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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
11/11/2005 03/06/2005 4 / 5 3 / 5
Distribuidora
Duração do filme
139 minuto(s)

Manderlay
Manderlay

Dirigido por Lars von Trier. Com: Bryce Dallas Howard, Danny Glover, Willem Dafoe, Isaach De Bankolé, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Jeremy Davies, Chloë Sevigny.

Não é segredo algum que o cineasta dinamarquês Lars von Trier planejou Dogville apenas como a primeira parte de uma trilogia que supostamente `dissecaria` os Estados Unidos, expondo a corrupção de seus valores e a podridão de uma sociedade megalomaníaca e essencialmente fútil. Exageros à parte, o fato é que o longa protagonizado por Nicole Kidman funcionava, antes de qualquer coisa, como uma parábola sobre a própria natureza humana, podendo se aplicar a praticamente qualquer país e a qualquer época de nossa conturbada História. Infelizmente, Manderlay, o ato central da trilogia de von Trier, abandona sua universalidade e sua condição de parábola e revela-se um filme panfletário que, num discurso muitas vezes simplista, se enfraquece justamente ao tentar transformar a `América` (são ou não são megalomaníacos?) num caldeirão de malignidade – e, no processo, limita seu próprio alcance ao assumir a condição de pregação declarada.

Depois de abandonar a pequena Dogville, Grace, acompanhada pelo pai mafioso e sua comitiva de gângsteres, viaja pelo sul dos Estados Unidos e resolve parar em uma grande fazenda ao descobrir que um negro estava prestes a ser chicoteado pelos donos da propriedade, conhecida como Manderlay. Revoltada ao constatar que um verdadeiro regime de escravidão é mantido ali, a moça utiliza os capangas do pai para assumir a administração do lugar, obrigando os fazendeiros a trabalharem lado-a-lado com seus antigos servos ao mesmo tempo em que se dedica a ensinar os negros libertos sobre as virtudes da democracia.

Interpretada desta vez por Bryce Dallas Howard, Grace é uma mulher que ainda acredita que o ser humano é inerentemente virtuoso e que, sob as condições ideais, uma sociedade justa e igualitária pode ser desenvolvida. A diferença fundamental é que, se em Dogville ela adotou uma postura passiva e se submeteu como cobaia de sua própria experiência sociológica, agora Grace assume o controle e se torna parte ativa do exercício, estabelecendo regras de conduta para todos os demais. Talvez por esta razão, a personagem agora se mostra infinitamente menos delicada e vulnerável e surge mais bruta e mesmo impaciente (é claro que também devemos considerar o trabalho de composição das duas atrizes; esperar que Howard e Kidman criassem personagens idênticas seria subestimar ambas). De todo modo, Grace mais uma vez surpreende-se com o individualismo exacerbado de seus companheiros – uma característica da qual ela mesma não é isenta, já que algumas de suas ações finais podem obviamente ser interpretadas como resultado de um ego ferido, e não de uma pessoa interessada apenas no bem comum.

Isso, no entanto, não desmerece o longa; é admirável que sua protagonista seja uma figura complexa e mesmo contraditória. O problema é quando o próprio filme se mostra moralmente confuso, sem parecer saber exatamente no que acredita ou não. O que von Trier pensa sobre a democracia, por exemplo? É algo fundamental para garantir nossos direitos ou é um instrumento utilizado para massacrar as minorias? E o que, exatamente, o roteiro pretende dizer ao trazer o personagem de Danny Glover criticando Grace por ter `mandado as armas embora cedo demais`? A força pode se fazer necessária na educação da `massa ignorante`? Confesso que posturas absurdas como estas não me espantariam; Lars von Trier sempre demonstrou um certo niilismo em seus filmes. Por que, então, não escancarar suas posições em vez de fazer um joguinho duplo, defendendo o voto popular aqui e condenando-o ali?

Outro grave equívoco de Manderlay é a visão reducionista com que seu autor encara a situação dos negros no mundo contemporâneo. É fato que a escravidão literal do passado foi substituída por uma escravidão social e econômica nos dias de hoje; não é coincidência o fato da população negra representar maioria entre as classes mais pobres, enfrentando terríveis obstáculos até mesmo para conseguir uma educação formal semelhante à da classe dominante. E também é fato que muitos brancos, tomados por um sentimento de culpa semelhante ao de Grace, tentam sublimá-lo através de um assistencialismo barato que em nada contribui para mudar esta situação, servindo mais como alívio para quem o pratica do que para quem o recebe. O pior, no entanto, é testemunhar os esforços do cineasta para imputar aos Estados Unidos todo o peso da culpa pelo racismo ainda vigente no mundo, ignorando, para início de conversa, as origens do sistema – o que não deixa de ser uma ironia, considerando-se que Lars von Trier é europeu e, portanto, aparentemente cego com relação à própria responsabilidade. E isto torna Manderlay algo que Dogville evitava ser: demagógico.

Em contrapartida, é preciso reconhecer que, discursos à parte, Manderlay conta com um roteiro estruturalmente impecável, com uma trama bem amarrada, elementos e reviravoltas que se encaixam de forma inteligente à medida que a narrativa avança e apresentando uma série de conceitos instigantes (embora a `divisão psicológica` proposta pelo filme se enfraqueça ao ser aplicada exclusivamente aos personagens negros, quando poderia ser mais ambiciosa e abrangente). Além disso, os diálogos são extremamente elegantes e bem construídos, o que sempre é algo que deve ser admirado.

Enquanto isso, a concepção visual da produção, semelhante à do original, continua a funcionar para transformar Manderlay em um lugar genérico, fortalecendo a intenção de von Trier em criar um retrato que se aplique a qualquer lugar da América. Por outro lado, desta vez os subtextos sugeridos pela ausência de paredes não são aproveitados: antes, nos assustávamos ao testemunharmos incidentes que, mesmo ocorrendo na frente de todos, eram ignorados; aqui, o máximo que o cineasta consegue é repetir o maravilhoso plano em que Nicole Kidman, coberta pela lona sobre a carroceria de um caminhão, continuava a ser vista pela câmera (desta vez, é a tampa de um caixão que se torna transparente). Já a fotografia apresenta-se nervosa, freqüentemente pulando o eixo da ação, alterando o foco durante as tomadas e mesmo empregando luzes duras que se acendem sobre os personagens de maneira brusca e teatral (mas que funcionam neste contexto).

Manderlay é um belo filme, sem dúvida alguma, mas empalidece frente ao seu antecessor ao tentar igualar-se como discurso sociológico, já que mostra suas `garras` ostensivamente, tornando-se imediatamente suspeito. Em um de seus raros momentos de sutileza política, o roteiro retrata a aproximação de antigos inimigos (fazendeiros brancos e servos negros) frente a uma ameaça maior: uma tempestade de areia – algo que ilustra com perfeição a tática clássica dos governantes norte-americanos para conseguir legitimidade em tempos de crise, buscando guerras que os `transformem` em estadistas. Pena que este seja um exemplo isolado nesta continuação.
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11 de Novembro de 2005

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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