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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
16/08/2002 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora

O Império do Besteirol Contra-Ataca
Jay and Silent Bob Strike Back

Dirigido por Kevin Smith. Com: Jason Mewes, Kevin Smith, Shannon Elizabeth, Eliza Dushku, Ali Larter, Will Ferrell, Jeff Anderson, Brian O’Halloran, Ben Affleck, Jason Lee, Matt Damon, Carrie Fisher, Mark Hamill, George Carlin, Seann William Scott, Jason Biggs, James Van Der Beek, Jamie Kennedy, Chris Rock, Shannen Doherty, Joey Lauren Adams, Dwight Ewell, Diedrich Bader e Alanis Morissette.

Kevin Smith é um sujeito bacana. Apaixonado pela cultura pop, já roteirizou e dirigiu três bons filmes que, além de divertidos, provocam reflexões interessantes sobre religião, relacionamentos amorosos e ansiedades da `geração X`: O Balconista, Procura-se Amy e Dogma. No intervalo entre os dois primeiros, no entanto, Smith deu uma terrível derrapada com o tolo Barrados no Shopping, que buscava o riso fácil através de gags visuais e `fisiológicas` (lembra-se de como Brodie costuma se vingar de seus desafetos?). De tão equivocado, o filme chegou a gerar um pedido formal de desculpas por parte de seu criador, o que apaziguou um pouco os fãs.

Infelizmente, Smith parece ter esquecido a lição, já que volta a cometer, em Jay and Silent Bob Strike Back, alguns dos mesmos equívocos de Barrados no Shopping, como depositar demais sua confiança em piadas envolvendo gases e se esquecer de escrever diálogos inteligentes ou de criar uma trama menos estapafúrdia. Na verdade, o cineasta parece estar se desculpando pela criticada `complexidade` de Dogma e, assim, jamais permite que este seu novo trabalho se torne algo mais do que uma diversão sem maiores ambições. E, se considerarmos seu talento como roteirista, isto é um tremendo desperdício.

O início desta comédia é até promissor: depois de serem expulsos do ponto em que costumam vender drogas (a loja vista em O Balconista), Jay e Silent Bob descobrem que a Miramax está produzindo um filme baseado nos personagens dos quadrinhos cuja criação inspiraram (ver Procura-se Amy). Revoltados com a repercussão negativa do projeto na Internet, os amigos decidem viajar até Hollywood a fim de impedir o início das filmagens. E é a partir daí que as coisas começam a piorar, já que Smith introduz uma terrível subtrama envolvendo ladras de jóias e um macaco seqüestrado de um laboratório. E o que é mais lamentável: o propósito inicial da dupla de traficantes (os perfeitos anti-heróis) é totalmente ignorado durante a maior parte do filme, sendo resgatado apenas nos vinte minutos finais de projeção. Neste ínterim, somos obrigados a testemunhar piadas sem a menor graça envolvendo referências a filmes como O Fugitivo, O Planeta dos Macacos, Pânico, Gênio Indomável e E.T. (se isso já não seria divertido há dez anos, imagine agora).

O triste é que, além disso, Kevin Smith parece ter esquecido o que fazia Jay ser tão divertido: sua visão embaçada, preconceituosa e machista da vida. Ao invés disso, o cineasta parece julgar que o espectador irá rir apenas dos inúmeros palavrões ditos pelos personagem ao longo de todo o filme. Se em Dogma o caráter de Jay era peça fundamental da trama, aqui ele é apenas uma `caricatura de Jay`: todas as nuances do personagem se foram, restando apenas sua vulgaridade. Não é à toa que as cenas mais engraçadas deste filme são justamente aquelas em que vislumbramos o cinismo do sujeito (como ao olhar pensativo para o horizonte e dizer: `As ovelhas são mesmo bonitas, não são?`).

Mas o mais lamentável é que Kevin Smith recebeu, da Miramax, uma liberdade sem precedentes para desenvolver este seu novo projeto e, mesmo assim, desperdiçou a oportunidade de criar uma obra realmente admirável – ele até acerta em alguns momentos (como ao criticar as novas produções do estúdio), mas, na maior parte do tempo, acaba se limitando a aproveitar a ocasião para brincar com os amigos (e é óbvio que ele é um sujeito querido, já que o filme conta com participações especiais de vários grandes nomes de Hollywood, como Ben Affleck, Matt Damon, Wes Craven, Gus Van Sant e Chris Rock – este último interpretando o personagem mais irritante de sua carreira). Além disso, Smith não perde a oportunidade de realizar alguns de seus sonhos de fã assumido de Star Wars, chegando até mesmo a duelar com o próprio Luke Skywalker (numa boa participação de Mark Hamill) e a pegar uma carona com a Princesa Léia (bom... mais ou menos).

Os fãs mais fanáticos da obra de Smith certamente vão se divertir com as inúmeras referências aos seus filmes anteriores (embora ele não as aproveite de forma interessante), mas o público em geral dificilmente achará muita graça de Jay and Silent Bob Strike Back (podendo até mesmo se irritar com a trilha instrumental `engraçadinha` da produção). Este último capítulo da série `New Jersey` (que, de trilogia, virou pentalogia) certamente não é um embaraço como Barrados no Shopping, mas está longe de fazer jus aos melhores momentos dos demais trabalhos do diretor.

Só espero que, de agora em diante, Kevin Smith siga o exemplo de seu alter ego e permaneça calado até ter algo realmente interessante a dizer.

2 de Outubro de 2001

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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