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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
28/02/1997 06/12/1996 3 / 5 / 5
Distribuidora

Direção

Anthony Minghella

Elenco

Ralph Fiennes , Kristin Scott Thomas , Juliette Binoche , Willem Dafoe , Naveen Andrews

Roteiro

Anthony Minghella

Produção

Saul Zaentz

Fotografia

John Seale

Música

Gabriel Yared

Montagem

Walter Murch

Design de Produção

Stuart Craig

Figurino

Ann Roth

Direção de Arte

Aurelio Crugnola

O Paciente Inglês
The English Patient

Dirigido por Anthony Minghella. Com Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews.

É interessante como podemos nos enganar quanto a certos filmes. Antes de ir ver O Paciente Inglês eu havia criado a imagem de um filme profundo, repleto de personagens complexos, melancólicos e de passagens cheias de lirismo e reflexões. Acertei quanto à melancolia dos personagens principais - o resto foi um chute de longo alcance.

The English Patient é um romance com ligeiros toques dramáticos. Seus personagens vivem em uma época conturbada, de guerras, e como se não bastasse, ainda têm de viver em conflito consigo mesmos. O herói, o conde Laszlo Almasy (Fiennes), é um homem introspectivo, distante, e que de repente se vê loucamente apaixonado pela esposa de um colega de expedição, Katharine Clifton (Scott Thomas).

A história se passa em dois tempos: o `atual` (no caso, o fim da Segunda Guerra), no qual o conde Laszlo está irreconhecível, vítima de graves queimaduras em decorrência de um acidente de avião, e sem memória; e o `passado`, no qual conhece Katharine e as bases da história são estabelecidas. Os flashbacks ocorrem sempre que algum personagem do tempo `presente` diz ou faz algo que leva o conde a se lembrar de seu passado. Um destes personagens é a enfermeira Hana (Binoche), que toma conta do desfigurado conde. É uma mulher marcada pela guerra que está acontecendo, na qual seu namorado e a melhor amiga já morreram. Outra figura marcante é o ex-ladrão Caravaggio (Dafoe), que acusa o conde de ser o responsável pelo decepamento de seus dois polegares. Há, ainda, o sikh Kip (Andrews), que se envolve com a enfermeira e é o protagonista de uma das cenas mais tensas do filme (aliás, a única).

O Paciente Inglês mescla personagens reais com fictícios, o que é sempre um grande atrativo. A Rainha Margot é um exemplo perfeito para o caso. No entanto, o conde Laszlo não é famoso como Catherine de Medici, e isso atrapalha a intenção da história, claro. De mais a mais, o Laszlo personagem tem muito pouca coisa a ver com o Laszlo que realmente existiu. O verdadeiro Laszlo, por exemplo, era homossexual - o que é totalmente alterado no filme.

Além do mais, a história do filme é bastante simples. Na verdade, segue um esquema consagrado para histórias de amor: narra um romance proibido, intenso, de dimensões trágicas. A direção de arte, a fotografia, a edição e a maquiagem realmente merecem destaque: visualmente, O Paciente Inglês é um belo filme. Em termos de conteúdo, no entanto, confesso ter ficado decepcionado. O roteiro nos reserva algumas poucas surpresas (entre elas, a justificação do título), mas é só. Em alguns momentos, beira o melodrama.

As interpretações são, é claro, irrepreensíveis. Em um elenco homogeneamente talentoso, Kristin Scott Thomas se destaca. Além de um rosto anguloso, belíssimo, a Fiona de Quatro Casamentos e um Funeral rouba a cena como a apaixonada Katharine. Fiennes também confere grande credibilidade ao seu Laszlo. No entanto, boas interpretações não justificam a enxurrada de indicações ao Oscar com a qual O Paciente Inglês foi brindado.

Mas existem algumas boas explicações para o fenômeno. Primeiro: a Academia de Cinema de Hollywood simplesmente ama filmes com dimensões épicas (Ben-Hur, Coração Valente, entre outros). Não que O Paciente... seja um épico, pois não é. É, antes, o `tom` que o diretor Mighella confere ao seu material que traz esta idéia. Além disso, o herói passa por situações típicas à disputa de um Oscar: é um solitário que apaixona-se perdidamente pela mulher `errada`; vai do céu ao inferno em questão de dias; é falsamente acusado pelos poderosos; é perseguido; sofre um terrível acidente (e isso logo no início do filme), entre outras coisas que não me cabe revelar a fim de não destruir a `surpresa` de quem ainda não viu o grande vencedor do Oscar 96.

Além do mais, ao longo destes 70 anos de Oscar os filmes longos sempre foram beneficiados. Quanto a isso, não há dúvidas: basta conferir a lista dos filmes vencedores nos últimos anos - todos com mais de duas horas de duração: Coração Valente (177 min; Forrest Gump (142 min; A Lista de Schindler (195 min; Os Imperdoáveis (127 min; assim como os grandes vencedores da história do Oscar: Dança com Lobos (181 min - 7 Oscars; O Último Imperador (160 min - 9 Oscars; Entre Dois Amores (161 min - 7 Oscars; Amadeus (158 min - 8 Oscars; Gandhi (188 min - 8 Oscars; Golpe de Mestre (129 min - 7 Oscars; Patton, Rebelde ou Herói? (169 min - 7 Oscars; My Fair Lady (170 min - 8 Oscars; Lawrence da Arábia (216 min - 7 Oscars; Amor, Sublime Amor (151 min - 10 Oscars; Ben-Hur (212 min - 11 Oscars; ...E O Vento Levou (222 min - 9 Oscars), e por aí afora. É claro que há exceções: Gigi e Sindicato de Ladrões também levaram mais de 7 Oscars e não eram tão longos assim. Mas são exceções.

O Paciente Inglês, com suas duas horas e meia de duração, também se beneficia desta tradição. Mas é uma pena que um filme leve a estatueta dourada não por mérito próprio, mas sim por tradição...
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1o de Março de 1997

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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