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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/07/2007 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Ratatouille
Ratatouille

Dirigido por Brad Bird. Com as vozes de Patton Oswalt, Ian Holm, Lou Romano, Peter Sohn, Brian Dennehy, Brad Garrett, Janeane Garofalo, Will Arnett, James Remar, John Ratzenberger e Peter O’Toole.

À primeira vista, a mensagem defendida por Ratatouille (“Qualquer um pode cozinhar.”) pode soar como contradição direta àquela divulgada por Os Incríveis, brilhante trabalho anterior do cineasta Brad Bird (“Eles sempre encontram um meio de celebrar a mediocridade!”) – afinal, como dizia Síndrome naquele filme, se “todos forem Super” (leia-se: souberem cozinhar), “ninguém mais será” (leia-se: cozinhar bem será algo prosaico, sem valor). Aos poucos, porém, o verdadeiro significado por trás das palavras do celebrado chef Gusteau (voz de Brad Garrett) se revela com clareza, estabelecendo uma fascinante continuidade temática com Os Incríveis: nem todos podem ser “especiais”, mas o talento e o magnífico podem surgir em qualquer lugar, cabendo ao abençoado com este dom esforçar-se para refinar ao máximo suas habilidades – e não fazê-lo seria algo tão criminoso quanto contentar-se com o banal.


Este é o risco que corre Remy (Oswalt), cujo talento para a culinária transforma-o em um preciosista admirável, um verdadeiro artista sempre comprometido com sua Criação: testemunhar uma sopa sendo arruinada por um cozinheiro sem talento, por exemplo, pode se transformar numa verdadeira tortura para este brilhante chef amador – e confesso que sua habilidade natural para criar receitas e combinar sabores aparentemente díspares me fez lembrar do amaldiçoado (ou abençoado, dependendo da interpretação) protagonista do excepcional Perfume. Aliás, assim como Jean-Baptiste Grenouille, Remy tem uma origem absurdamente humilde que serve como imenso obstáculo à plena realização de seus sonhos: ele é um rato. E se há algo que definitivamente não é bem-vindo na cozinha de um restaurante luxuoso é um roedor.

Evitando transformar seu herói em uma criatura excessivamente fofinha que nos faça esquecer de sua natureza asquerosa (e falo como um ser humano normal que detestaria descobrir que um rato preparou sua comida), Ratatouille torna Remy simpático, mas não a ponto de evitar que sintamos nojo diante da visão de dezenas de ratazanas percorrendo as prateleiras de uma despensa ou correndo pela sala de uma pequena casa. Da mesma forma, a equipe de Brad Bird mantém a lógica visual de Os Incríveis ao criar personagens humanos com características físicas marcantes que ajudam a estabelecer suas personalidades, fugindo de uma estética realista que tornaria tudo aborrecido: assim, o antipático Skinner (Holm) surge como um baixinho cabeçudo com um presunçoso bigodinho ralo, ao passo que o inseguro Linguini (Romano) exibe sua despretensão  já através de seu narigão arredondado e dos cabelos desgrenhados. E se Colette (Garofalo) foge do padrão “cinturinha excessivamente fina, quadril largo e seios arredondados” tão freqüentemente empregados na criação de personagens femininas nas animações, isto não impede que ela surja atraente à sua própria maneira, substituindo o corpo de pin-up por uma personalidade forte que combina perfeitamente com sua luta para ser reconhecida por seus talentos culinários em um universo dominado por homens. Finalmente, a figura altiva mas sombria do crítico Anton Ego (O’Toole), com seus olhos fundos e braços longos, torna-o imediatamente intimidador sem transformá-lo em um monstro, o que é fundamental para o propósito da narrativa (mais sobre isso em um minuto).

Da mesma maneira, a qualidade da animação é impecável, como já poderíamos esperar da Pixar: observem, por exemplo, a maneira com que Linguini se movimenta quando controlado por Remy, lembrando claramente uma marionete, e perceba, também, a sutileza nos gestos de Skinner ao girar a garrafa de vinho cuidadosamente ao servir uma taça ao rapaz (os enólogos certamente apreciarão o detalhe) ou a expressão torturada de Colette ao lutar para conter seu impulso de desferir um tapa em alguém. Só é lamentável que, ao final dos créditos, os artistas da Pixar sintam a necessidade de alfinetar a técnica de motion capture através de um “certificado de garantia” que afirma que tudo foi criado por animação, sem a utilização de atores ligados a sensores: afinal, como artista que migrou da animação tradicional para a computadorizada (é dele, o clássico moderno O Gigante de Ferro), Brad Bird deveria ser a última pessoa a menosprezar novas formas de criar Arte – e o motion capture, afinal de contas, já originou obras-primas como O Expresso Polar e A Casa Monstro.

