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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
14/04/2006 06/01/2006 2 / 5 2 / 5
Distribuidora

O Albergue
Hostel

Dirigido por Eli Roth. Com: Jay Hernandez, Derek Richardson, Eythor Gudjonsson, Barbara Nedeljakova, Jana Kaderabkova, Jan Vlasák, Jennifer Lim, Lubomir Bukovy, Jana Havlickova, Petr Janis.

 

O que buscamos quando assistimos a um filme de terror? Normalmente, o Cinema representa, para o espectador, uma de duas coisas: escapismo ou exercício intelectual – e os melhores filmes são aqueles que promovem ambas. Podemos ver comédias, dramas ou romances para relaxarmos, nos emocionarmos com narrativas que provam a força ou a dignidade da natureza humana ou para nos encantarmos com histórias de amor grandiosas. De modo geral, no entanto, buscamos sentimentos agradáveis, que gostaríamos de ter também fora da sala de projeção (mesmo o choro, que se revela catártico). Mas quem, no dia-a-dia, teria vontade de sentir medo, tensão ou repulsa? No entanto, é justamente isto que queremos quando entramos no cinema para vermos algo como Os Outros, Wolf Creek ou A Hora do Pesadelo.

           

Mas não é tão simples assim. Para que possamos mergulhar na história e, com isso, intensificarmos estas sensações, os bons filmes do gênero devem construir uma ligação forte entre o mundo real, do espectador, e o pavoroso universo fictício que querem apresentar – e esta ligação é estabelecida através de nossa identificação com os personagens, sejam estes os mocinhos ou os vilões. Em O Sexto Sentido, nos comovíamos com a solidão e a vulnerabilidade do pequeno Cole; em O Exorcista, conhecíamos a amargura do Padre Karras e lamentávamos o sofrimento de Regan e sua mãe; em A Hora do Pesadelo, nos divertíamos com o pervertido senso de humor de Freddy Kruger; e, em Sexta-Feira 13, com a taciturna eficiência assassina de Jason. De um modo ou de outro, sempre tínhamos um ponto de entrada para a história; nossos medos ou os momentos de choque eram, de certa forma, frutos de nossa identificação com o que víamos.

           

Em O Albergue, não há nada desta natureza. Os efeitos, em parte, estão lá (repulsa, choque), mas sem qualquer sustentação dramática. Não há história, apenas cenas que provocam repugnância através do óbvio: não precisamos conhecer uma pessoa para ficarmos horrorizados ao vê-la sendo barbaramente torturada.  Aparentemente, isto basta ao diretor-roteirista Eli Roth, que parece interessado apenas em acompanhar três mochileiros que, durante uma viagem pela Europa, vão parar em um pequeno vilarejo e se tornam prisioneiros de uma quadrilha que os oferece a ricaços interessados em torturar e matar algum inocente desconhecido. Extremamente irritantes em sua futilidade e ignorância, os personagens são apenas pedaços de carne prontos para o abate; no lugar de personalidade, têm uma ou outra característica que permitem que possamos distingui-los uns dos outros: um está se recuperando de um relacionamento; outro testemunhou um afogamento quando criança; e o terceiro gosta de fazer pinturas nas nádegas. Fora isso, são indivíduos que representam o estereótipo do norte-americano ignorante (mesmo que um deles seja islandês), que está sempre em busca de bebidas, drogas e mulheres – e, a menos que estas três palavras representem toda a sua filosofia de vida, a identificação torna-se impossível.

           

Assim, o que resta, em O Albergue, são as cenas nas quais estes três rapazes são torturados e/ou mortos, num triste exercício de sadismo de Eli Roth, que, de quebra, ainda solicita nossa participação como espectadores sedentos de sangue. E participamos. E assistimos ao filme com curiosidade e certo grau de interesse. Por que isso acontece? Porque, como demonstrou Michael Haneke em seu brilhante Violência Gratuita, sentimos mórbida fascinação pelo sofrimento alheio – e, neste sentido, assistir a filmes como O Albergue não é muito diferente, em essência, do que nos reunirmos em torno de uma pessoa que acabou de ser atropelada, de vermos Faces da Morte ou de acessarmos fotos do acidente dos Mamonas Assassinas (por que chamadas para tais fotos são usadas para disseminar vírus? Porque os autores dos emails sabem que despertarão a curiosidade do destinatário.). A diferença é que filmes como O Albergue e Aniversário Macabro (que Wes Craven dirigiu em 1972) oferecem ao público a satisfação destes impulsos sombrios ao mesmo tempo em que nos absolvem de qualquer culpa: afinal, sabemos que estamos vendo algo irreal, não sabemos? Ninguém sofreu ou morreu de fato e, portanto, nossa sede foi aplacada sem qualquer conseqüência degradante para quem quer que seja.

