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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
06/08/2015 07/08/2015 2 / 5 2 / 5
Distribuidora
Fox

Quarteto Fantástico (II)
Fantastic Four (II)

Dirigido por Josh Trank. Roteiro de Simon Kinberg, Jeremy Slater e Josh Trank. Com: Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Dan Castellaneta.

O novo Quarteto Fantástico é, sem dúvida alguma, melhor do que os três filmes anteriores produzidos em torno da equipe de super-heróis criada por Stan Lee e Jack Kirby. Infelizmente, estas versões anteriores incluem duas dirigidas pelo péssimo Tim Story e uma produzida por Roger Corman que incluía uma câmera subjetiva que revelava o ponto de vista de uma personagem cega.


Co-escrito por Simon Kinberg (da série X-Men), pelo estreante Jeremy Slater e pelo diretor Josh Trank (responsável pelo mediano Poder Sem Limites), o roteiro desta versão tenta inovar ao trazer o quarteto do título em versões mais jovens: mal saídos da adolescência, Reed Richards (Teller), Sue Storm (Mara), Johnny Storm (Jordan) e Ben Grimm (Bell) ganham seus superpoderes depois que uma visita a uma dimensão paralela resulta em desastre, transformando também o problemático Victor Von Doom (Kebbell) no perigoso Dr. Destino.

E é aí, claro, que começam os problemas do longa: é mais fácil aceitar que um homem se torne capaz de esticar indefinidamente seus membros (wait, what?) do que acreditar que um projeto bilionário capaz de despertar o interesse da NASA seria entregue a um grupo de garotos recém-saídos do colégio, por mais brilhantes que sejam (afinal, como todos sabemos, a NASA é um órgão carente de gênios). Aliás, a visão que os roteiristas parecem ter da Ciência é no mínimo dúbia, já que, em certo ponto, chegam a fazer pouco de Neil Armstrong e Buzz Aldrin por serem “apenas” os primeiros homens a pisarem na Lua, eclipsando a proeza dos cientistas responsáveis pela viagem (como se um astronauta fosse um mero explorador, dependendo da coragem em vez da inteligência).

O mais incrível, contudo, é que esta é a melhor parte de Quarteto Fantástico, cuja primeira metade, que se concentra em apresentar os personagens, se mostra bem mais instigante do que a segunda, quando estes adquirem os poderes que, afinal, respondem pelo adjetivo do título. Sim, as interações entre aqueles indivíduos são artificiais, mas ao menos há algum resquício de humanidade em sua dinâmica, já que esta desaparece completamente quando se tornam capazes de feitos sobre-humanos. Aliás, outro problema grave do projeto reside em sua estrutura, como devem ter notado quando usei a expressão “primeira metade” em vez de “primeiro ato”, já que o roteiro não parece fazer a menor ideia de como desenvolver a narrativa de forma coesa – e, assim, quando o vilão finalmente dá as caras, percebemos com surpresa que o filme já se encontra no fim.

Desperdiçando um elenco incrivelmente talentoso (ao contrário dos anteriores, que traziam intérpretes inexpressivos como Michael Bailey Smith, Ioan Gruffudd, Jessica Alba e Julian McMahon), esta produção consegue transformar o excelente Miles Teller em um herói sem carisma, a ótima Kate Mara em apenas um rosto bonito e o geralmente brilhante Jamie Bell em... bom, um monte de pedra desinteressante, já que o design do Coisa não deixa espaço para qualquer caracterização via performance capture, atirando no lixo o drama daquela que poderia ser a figura mais trágica da história (já Michael B. Jordan - vejam Fruitvale Station! – se sai um pouco melhor ao ter, pelo menos, a chance de criar algum arco para seu Johnny Storm, mesmo que acabe irritando com uma composição arrogante).  Enquanto isso, Tim Blake Nelson praticamente expressa a vilania de seu personagem ao mascar chicletes o tempo todo (mesmo ao usar um macacão hermeticamente fechado), ao passo que Toby Kebbell limita a motivação de Doom a um ciúme adolescente e a um cinismo genérico dirigido ao mundo.

Por outro lado, o design do Dr. Destino merece pontos por refletir a paisagem do planeta que o criou, surgindo convincente mesmo com todo o artifício dos efeitos digitais que constrangem, por exemplo, ao tentarem criar o chimpanzé que serve de cobaia para o experimento dos heróis (em contrapartida, devo reconhecer que meu amigo Carlos Merigo oferece um bom argumento em defesa desta tecnologia, que ao menos impede o sofrimento de animais reais em prol de nosso entretenimento). Seja como for, nem o pior dos efeitos digitais de Quarteto Fantástico é capaz de igualar o constrangimento de diálogos como “Ele está sugando tudo para a outra dimensão!” ou de uma fala que, de tão preocupada em servir de escada para uma resposta supostamente impactante, acaba dependendo de uma construção terrivelmente artificial (“Ele é mais forte do que qualquer um de nós!”, diz Johnny. “Mas não é mais forte do que todos nós juntos!”, devolve Reed. Oh.)

De todo modo, ao menos esta nova versão não representa uma experiência tão dolorosa quanto a versão de 2005 e sua continuação, cujas insistentes (e malsucedidas) tentativas de provocar o riso só não irritavam mais do que seus péssimos elencos e sua direção amadora. Ainda assim, o que esta produção provoca é uma sensação de pura exaustão no espectador em vez da satisfação que deveríamos esperar.

Depois de quatro tentativas fracassadas, creio já ser hora de o Cinema desistir de levar o Quarteto Fantástico para as telonas, embora isto não vá acontecer. Além do mais, o fato é que já existe uma versão que tentativa alguma feita pela Marvel ou pela Fox poderá igualar: ela se chama Os Incríveis e já passou da hora de ganhar uma continuação. O resto é pura perda de tempo.

06 de Agosto de 2015

Videocast (sem spoilers):

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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