Provocações infantis à parte, o fato é que o design de produção de Ratatouille oferece um verdadeiro espetáculo: a Paris apresentada pelo filme é uma visão de tirar o fôlego, mas o longa não se esquece também de seus cenários interiores, concebendo-os de forma a auxiliar o roteiro a estabelecer o clima necessário em cada cena, como podemos constatar pelo escritório triste e amontoado de papéis utilizado pelo deprimido inspetor sanitário (num plano que dura 15 segundos, se muito), pelo restaurante iluminado de maneira aconchegante e elegante e, é claro, pelo espaço de trabalho de Anton Ego, com seu formato de caixão, o altar dedicado a si mesmo e a máquina de escrever que se assemelha a uma ameaçadora caveira.

E já que citei Ego pela segunda vez, é inevitável deter-me um pouco mais neste que se tornou meu personagem favorito do filme, por motivos óbvios (sua figura tornou-se, inclusive, meu avatar no MSN e no fórum do Cinema em Cena): inicialmente apresentado como um indivíduo arrogante e antipático que parece sentir prazer em destruir o trabalho alheio, Ego (sim, sim, eu sei) talvez seja interpretado como um ataque frontal à Crítica por aqueles que já têm uma tendência natural a condenar a natureza do trabalho destes profissionais. No entanto, creio que estas pessoas estarão equivocadas, já que, ao contrário do ataque infantil feito por M. Night Shyamalan em seu terrível A Dama na Água, Brad Bird acaba transformando Anton Ego naquele que deveria ser o exemplo perfeito do crítico que merece respeito irrestrito (talvez ele pudesse ter um visual menos... hum... nosferático, mas tudo bem). Explico: é fato que Ego parece determinado a destruir a reputação do Gusteau’s, o que poderia ser visto superficialmente como algo mesquinho e reprovável, revelando um senso de auto-importância que o motivaria a agir contra o restaurante. Porém, é então que ocorre a seguinte – e extremamente reveladora – conversa entre Linguini e o crítico:

- Você parece magro demais para alguém que diz gostar de comida. – provoca o primeiro.

- Eu não “gosto” de comida. Eu amo comida! Mas quando não gosto do que provei, eu não engulo.

Este diálogo é um reflexo perfeito da acusação de que o critico parece detestar a área que estuda (no meu caso, Cinema, obviamente), sentindo prazer descomedido em destruir as obras que analisa. Não duvido que haja (maus) profissionais que de fato extravasem suas frustrações pessoais nas análises que publicam, mas o bom crítico é aquele que, em primeiro lugar, ama a Arte com a qual trabalha – e como qualquer pessoa que dedica amor incondicional a alguma coisa, o crítico simplesmente não pode tolerar o desrespeito ao objeto de sua paixão. Ver alguém tratar o Cinema como simples forma de ganhar fama e dinheiro ao mesmo tempo em que realiza filmes rasteiros que parecem ter sido criados sem qualquer interesse em seus aspectos estéticos e/ou narrativos é algo que, para o amante da Sétima Arte, se assemelha à reação de um religioso ao ver alguém defecar no altar de uma Igreja. E é isto que move Anton Ego: por amar a Culinária, ele despreza, inicialmente, a afirmação de Gusteau de que “qualquer um pode cozinhar” (só mais tarde ele compreenderá o que o chef quis dizer com isso) e, posteriormente, ele se enraivece ao constatar que o nome do restaurante está sendo emprestado à divulgação de comida congelada (o similar gastronômico dos filmes de Rob Schneider, imagino). No entanto, ao se deparar com a verdadeira Arte, o bom critico não hesita em defendê-la com unhas e dentes, mesmo que para isso corra o risco de sacrificar sua posição, afastar leitores ou – o inimaginável! – assumir posturas que entrem em contradição direta com posições passadas (serei capaz de defender Schneider quando este fizer um bom filme?).

Como você pode perceber, Ratatouille, assim como Os Incríveis e O Gigante de Ferro, representa não apenas uma diversão imperdível (suas seqüências de ação são sensacionais e seu senso de humor é invejável) como também pode dar origem a discussões estimulantes sobre a natureza da Arte, do artista e do estudioso – e há até mesmo uma interessante leitura sobre o racismo em sua narrativa. Em outras palavras, este é o tipo de prato cujos méritos Anton Ego não hesitaria um segundo em alardear em alto e bom som. E, portanto, sigo aqui o exemplo do mestre.
 

06 de Julho de 2007

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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