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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
04/06/2004 31/05/2004 4 / 5 4 / 5
Distribuidora

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban
Harry Potter and the Prisoner of Azkaban

Dirigido por Alfonso Cuáron. Com: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Gary Oldman, Julie Walters, Julie Christie, Robbie Coltrane, Michael Gambon, Maggie Smith, Emma Thompson, Alan Rickman, David Thewlis, Timothy Spall, Tom Felton.

Quando escrevi sobre Harry Potter e a Pedra Filosofal, ainda em 2001, observei: `(Chris) Columbus não é o diretor ideal para comandar o terceiro capítulo da série, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, mais tenso do que os anteriores`. Três anos e dois filmes depois, posso tranqüilizar-me com relação ao que afirmei: esta mais nova adaptação dos livros de J.K. Rowling possui algo que claramente faltava às demais: uma sensação de urgência e perigo que transforma o universo dos bruxos em um mundo que não se limita mais apenas à magia, incluindo também incertezas, dor e angústia.

Novamente roteirizada por Steve Kloves, a história traz Harry já adolescente e enfrentando um novo desafio (além dos hormônios): a possibilidade de que um assassino chamado Sirius Black, acusado de ser assecla de Lord Voldemort, tenha fugido da prisão de Azkaban com o claro propósito de matá-lo. Contando com o auxílio de seu novo professor, o gentil Lupin (numa interpretação carismática de David Thewlis), o jovem bruxo procura preparar-se para um ocasional confronto ao mesmo tempo em que, ao lado de seus amigos Ron e Hermione, tenta consolar Hagrid, cujo hipogrifo de estimação (um cruzamento de águia e cavalo) foi condenado à morte pelo Ministério da Magia.

Experiente em comandar obras claramente mergulhadas em tons de fábula (A Princesinha, Grandes Esperanças), o cineasta mexicano Alfonso Cuarón imprime a Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban um aspecto sombrio, sem, com isto, perder a característica mais fascinante da série: o invencionismo de Rowling – e, desta forma, enriquece aquele universo com detalhes como o Livro dos Monstros (que é, ele próprio, uma pequena monstruosidade), o bicho-papão (que é amedrontador justamente por poder assumir a aparência que sua vítima mais teme) e, é claro, o tal hipogrifo (até o momento, a mais bem realizada criatura digital da série, deixando o troll do primeiro filme e o elfo doméstico do segundo a anos-luz de distância). Além disso, Cuarón acrescenta um elemento importante ao projeto ao demonstrar sensibilidade com relação ao difícil período da adolescência – algo que já poderíamos esperar do diretor de ...E Sua Mãe Também. Assim, quando vemos, logo no plano inicial do longa, Harry Potter escondido sob o lençol enquanto brinca com sua varinha mágica, é impossível conter um sorriso frente à sutileza com que o cineasta trabalha questões delicadas no desenvolvimento de qualquer jovem.

Da mesma forma, O Prisioneiro de Azkaban é extremamente bem-sucedido ao transformar Hogwarts em um lugar real, e não apenas no belo cenário de Cinema visto nos capítulos anteriores: ao alterar a geografia da Escola de Magia e Bruxaria, acrescentando montanhas, vales e caminhos pavimentados com pedras, Cuarón dá maior dimensão à instituição, além de oferecer indícios de que caminhar pela propriedade pode ser algo bastante arriscado. E não é só isso: pela primeira vez, podemos ver os jovens alunos de Hogwarts interagindo descontraidamente (como seria de se esperar) no dormitório, em vez de limitarem-se apenas a discutir as reviravoltas da trama. Finalmente, vale observar também que a seqüência em que os alunos aprendem a lidar com o bicho-papão representa a única vez em que uma aula soa `autêntica` desde que a série começou a ser adaptada para as telonas (o que é importante, já que, afinal de contas, os filmes se passam em uma escola...).

Porém, se o terceiro capítulo merece elogios por desenvolver seu mundo particular, o mesmo não pode ser dito sobre os personagens, que são mal explorados pelo roteiro de Kloves, que nada acrescenta ao que já sabíamos sobre aqueles indivíduos – o que é lamentável, já que um ótimo trabalho foi feito neste sentido em A Câmara Secreta. Apesar da grande quantidade de diálogos (que pode impacientar os espectadores mais jovens), o filme utiliza as conversas apenas para fazer a narrativa caminhar, sem oferecer maiores vestígios sobre as motivações e conflitos dos heróis e vilões. Para piorar, Ron é transformado em simples alívio cômico, perdendo todas as demais características que o destacavam nos livros, como seu senso de dedicação a Harry e sua disposição de se sacrificar pelo amigo.

Isto não quer dizer, no entanto, que os jovens atores não estejam bem em seus papéis; ao contrário: Radcliffe, Watson e Grint se mostram bastante confortáveis como Harry, Hermione e Ron, demonstrando sua crescente familiaridade com os pequenos bruxos (Radcliffe, em especial, ilustra com talento as emoções intensas do protagonista). E não há como não admirar o trabalho de um elenco absolutamente notável, que, seguindo as tradições da franquia, se converte em um verdadeiro `Quem é Quem` do teatro e do Cinema britânicos: Emma Thompson diverte com a excentricidade da professora Trelawney; Gary Oldman vive Sirius Black com sua intensidade habitual e Timothy Spall dá indícios de que poderá se destacar nos próximos capítulos (desta vez, ele aparece pouco). Para completar, Michael Gambon assume com personalidade a difícil tarefa de substituir o falecido Richard Harris no papel de Dumbledore – e o que é melhor: confere novas características ao personagem, que torna-se mais ágil e vivaz (Harris investia, também de forma interessante, no cansaço – apenas aparente – do velho mago). Não menos curioso é constatar que, agora, Dumbledore veste um figurino que remete à cultura hippie, emprestando-lhe jovialidade e um certo grau de imprevisibilidade.

Mesmo falhando na maior parte de suas tentativas de fazer rir, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban é, até agora, o exemplar mais regular da série, ficando um pouco à frente de A Câmara Secreta (o terceiro ato, em particular, engrandece o filme com suas brincadeiras com o tempo – que lembram, em parte, o que acontecia em De Volta para o Futuro Parte 2). Ainda não foi desta vez que a série produziu um capítulo genuinamente `5 estrelas` (se é que isso faz alguma diferença), mas, de modo geral, as aventuras de Potter estão longe de decepcionar. E, considerando-se o que Hollywood costuma fazer com livros de sucesso, isto, sim, é um verdadeiro exemplo de magia.

Observação: Os créditos finais da produção merecem ser conferidos por sua originalidade.
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15 de Junho de 2004

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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