Entre Quatro Paredes
Dirigido por Todd Field. Com: Tom Wilkinson, Sissy Spacek, Marisa Tomei, Nick Stahl, William Mapother, William Wise, Celia Weston, Veronica Cartwright e Karen Allen.
Assistir a Entre Quatro Paredes não é uma experiência prazerosa. Durante cerca de duas horas, o filme martela o espectador com situações trágicas, conflitos psicológicos dolorosos e personagens aflitos e sem rumo, transformando-se em um amargo estudo sobre o lento processo de cura percorrido por uma família. Aliás, nem mesmo o momento em que dois personagens discutem abertamente suas mágoas e culpas serve como alívio para a platéia – ao contrário: a impressão que tive foi a de que ninguém no cinema gostaria de estar presenciando aquela triste (e brutal) troca de acusações.
Ambientada em uma pacata cidade do litoral americano, a história gira em torno de Frank (Stahl), um jovem que se envolve com Natalie (Tomei), uma mulher mais velha, recém-divorciada e mãe de dois filhos pequenos. Obviamente, a relação não agrada muito a Ruth (Spacek), mãe do rapaz, que teme que aquilo seja algo mais do que um namoro de verão – algo que ela tenta discutir com o marido, que, por sua vez, não leva a situação muito a sério, chegando a sentir um orgulho velado por ver o filho ao lado de uma mulher tão atraente. Infelizmente, Richard (Mapother), o ex-marido de Natalie, também não aprova o namoro e assume uma postura agressiva que traz ainda mais preocupações a Ruth – e é então que um acontecimento trágico altera a vida de todos.
Escrito por Robert Festinger e Todd Field (que também assume a direção) a partir de um conto de Andre Dubus, o roteiro de Entre Quatro Paredes jamais assume uma postura tendenciosa com relação às motivações de seus personagens, o que permite que o espectador compreenda melhor a dinâmica do relacionamento entre estes: Frank, por exemplo, é retratado como um jovem ingênuo que se encontra disposto a largar os estudos por estar fascinado com a idéia de se tornar pai dos filhos de Natalie - o que evidencia sua imaturidade e nos leva a compreender a preocupação de sua mãe, já que também sentimos que ele virá a se arrepender de sua atitude no futuro. Por outro lado, não podemos deixar de simpatizar com a namorada do rapaz, que certamente merece ser feliz depois de ter sofrido nas mãos do ex-marido. Finalmente, somos perfeitamente capazes de entender a postura despreocupada do doutor Matt Fowler, pai de Frank, já que muitas vezes também não percebemos a dimensão real de determinados problemas até que seja tarde demais.
A principal conseqüência desta nossa identificação com os personagens pode ser percebida na segunda metade da projeção, quando Natalie e a família Fowler sofrem o impacto de uma perda e mergulham em uma rotina de recriminações e depressão: familiarizado com aquelas pessoas, o espectador também experimenta uma sensação de confusão frente à nova realidade, sem saber exatamente a quem deve oferecer sua simpatia. Por sua vez, o diretor Todd Field não torna nossa tarefa mais fácil, já que jamais permite que Ruth e Matt exponham claramente seus sentimentos, enquanto Natalie praticamente foge do convívio social (desaparecendo durante boa parte do filme). Além disso, o cineasta evita a armadilha do melodrama, substituindo lágrimas por cenas em que o silêncio dos protagonistas é mais doloroso do que qualquer choro convulsivo.
É claro que nada disso funcionaria caso o elenco de Entre Quatro Paredes não contasse com atores talentosos: Wilkinson, por exemplo, é extremamente bem-sucedido ao retratar Matt como um sujeito que se apega desesperadamente aos mecanismos burocráticos da justiça como forma de desviar a dor que está sentindo; enquanto Spacek é hábil ao ilustrar o sofrimento de Ruth através de seu rancor e de seu alheamento. Já Marisa Tomei prova novamente ser uma grande atriz graças à expressividade de seu olhar, que oscila entre o amor, a preocupação, o medo e a amargura. Além disso, eu jamais poderia deixar de mencionar os desempenhos de Nick Stahl, que cativa a platéia com o bom coração de Frank, e de William Mapother, que consegue a proeza de humanizar Richard em um momento crucial do terceiro ato da história.
Outro aspecto interessante do filme reside em sua trilha sonora, composta por Thomas Newman: em vez de tentar criar um acompanhamento melancólico para as cenas mais tocantes da história, ele restringe a trilha a pouquíssimos momentos, permitindo que o silêncio sirva como trilha de boa parte da projeção. Esta decisão se revela acertada ao conferir um tom ainda mais realista ao filme, já que, em nosso cotidiano, nunca temos a música ideal para cada ocasião (em certo momento da trama, Natalie e Matt têm uma difícil conversa em que muito é dito pelo embaraço com que eles se olham e pouco pelos diálogos – e a cena se torna ainda mais comovente graças à música ambiente do local em que eles se encontram, a balada romântica Baby, I Love Your Way, que pouco tem a ver com o que está ocorrendo naquele instante, mas que remete diretamente à perda da felicidade afetiva que ambos sofreram).
Apesar da chocante reviravolta que acontece no terceiro ato (e que pode desagradar a algumas pessoas, já que, de certa forma, trai a natureza de seus próprios personagens), Entre Quatro Paredes é um belo filme que compreende algo que Hollywood muitas vezes parece ignorar: nem sempre somos capazes de definir exatamente o que estamos sentindo (o que me faz lembrar de Magnólia, no qual o personagem de William H. Macy diz: `Eu às vezes confundo melancolia com depressão`). Depois de ver uma foto de Natalie sorrindo ao lado de certa pessoa, por exemplo, o médico vivido por Tom Wilkinson tenta analisar o sentimento que aquela visão lhe provocou e não consegue chegar a uma conclusão, o que, por si só, já significa muita coisa.
Em uma indústria comandada por heróis unidimensionais e enredos simplistas, Entre Quatro Paredes se destaca por não oferecer respostas definitivas para os dramas de seus protagonistas, o que talvez o condene a uma carreira não muito bem-sucedida nos cinemas – e isto é uma pena. Afinal de contas, é esta subjetividade que nos torna humanos.
1o. de Março de 2002

Um casal vê sua vida transtornada quando seu único filho se envolve com uma mãe solteira. Agora, os dois terão que lutar para superar os obstáculos e permanecer juntos.
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