assim, é curioso observar como Clare, que inicialmente admirava a versão mais “madura” do marido, gradualmente passa a apreciar a leveza da versão mais jovem de Henry à medida que ela própria envelhece – e o fato dela poder conviver com ambas é uma oportunidade maravilhosa oferecida pela premissa da trama e que Rubin não desperdiça. (Além de servir como um atestado de como estamos sempre insatisfeitos com aquilo que temos.)

Mas talvez o tema mais importante de Te Amarei para Sempre não esteja ligado diretamente ao romance de Henry e Clare, girando, em vez disso, em torno do relacionamento entre pais e filhos. Assim como em Campo dos Sonhos, Henry tem, graças a fenômenos sobrenaturais (ops, neste caso são biológicos, mas vá lá), a oportunidade de conviver um pouco mais com a mãe que perdeu ainda jovem – e é tocante vê-lo dividindo com esta sua alegria por estar namorando (mesmo que a mulher não saiba que aquele à sua frente é seu filho já adulto) ou, ainda, encontrando maneiras de dizer indiretamente que a ama profundamente. E, sem revelar muita coisa, digo apenas que estes encontros logo estabelecem uma bela rima temática com outro relacionamento apresentado ao longo da projeção.

Infelizmente, porém, o roteiro de Rubin também conta com sua parcela de problemas (e, não tendo lido o livro de Niffenegger, não posso dizer se estes já se encontravam no original): o que acontece, por exemplo, quando Henry desaparece na frente de estranhos? Considerando a freqüência com que isto ocorre, não seria de se esperar que estes incidentes se tornassem relativamente notórios? E por que Clare diz que a presença de vários aparelhos de televisão poderia “disparar” uma viagem no tempo, já que isto jamais havia sido mencionado anteriormente? E ainda mais grave: por que o filme demora tanto tempo para explicar que, ao permanecer duas semanas em outra época, Henry perde o mesmo espaço de tempo no presente, não voltando para o mesmo momento em que havia partido? (Uma informação fundamental da qual só tomamos conhecimento no meio da projeção.) E não menos importante: por que Henry não pode mudar incidentes do passado? Que esforços ele fez neste sentido? E por que estes fracassaram?

Já do ponto de vista técnico, Te Amarei para Sempre é irrepreensível: o competente diretor de fotografia alemão Florian Ballhaus, por exemplo, adota uma paleta outonal que confere um tom corretamente melancólico e romântico à narrativa, ao passo que a trilha de Mychael Danna surge discreta, mas suficientemente evocativa. E se o cineasta alemão Robert Schwentke já havia feito um bom trabalho no correto Plano de Vôo, desta vez ele se sai bem melhor ao desenvolver seus personagens e a trama sem permitir que a possibilidade do excesso de açúcar afundasse o projeto (há um certo melado na narrativa, especialmente em seu desfecho, mas nada que prejudique o longa).

Fã confesso de filmes que lidam com viagens no tempo, devo dizer que admirei Te Amarei para Sempre por seguir a lógica de sua premissa sem tentar traí-la para tornar o roteiro mais simples ou para forçar um final que não se encaixasse no desenvolvimento da trama. Ainda assim, se reclamei por Robert Zemeckis e Bob Gale não terem permitido que Marty McFly e Doc Brown doassem o relógio para Hill Valley em De Volta para o Futuro 3, minha obsessão por tramas circulares me leva a lamentar apenas que (possível spoiler!) o próprio Henry não tenha sido o autor de um disparo tão importante para a narrativa deste novo filme.

O que não invalida o belo – ainda que açucarado - final deste eficiente longa.

16 de Outubro de 2009

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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