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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
22/03/2002 25/01/2002 1 / 5 3 / 5
Distribuidora

Uma Lição de Amor
I Am Sam

Dirigido por Jessie Nelson. Com: Sean Penn, Dakota Fanning, Michelle Pfeiffer, Dianne Wiest, Richard Schiff, Laura Dern, Mary Steenburgen, Brent Spiner, Brad Allan Silverman, Joseph Rosenberg, Stanley DeSantis e Doug Hutchison.

Uma Lição de Amor é um filme longo, maniqueísta e implausível. Apostando no potencial dramático de seu protagonista, o filme simplesmente não compreende que possuir um bom personagem não é o suficiente para se criar uma boa história. É uma pena, portanto, que Sean Penn (o único ator de sua geração que eu teria coragem de comparar ao magnífico Marlon Brando) desperdice seu talento em um projeto tão medíocre.

Escrito por Kristine Johnson e Jessie Nelson (que também assume a direção), Uma Lição de Amor parte de uma premissa até interessante: depois de passar uma única noite com uma mulher que o seduziu como forma de encontrar um lugar para morar, Sam (Penn) torna-se o pai solteiro de uma linda garotinha. Extremamente ligados um ao outro, pai e filha estabelecem uma relação sadia e repleta de amor – até que, certo dia, Sam é preso em um mal-entendido e acaba chamando a atenção de uma assistente social, que o julga incapaz de cuidar de uma criança. Por que? É aí que reside a singularidade da história: Sam é um deficiente mental com tendências autistas, possuindo a idade mental de uma pessoa de sete anos. Disposto a tudo para recuperar a guarda de Lucy (Fanning), ele consegue o auxílio de Rita (Pfeiffer), uma advogada egocêntrica, mas bem-sucedida.

A seu favor, Uma Lição de Amor tem apenas um fator: a atuação de Sean Penn, que prova, pela enésima vez, seu colossal talento, já que não se limita simplesmente a criar maneirismos para compor Sam. Aliás, o ator assume com tamanha dedicação a realidade de seu personagem que o resultado final se torna assustadoramente convincente: observe com atenção os olhos de Sam e não verá muita coisa além do vazio. Na verdade, o desempenho de Penn é tão fantástico que os produtores não tiveram o menor receio de escalar dois deficientes mentais reais para os papéis de amigos de seu personagem neste filme – e ainda assim ele soa de forma autêntica (o mesmo não pode ser dito sobre as interpretações de Doug Hutchison e Stanley DeSantis, que não convencem quando aparecem ao lado de seus companheiros `legítimos`). Enquanto isso, elogios também devem ser feitos ao trabalho da garotinha Dakota Fanning, que ajuda a estabelecer um comovente relacionamento entre Lucy e seu pai.

Infelizmente, depois de conquistar o espectador graças ao carinho entre estes dois personagens, a história se transforma em um drama de tribunal – e dos piores. Primeiro, porque abusa dos clichês e dos diálogos pouco inspirados; e, segundo, porque é neste ponto que a advogada interpretada por Michelle Pfeiffer entra em cena – e poucas vezes a atriz se mostrou tão despreparada quanto neste filme. Na verdade, a atuação de Pfeiffer em Uma Lição de Amor é embaraçosamente ruim, contribuindo para o fracasso do projeto (e a subtrama envolvendo seus problemas com o marido e o filho serve apenas para desviar a atenção do público, que não se importa com a moça). Aliás, as roteiristas parecem determinadas a levar o espectador às lágrimas de qualquer maneira, já que vários personagens secundários descrevem seus infortúnios em algum momento da projeção (e, por melhor que seja rever Dianne Wiest, a `revelação` sobre sua Annie é ridícula).

Como se não bastasse a péssima qualidade do roteiro, Jessie Nelson compromete ainda mais o filme ao realizar um trabalho grosseiro e mal concebido: ao tentar conferir um clima intimista à história através da utilização de closes fechadíssimos e de câmeras sempre em movimento, a cineasta alcança um efeito inverso, impedindo que nos aproximemos de Sam (e, com o passar do tempo, sua insistência em distorcer o foco torna-se irritante). E o que é pior: sem saber como lidar com o material produzido pela diretora (algo compreensível, já que Nelson parece ter fobia de quadros fixos), o editor Richard Chew – que entrou em franca decadência depois de trabalhar em Star Wars e Um Estranho no Ninho – apela para uma montagem histérica e pouco eficaz (em certo momento, contei nada menos do que sete cortes enquanto Sam dizia apenas uma frase, o que dilui a importância do que está sendo dito).

Porém, o maior equívoco de Uma Lição de Amor reside em sua moral: apesar de tentar convencer o público de que Lucy deveria ficar com o pai, o filme acaba alcançando um resultado oposto, já que acabamos concordando, ao menos em parte, com a argumentação do promotor, que parece ser um sujeito razoável (mesmo que o roteiro tente retratá-lo como um homem frio e cruel). Sem saber como lidar com o impasse, a trama opta por uma saída covarde e desonesta, empurrando para o espectador um final ofensivamente improvável.

É estranho que Sean Penn, um ator famoso por seu cuidado ao escolher novos projetos, tenha aceitado participar deste melodrama barato sem exigir inúmeras revisões no roteiro – e é lamentável que seu desempenho não tenha sido empregado em uma produção melhor. No entanto, se considerarmos que até mesmo Marlon Brando protagonizou sua cota de filmes medíocres (lembrem-se de Os Que Chegam com a Noite e A Ilha do Dr. Moreau), nada mais natural do que perdoarmos a escolha de Penn. Afinal, até os gênios têm o direito de errar ocasionalmente.
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17 de Março de 2002

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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