           

Sim, é fato. Porém, ao apelar para nossos impulsos mais baixos (ainda que inegavelmente naturais), estes longas adotam uma postura niilista repulsiva: a violência é um fim em si mesma – e o “entretenimento” surge como efeito colateral de nosso sadismo inato. Os personagens não nos interessam, mas sim os ganchos e facas que penetram suas carnes – e se “torcemos” para que alguém escape, isto não vem como fruto de nossa identificação com o indivíduo, mas com a situação. Isto não é mérito do diretor ou do roteiro; sempre nos identificaremos, em quaisquer circunstâncias, com a figura que se encontra vulnerável. Hitchcock sabia disso e explorava esta nossa compaixão narcisística (afinal, poderíamos estar naquela situação!) com talento, mas sempre aprofundando esta conexão também com o desenvolvimento dos personagens (não é à toa que “O Homem Perseguido Injustamente” é figura recorrente em sua obra). Além disso, a necessidade que sentimos de ver alguém escapando com vida é fruto deste mesmo narcisismo: é como se nós tivéssemos escapado. Filmes como O Dia Depois de Amanhã, Guerra dos Mundos ou Independence Day dependem deste nosso egoísmo para funcionarem: cinco bilhões de pessoas podem ter morrido em função de mudanças climáticas ou ataques alienígenas, mas ficaremos perfeitamente felizes caso o herói escape; afinal, isto significa que, naquela situação, nós também teríamos sobrevivido. (Ninguém jamais se identifica com os que morreram.)

           

Infelizmente, para O Albergue, esta satisfação de instintos e identificações primitivos é o que basta. Assim, os vilões são homens uniformizados com jaquetas de couro preta e sem qualquer característica particular, e assassinos cujos rostos jamais conhecemos (um deles deve ter assistido a M, O Vampiro de Düsseldorf, pois surge sempre assobiando) – e, quando acontece de vermos seus rostos, o filme se encarrega de matá-los, numa manipulação infantil de nossos desejos de justiça. E, com isto, somos novamente enganados pelo filme, que nos leva a sair do cinema com a sensação de que “o Bem venceu o Mal” quando, na realidade, absolutamente nada mudou.

           

Porém, mais repulsivo do que este truque barato é a perversão moral de Eli Roth, cujo mau-caráter é inadvertidamente revelado pelo filme através de diálogos e incidentes terrivelmente homofóbicos e da forma chauvinista com que retrata todas as mulheres que cruzam a tela: atendendo às fantasias mais básicas (e machistas) do universo masculino, elas são sempre lindas, estão quase sempre nuas (exibindo seios devidamente siliconados) e parecem existir apenas para atender aos desejos de qualquer homem que solicite atenção. Ao contrário de Sin City, por exemplo, que celebrava o poder da mulher (tudo que ocorre no filme é fruto direto ou indireto das ações femininas), O Albergue prega a subjugação desta às vontades masculinas – e, aliás, é exatamente assim que o filme trata suas atrizes, expondo-as para nosso consumo. Ao mesmo tempo, Roth se entrega a um falso moralismo típico dos norte-americanos ao punir o hedonismo de seus personagens com o sofrimento e/ou a morte, como fazem nove de cada dez filmes de terror produzidos em Hollywood. (Aliás, há uma rima visual reveladora no longa: em dois momentos distintos, um personagem abre uma das portas em um corredor. Na primeira vez, descobrimos uma dominatrix e seu cliente; na segunda, um homem arrancando o olho de uma mulher. O paralelo sexo/violência é inegável e, mais uma vez, repugnante.) Como se não bastasse, o cineasta ainda faz apologia escancarada da “violência justificada” ao celebrar, com requintes de crueldade, a vingança de um dos protagonistas sobre um determinado personagem.

           

O Albergue é um filme “ruim”? Depende do conceito que estamos utilizando. É um esforço bem produzido, com boa fotografia, atores razoáveis (gosto de Jay Hernandez) e um certo grau de tensão. Mas é, também, um filme que se contenta em satisfazer o espectador apenas em um nível rasteiro, sem se preocupar com aspectos narrativos e dramáticos da história que pretende contar. Assim sendo, não posso dizer que “gostei” do que vi, mas fico feliz que, no mínimo (e apesar de seu diretor, que certamente não tinha esta intenção), O Albergue tenha provocado uma reflexão instigante sobre a natureza humana.

 

Observação: Não deixe de conferir as pontas dos diretores Quentin Tarantino (bastante maquiado, na cena em que Hernandez procura as duas garotas num boteco barra-pesada) e Takashi Miike (o autor de One Missed Call e Ichi the Killer aparece como o sujeito de óculos escuros que aconselha o herói a tomar cuidado para ‘não gastar todo o seu dinheiro’.)

 

12 de Abril de 2006

 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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