Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/03/2004 20/08/2004 4 / 5 / 5
Distribuidora

Hora de Voltar
Garden State

Dirigido por Zach Braff. Com: Zach Braff, Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Jackie Hoffman, Alex Burns, Michael Weston, Armando Riesco, Jean Smart, Ron Leibman, Ann Dowd, Ato Essandoh, Geoffrey Arend, Ian Holm.

Um filme não precisa ter momentos de grandes explosões emocionais ou de humor escrachado e óbvio para funcionar como drama ou comédia. O importante é que compreenda seus personagens e retrate de maneira sincera suas trajetórias – e, neste sentido, Hora de Voltar é extremamente bem-sucedido, já que demonstra maturidade ao confiar em sua história, descartando quaisquer tentativas maniqueístas de provocar reações específicas no espectador.

Quando o filme tem início, somos apresentados a Andrew Largeman (Braff), um jovem ator que se mudou para Los Angeles a fim de perseguir uma carreira no Cinema, mas cuja maior conquista até o momento foi interpretar um `jogador de futebol americano retardado` em uma produção para a tevê. Ao receber a notícia sobre a morte de sua mãe, o rapaz volta para sua cidade natal por alguns dias e, ao conhecer uma garota e reencontrar um velho amigo de colégio, acaba vivendo uma série de experiências que o levam a reavaliar suas escolhas e relacionamentos.

Escrito e dirigido por Zach Braff (o J.D. da série Scrubs), Hora de Voltar é habitado por uma galeria de figuras excêntricas – muitas das quais surgem em cena, dão o seu recado (seja este uma piada ou um instante de dor) e desaparecem sem deixar vestígios: há o garçom de um restaurante temático que se orgulha de sua condição de `cavaleiro medieval` e de falar klingon; o jovem policial que, antigo usuário de drogas, parece não regular muito bem; e a família que mora em um barco `atracado` à beira de um cânion natural, para citar apenas alguns exemplos Aliás, até mesmo o casal principal foge da normalidade: Sam (Portman) está sempre carregando um capacete, embora não tenha moto ou bicicleta, e quando vemos Largeman pela primeira vez, o rapaz está deitado em seu quarto imaculadamente branco e, em seguida, abre um armário repleto de vidros de remédio perfeitamente alinhados.

Porém, o que mais chama a atenção com relação aos protagonistas de Hora de Voltar é sua melancolia – um sentimento que se espalha por todos os personagens que os cercam, como Mark (Sarsgaard) e sua mãe e, é claro, o pai de Largeman, um psiquiatra (Holm) que prefere anestesiar o filho emocionalmente através de medicamentos do que correr o risco de vê-lo sofrendo. Esta incapacidade de `sentir` o mundo, diga-se de passagem, é retratada por Braff com grande sensibilidade: durante boa parte da narrativa, Largeman encara os incidentes à sua volta com uma expressão de surpresa, como se procurasse compreender não apenas o que está vendo, mas também qual deveria ser sua reação. Exibindo o carisma e o timing cômico já evidenciados na série Scrubs, o ator-roteirista-diretor estabelece uma forte ligação com o espectador, o que se revela fundamental para o êxito do filme.

Enquanto isso, Natalie Portman oferece sua segunda grande atuação de 2004 (na realidade, este longa foi lançado, nos Estados Unidos, antes de Closer) ao compor uma personagem fascinante: tagarela e impulsiva, Sam é uma jovem cuja aparente vivacidade oculta uma tristeza cuja origem descobrimos gradualmente e que confere ainda mais complexidade à garota. Sem receio de expor-se ao ridículo, Portman comprova sua total entrega ao projeto em cenas nas quais mostra-se surpreendentemente vulnerável, como no instante em que explica para Largeman o que costuma fazer quando sente-se `pouco original`. Porém, a atriz não é a única a brilhar em dois filmes no mesmo ano, já que Peter Sarsgaard, que aqui interpreta com intensidade o frustrado Mark, também ofereceu outra grande performance em Kinsey – Vamos Falar de Sexo.

Ainda assim, a grande força de Hora de Voltar reside mesmo na direção de Zach Braff, que conduz a narrativa e o arco dramático de seus personagens com absoluta segurança, o que deve despertar inveja em muitos cineastas veteranos. Sempre preocupado em transformar suas criações em figuras reais, o jovem diretor revela sua inteligência ao criar momentos de simples intimidade entre Largeman e Sam, como a conversa que o casal mantém em um cemitério de animais e outra que ocorre em frente a uma lareira. Além disso, o rapaz evita vários clichês que poderiam ter comprometido o resultado final: quando o protagonista menciona que não chora há dez anos, por exemplo, somos levados a aguardar uma praticamente inevitável catarse que o leve às lágrimas, mas, em vez disso, o filme nos surpreende com uma cena doce, engraçada e nada melodramática. Da mesma forma, a tão esperada conversa entre Largeman e seu pai adota um tom discreto e intimista, quando vários outros diretores teriam apostado em uma discussão calorosa e impactante.

Mas Braff, como todo cineasta iniciante, comete sua parcela de erros - alguns deles, graves. Logo no início da história, por exemplo, o tom excessivamente extravagante da narrativa quase destrói o filme ao afastar Largeman do `mundo real`, distanciando-o do espectador – a impressão é a de que Braff está se esforçando tanto para provocar o riso que acaba se esquecendo da verossimilhança que o longa deveria ter (mais tarde, ele encontra o equilíbrio entre a farsa e o real). Em contrapartida, o terceiro ato peca por tentar agradar demais ao público, tornando-se mais meloso do que o recomendável – o que não deixa de ser uma traição a tudo o que viera antes.

Mas estes são pecadilhos quando comparados aos inúmeros acertos de Zach Braff. Aliás, se todo jovem ator tivesse uma estréia tão promissora na direção de longas, o Cinema norte-americano estaria bem melhor – ou, no mínimo, não teria gerado um ano tão irregular quanto 2004.

Confesso que estou ansioso para conferir o que Braff, o cineasta, fará em seguida.
``

24 de Janeiro de 2005

Comente esta crítica em nosso fórum e troque idéias com outros leitores! Clique aqui!

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!