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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/01/2004 21/05/2003 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Dogville
Dogville

Dirigido por Lars von Trier. Com: Nicole Kidman, Paul Bettany, Philip Baker Hall, Patricia Clarkson, Stellan Skarsgård, Jeremy Davies, Chloë Sevigny, Udo Kier, Lauren Bacall, James Caan, Harriet Andersson, Ben Gazzara e John Hurt.

Depois de se libertar de todas as limitações técnicas e narrativas auto-impostas através do movimento Dogma 95 (durante o qual realizou o fraco Os Idiotas), o cineasta dinamarquês Lars von Trier dirigiu o excepcional Dançando no Escuro, trilhando o caminho oposto de seu colega Thomas Vinterberg, que comandou o melhor título do manifesto (Festa de Família) somente para se perder no recente O Dogma do Amor (que nada tem a ver com o Dogma 95). Pois agora von Trier prova que é mesmo um diretor talentoso e criativo com este brilhante Dogville, no qual utiliza um recurso que não se afasta muito das `proibições` que havia determinado em 1995: se antes havia condenado o emprego de trilha sonora e de qualquer luz que não fosse a ambiente, agora o realizador resolveu `banir` os cenários – e, assim, a pequena cidade que dá nome ao filme se resume apenas a uma série de traços no chão e a pequenos adereços de cena, como cadeiras e camas.

Situada durante a Grande Depressão Americana dos anos 30, a história gira em torno de Grace (Kidman), uma jovem que, depois de fugir de perigosos mafiosos, vai parar na minúscula Dogville, que possui pouco mais de uma dezena de residentes. Encantado com a moça, o introspectivo Tom (Bettany) propõe que a cidade ofereça abrigo a Grace, que, em troca, faria pequenos serviços para seus moradores. Aos poucos, porém, os aparentemente pacatos habitantes de Dogville vão exibindo um lado sombrio e passam a explorar a garota, que, impedida de abandonar o lugar, se descobre em uma prisão capaz de lhe causar mais sofrimentos do que os próprios gângsters.

Apesar da estranheza inicial provocada pelos cenários atípicos (ou melhor: por sua ausência, já que os personagens chegam a abrir e fechar portas invisíveis para o público), a idéia cinematograficamente teatral (ou eu deveria dizer `teatralmente cinematográfica`?) de Lars von Trier acaba se revelando um recurso simplesmente genial, ajudando a realçar o sentimento de isolamento de Dogville, cujas fronteiras (mergulhadas em completa escuridão ou em um branco absoluto, dependendo do momento do dia) parecem bloquear quaisquer intervenções externas. Além disso, a cidade assume um caráter verdadeiramente universal, já que passa a ser `recriada` na mente de cada espectador, que, livre da influência do diretor, pode imaginá-la como bem entender.

Mas não é só isso: as paredes `invisíveis` do lugarejo reforçam a idéia de que, numa cidade pequena como Dogville, é simplesmente impossível guardar segredos, já que todos estão constantemente vulneráveis ao escrutínio alheio (mesmo que, para eles, as paredes existam). Curiosamente, mesmo a total exposição dos personagens não permite que percebamos o lado sombrio de cada uma daquelas pessoas e, com isso, somos surpreendidos por suas crueldades juntamente com Grace – algo que colabora com a tese defendida pelo filme: mesmo o ser humano mais inofensivo e pacífico em sua aparência pode ocultar uma personalidade contraditória e até mesmo ameaçadora, sendo impossível, para qualquer um, determinar quem é realmente aquela pessoa de quem somos tão próximos (mesmo depois de anos de relacionamento).

O interessante é que a ausência de cenários também funciona de maneira inversa, ilustrando que, muitas vezes, somos incapazes de perceber algo que ocorre praticamente ao nosso lado – como na cena em que Grace sofre terríveis abusos por parte do personagem de Stellan Skarsgård enquanto os demais habitantes de Dogville realizam suas tarefas cotidianas sem perceber o que está acontecendo. Com isso, é impossível negar que a cenografia deste projeto é extremamente eficaz, já que é hábil ao transmitir uma série de conceitos a partir de sua simples inexistência (e, a bem da verdade, a bela atuação do elenco leva o público a acreditar naquela cidade. Particularmente, consegui imaginar até mesmo o mofo no teto da casa de Chuck e Vera e a poeira da sala de Jack McKay).

E mais: sem oferecer distração de espécie alguma, Dogville leva o espectador a se concentrar na história e nos diálogos, o que é fundamental, já que o longa é inquestionavelmente um complexo estudo de personagens. Não é à toa que até mesmo a bela narração de John Hurt foge da simples descrição de eventos e se dedica a nos oferecer um olhar na alma de cada um dos moradores da cidade – do garotinho com traços masoquistas ao rapaz pseudo-intelectual que não consegue enxergar sua própria mediocridade, passando pela garota que, embora finja detestar o assédio dos vizinhos, não esconde a vaidade ao ouvir qualquer elogio.

No entanto, é Grace quem obviamente recebe o maior destaque: idealista e (talvez por isso) ingênua ao extremo, a garota acredita na bondade do Homem e mostra-se sempre ansiosa para receber qualquer sinal de que sua confiança nos moradores de Dogville não é em vão. Transformando-se em uma verdadeira Branca de Neve, ela é constantemente surpreendida pela brutalidade cada vez maior de seus novos vizinhos, que, assim, exercem simultaneamente os papéis de `Anões` e de `Bruxa Malvada`. E, se em determinado momento ela não consegue conter sua própria crueldade, é fácil perceber que sua raiva não é fruto dos abusos sofridos, mas sim da frustração de ver seu otimismo ser destruído por suas experiências – e a conclusão genuinamente apoteótica do filme, repleta de uma ironia impiedosa, revela muito não apenas sobre Grace e os demais personagens de Dogville, mas também sobre o espectador: basta perguntarmos a nós mesmos o que sentimos com o desfecho da produção.

Dirigido com uma segurança admirável por Lars von Trier (que, como autor do roteiro, também merece aplausos por sua corajosa iniciativa), Dogville deverá ser lançado nos cinemas brasileiros em uma versão 45 minutos menor do que aquela à qual assisti durante a 27ª Mostra Internacional de São Paulo, o que é uma pena. Embora não possua uma trama definida, o que permite o corte de praticamente qualquer seqüência sem prejuízo para a história, o filme é, como eu disse anteriormente, um excepcional estudo de personagens – e, com isso, qualquer corte pode arruinar completamente a experiência, destruindo inteiramente a belíssima estrutura concebida com tanto cuidado por seu diretor.

De qualquer forma, não deixe de assistir a esta obra-prima. Não é sempre que o Cinema produz algo assim.

Observação (em 14 de Janeiro de 2004): Felizmente, a distribuidora brasileira voltou atrás em sua decisão de lançar a versão mutilada de Dogville. Parabéns à Imovision.
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11 de Novembro de 2003

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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