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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/01/2005 22/10/2004 2 / 5 2 / 5
Distribuidora

O Grito
The Grudge

Dirigido por Takashi Shimizu. Com: Sarah Michelle Gellar, Jason Behr, Clea DuVall, William Mapother, KaDee Strickland, Grace Zabriskie, Rosa Blasi, Ted Raimi, Ryo Ishibashi, Bill Pullman.

Há quatro anos que o cineasta japonês Takashi Shimizu faz basicamente a mesma coisa: filmar e refilmar a história de Ju-on, que o alçou à fama em sua terra natal. Depois de dirigir dois episódios sobre a casa mal-assombrada para a televisão, Shimizu realizou duas versões para o cinema e, em 2004, comandou a adaptação encomendada pelos produtores americanos. Ao todo, já são cinco longas que contam essencialmente a mesmíssima trama, se passam no mesmíssimo lugar e trazem personagens que são praticamente idênticos uns aos outros, com pouquíssimas variações. Porém, o diretor não parece ter se cansado da franquia, já que se prepara para trabalhar em mais uma continuação para as telas japonesas. Taí um sujeito sem ambições artísticas...

E o mais incrível é que a premissa de O Grito não tem nada de especial: cada `capítulo` se limita a acompanhar uma série de pessoas que entram em uma residência (com visual inspirado na casa de Norman Bates, de Psicose) na qual um crime terrível foi cometido e que, em poucos minutos, tornam-se vítimas da maldição que tomou conta do lugar. É isso. Ponto. Alguém entra na casa e morre. Outra pessoa entra, procurando pela primeira, e também se lasca. Um terceiro pobre-coitado se arrisca em ver o que está acontecendo e... puf! E por aí afora. Para evitar que o espectador perceba que o filme não tem história, Shimizu adota o velho recurso de saltar no tempo durante a narrativa, para passar a impressão de complexidade, mas não há como disfarçar o óbvio: O Grito é uma mera colagem de sustos – e, entre um e outro pulo, ficamos entregues ao tédio.

Ao tédio e ao implausível, devo acrescentar. É claro que buscar lógica em uma produção que gira em torno de espíritos assassinos é um exercício fútil, mas o cineasta deveria ao menos corrigir os furos mais grotescos da trama – principalmente se considerarmos que ele vem trabalhando com o mesmo material há quase cinco anos. Por que, por exemplo, a tal casa não se tornou famosa em função de todas as mortes que já provocou (não é possível que ninguém tenha notado que todos que entram ali, mesmo que rapidamente, acabam morrendo ou desaparecendo...)? E por que novos detetives não foram enviados para cuidar do caso depois do sumiço de seus colegas? E, afinal de contas, por que a `casa` poupa as vidas da idosa adoentada e da personagem de Sarah Michelle Gellar (pelo menos, a princípio)? E o corretor de imóveis? E todos os possíveis locatários que visitaram o imóvel desde que este foi desocupado em função da tragédia que ali ocorreu? (Vale dizer que o casal que dá origem à maldição é interpretado pelos mesmos atores desde o início da série, em 2000...)

Além disso, de que adianta fazer uma versão americana para a história se esta se passará no Japão e terá, na maioria, personagens nipônicos? E, mesmo que aceitemos a ambientação no país do Sol Nascente, por que Shimizu (e seu roteirista-fantasma, Stephen Susco) não se deu pelo menos ao trabalho de explorar o fato de que a protagonista americana certamente se encontraria numa situação muito mais angustiante por estar em um país estranho e cercada por pessoas que não falam sua língua? Aliás, o diretor faz justamente o contrário: cerca Karen (a personagem de Gellar) de compatriotas, criando um pequeno núcleo americano em volta da garota: do namorado ao chefe, passando pela família que se hospeda na casa amaldiçoada, são todos ianques. Ao que parece, o diretor tornou-se simplesmente preguiçoso, já que não julga necessário aperfeiçoar algo que tornou-se o centro de sua existência profissional.

Ainda assim, O Grito tem ótimas seqüências – praticamente todas retiradas sem alterações das versões anteriores: as cenas que se passam no chuveiro, no elevador e em uma escadaria são arrepiantes, e o conceito de acompanhar um dos ataques do espírito através de um monitor de segurança é bastante eficaz. É claro que o filme acaba reutilizando alguns dos clichês consagrados pela onda recente de produções japonesas de terror: a garota-fantasma com o cabelo comprido jogado sobre o rosto; as ameaças por telefone; e assim por diante, mas, de modo geral, Shimizu conseguiu criar boas idéias para assustar o espectador.

Pena que, apesar de interessantes, tais cenas não se juntem para criar uma história coesa – e, mesmo tendo talento para assustar, Takashi Shimizu não tem a menor idéia de como desenvolver personagens, que se resumem ao papel de vítimas indefesas para os vilões sobrenaturais. O resultado é que não há identificação entre o público e os indivíduos que surgem na tela e, assim, não nos importamos com o que acontece a estes (e também por esta razão não vejo sentido em discutir as atuações do elenco, já que os atores não têm material suficiente para trabalhar).

Talvez Shimizu acredite na máxima de que `não se mexe em time que está ganhando` e, por esta razão, insista em refazer o mesmo filme tantas vezes. O que ele não parece perceber é que, artisticamente, já está perdendo de goleada há muito tempo.
``

05 de Janeiro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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