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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
25/12/1997 28/09/1997 4 / 5 / 5
Distribuidora

Gosto de Cereja
Ta’m e guilass

Dirigido por Abbas Kiarostami. Com : Homayon Ershadi, Abdolrahman Bagheri, Afshin Khorshid Bakhtiari, Safar Ali Moradi e Mir Hossein Noori.

O Rei Está Morrendo é uma das peças teatrais mais complexas que já li. O texto, do mestre do Teatro do Absurdo Eugène Ionesco, fala sobre um Rei que é convencido por uma de suas rainhas e pelo Médico da corte de que está à beira da morte. A partir daí, trava-se um duelo verbal entre o Rei e seus oponentes. O que o pobre Rei não percebe é que tem uma opção, que pode salvar-se.

No entanto, não é uma peça fácil de se assistir. Lembro-me de que em uma das apresentações (nosso grupo viajou com a peça durante dois anos) um senhor na platéia resmungou, depois de uma hora de espetáculo: `Que coisa! Esse Rei morre ou não morre?`. Confesso que tive que me segurar para não rir.

Assistindo Gosto de Cereja entendi um pouco o que o homem da platéia sentiu. O filme é um pouco cansativo e, em alguns momentos, parece não estar chegando a lugar algum, apenas consumindo tempo de tela. No entanto, talvez mesmo em função de minha experiência anterior com Ionesco, me armei de paciência e concentrei-me ainda mais no filme, com o firme propósito de entender o que estava acontecendo. O resultado foi mágica: de uma hora para outra, percebi que estava profundamente envolvido e que finalmente havia encontrado o fio da meada.

A história acompanha a trajetória do Senhor Badii. Ele é um homem de seus cinqüenta anos e está vagando em seu carro pelos pontos da cidade onde desempregados se oferecem para trabalhos avulsos e ocasionais. O senhor Badii tenta encontrar em meio a essa gente alguém disposto a entrar no seu carro e ganhar um dinheiro rápido e fácil, em troca de um certo trabalho. Há quem aceite entrar no carro e ouvir a proposta do senhor Badii até o final. Difícil é encontrar alguém que aceite sua oferta: ele quer que a pessoa vá até um local predeterminado, às seis horas da manhã do dia seguinte e chame seu nome duas vezes. Caso ele responda, o sujeito deverá ajudá-lo a sair da cova onde ele está deitado. Caso contrário, deverá jogar 20 pazadas de terra sobre seu corpo. Resumindo: ele precisa de um cúmplice para seu suicídio.

Durante os 95 minutos de filme, são várias as pessoas a quem Badii expõe seus planos. Alguns nada comentam, deixando apenas que sua expressão horrorizada demonstre seus sentimentos. Outros tentam demover Badii de seu intento. Cada pessoa que entra no carro tem um modo de pensar e de agir diferentes. Assim, somos apresentados a vários personagens durante todo o filme.

O interessante é que o roteiro, do próprio Kiarostami, não se preocupa em revelar os motivos que levaram o homem a querer cometer o suicídio e é justamente isso que permite que o espectador seja imparcial ao drama de Badii. Se soubéssemos as razões do sujeito, inevitavelmente seríamos obrigados a tomar um partido: `Puxa, suas razões são fortes, realmente.`, pensaríamos. Ou, então: `Que sujeito fraco. Não há motivo para tanto.`. No entanto, como somos impedidos de `julgar` (e o espectador adora julgar as ações dos personagens), nossa atenção se concentra ainda mais no ato em si.

Assim, cada personagem que entra no carro e começa a argumentar com Badii representa, de certo modo, a platéia. As discussões se aproximam do que o espectador talvez dissesse para o angustiado homem, se tivesse oportunidade. Se um dos personagens não encontra reflexo em nossa personalidade, outro irá fazê-lo. Um deles irá, finalmente, roubas nossas próprias palavras. (Ou então, o que é ainda mais interessante, o Senhor Badii irá conseguir convencer-nos de que está agindo acertadamente, levando o próprio espectador a `aceitar` enterrá-lo, se necessário).

O que torna o ritmo do filme lento são as imensas pausas e reflexões do protagonista. Em determinado momento, por exemplo, ele passa um bom tempo sentado à beira de uma vala, enquanto um trator atira terra no buraco à sua frente. Mas estas `pausas` vêm, geralmente, acompanhadas de várias imagens que nos levam a descobrir o que o silencioso homem está pensando. Ele olha, por exemplo, para um bando de urubus sobrevoando um animal morto, à distância, e imediatamente sabemos o terror que ele tem de acabar virando comida para aqueles animais. Ou então ele observa sua sombra no chão, enquanto toneladas de terra são atiradas sobre ela, e percebemos que ele está refletindo sobre seu próprio `enterro`. É assim que a mente do diretor Kiarostami funciona, e não há como negar sua criatividade e inteligência.

Porém, não consegui entender os motivos que levaram o diretor a mostrar, no final do filme, a equipe técnica de Gosto de Cereja em processo de filmagem. O que ele pretendia com aquilo? Ilustrar que aquilo era apenas um filme? Estabelecer um distanciamento entre autor e obra? E se assim fosse, porque o personagem do taxidermista tem o mesmo nome que seu intérprete, Bagheri? Infelizmente, a seqüência ficou soando arrogante e pretensiosa e, o que é pior, caiu no vácuo.

Que seja aberto a interpretações é um dos pontos positivos de Gosto de Cereja. Que se feche de maneira tão terrível é seu - talvez - único ponto negativo.
``

26 de Maio de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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