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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
15/09/2006 24/02/2006 4 / 5 / 5
Distribuidora

Xeque-Mate
Lucky Number Slevin

Dirigido por Paul McGuigan. Com: Josh Hartnett, Morgan Freeman, Ben Kingsley, Bruce Willis, Lucy Liu, Stanley Tucci, Michael Rubenfeld, Mykelti Williamson, Sam Jaeger, Danny Aiello, Scott Gibson, Robert Forster. 

Em certo momento de Xeque-Mate, a bela Lindsey (Liu) mostra-se impressionada com a aparente falta de preocupação do protagonista, Slevin Kelevra (Hartnett), com a pavorosa situação na qual este se encontra – e o rapaz explica, então, que “tem” ataraxia: uma condição que o impede de sentir qualquer tipo de ansiedade. Embora o filme pareça tratar a ataraxia, um termo relacionado à Filosofia, como um quadro patológico (o que obviamente soa incorreto), o fato é que o conceito por trás da revelação é curioso: ao criar um personagem que jamais parece perceber a gravidade dos problemas que enfrenta, o roteirista estreante Jason Smilovic abre espaço para que este reaja com uma irreverência divertidíssima às constantes ameaças que recebe sem que isto surja como algo implausível, o que comprometeria a eficácia dos ótimos diálogos. Com isso, Xeque-Mate se torna um longa capaz de combinar muito bem um refinado senso de humor com o peso das situações que apresenta – característica que divide com os recentes Beijos e Tiros e, em menor grau, No Rastro da Bala. 

A história, repleta de violência, gira em torno de um rapaz, Slevin, que chega a Nova York para visitar seu amigo Nick Fisher e encontra o apartamento deste vazio. Pouco depois, dois capangas de um poderoso mafioso invadem o lugar e, confundindo-o com o verdadeiro Fisher, levam-no para encontrar o “Chefe” (Freeman), que o encarrega de matar o filho do “Rabino” (Kingsley), mafioso rival. Em seguida, é a vez do Rabino mandar buscar Fisher (leia-se: Slevin) e encomendar a morte do Chefe. Para complicar, Slevin passa a ser observado pelo FBI e por um assassino profissional (Willis) que parece odiá-lo.

Inicialmente confusa, a trama de Xeque-Mate vai se desenrolando gradualmente - e é justamente o desenvolvimento das situações que torna o filme tão interessante. Além disso, Smilovic demonstra possuir um talento imenso para criar diálogos, o que resulta em uma série de duelos verbais rápidos e inteligentíssimos entre os vários personagens (este é um daqueles longas que, como Jejum de Amor e Harry e Sally – Feitos um para o Outro, são repletos de falas que merecem ser memorizadas pelos cinéfilos e que nos levam a desejar conversar como personagens do Cinema). Mais do que simplesmente engraçados (“Eu sou baixa para minha altura.”), os diálogos revelam uma construção extremamente elegante, o que é sempre um prazer adicional para nossos ouvidos. Ao mostrar a foto de um rapaz para Slevin, por exemplo, o Chefe explica: “Este era meu filho. Notou como usei o verbo no passado? É porque ele está morto, relegado ao tempo passado. Enviado do ‘é’ para o ‘era’ antes de poder tomar o café-da-manhã”. Com uma forma tão peculiar de se expressar, como deixar de admirar o impiedoso bandido?           

Felizmente, o diretor Paul McGuigan (do bom Á Flor da Pele) encarregou-se de escalar um elenco à altura do roteiro, permitindo que atores talentosíssimos como Morgan Freeman e Ben Kingsley se esbaldem com os diálogos concebidos por Smilovic. Enquanto isso, Bruce Willis volta a encarnar o tipo frio e calculista que viveu tão bem em várias produções e, mais uma vez, com ótimos resultados, já que surge corretamente ameaçador e imprevisível. Lucy Liu, por sua vez, transforma Lindsey em uma jovem com dinamismo contagiante, além de se apresentar como um interesse romântico mais do que adequado para o protagonista – e, por falar neste, Josh Hartnett (que já trabalhara com McGuigan em À Flor da Pele) funciona maravilhosamente bem como Slevin, carregando o filme com segurança e sem se intimidar diante de seus companheiros tão mais experientes. Se Xeque-Mate diverte, é porque realmente acreditamos na calma impossível de seu (anti-)herói.           

Por outro lado, o design de produção de François Séguin peca por tentar envolver o filme em uma aura de excentricidade, utilizando, por exemplo, papéis de parede com padrões incômodos, que praticamente anunciam aos berros que a narrativa se passa não no mundo “real”, mas em um “universo paralelo”, absurdo. Ainda assim, este padrão visual resulta em boas composições, como aquela que contrapõe cadeiras azuis a um fundo branco e a que traz um telefone tocando insistentemente em uma cômoda situada entre duas camas mergulhadas em sépia. Da mesma forma, a ótima montagem de Andrew Hulme, colaborador habitual de McGuigan, investe em uma lógica de dinamismo, com planos que se completam através de reflexos, rimas visuais e contraposições muitas vezes surpreendentes.

Trazendo boas reviravoltas que mantém o espectador tentando adivinhar o que acontecerá até os minutos finais de projeção, Xeque-Mate conta uma história bem amarrada que ainda se dá ao luxo de terminar com um leve tom de melancolia. E espero que o roteirista Jason Smilovic não seja artista de um filme só, porque Hollywood certamente  precisa de alguém com seu talento para escrever diálogos.  

15 de Setembro de 2006 

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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