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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
19/05/2016 27/05/2016 3 / 5 3 / 5
Distribuidora
Fox

X-Men: Apocalipse
X-Men: Apocalypse

Dirigido por Bryan Singer. Roteiro de Simon Kinberg. Com: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Evan Peters, Rose Byrne, Sophie Turner, Tye Sheridan, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Olivia Munn, Josh Helman, Lucas Till, Tómas Lemarquis, Ally Sheedy e Hugh Jackman.

Quem me acompanha há algum tempo sabe que, ao longo dos anos, tornei-me fã incondicional da série X-Men (com exceção dos filmes solo de Wolverine), defendendo, inclusive, o subestimado O Confronto, que sofreu muito mais em função da percepção negativa acerca de seu diretor do que por qualquer grave problema que pudesse ter. Aliás, neste Apocalipse, o cineasta Bryan Singer demonstra uma imaturidade decepcionante ao incluir um insulto barato ao trabalho de Brett Ratner, o que não deixa de ser irônico quando percebemos que é justamente este seu longa que inclui diversos equívocos que acabam resultando no capítulo mais fraco estrelado pelo professor Charles Xavier, seus estudantes e seu amigo/nêmesis Magneto.


Mais uma vez escrita por Simon Kinberg, esta continuação se propõe a apresentar o espectador ao mais poderoso inimigo que os heróis já enfrentaram e cujo nome, Apocalipse (Isaac), sintetiza também o futuro que planeja para a humanidade. Supostamente o primeiro mutante da História, o vilão é capaz de transferir sua consciência para os corpos daqueles que julga particularmente dotados, absorvendo e acumulando seus poderes ao longo dos milênios, finalmente despertando no início da década de 80, quando o longa se passa. Arregimentando Magneto (Fassbender) para sua causa de destruição total ao lado de três outros mutantes, Tempestade (Shipp), Psylocke (Munn) e Anjo (Hardy), Apocalipse só tem como obstáculos reais o professor Xavier (McAvoy), Mística (Lawrence), Fera (Hoult) e outros jovens “superdotados” como Jean Grey (Turner), Mercúrio (Peters), Ciclope (Sheridan) e Noturno (Smit-McPhee).

Basta observar o número de personagens citados no parágrafo anterior para perceber que a escala da narrativa criada por Singer é, no mínimo, bastante ambiciosa – e não é à toa que, mesmo vindo depois de tantos capítulos, este Apocalipse leva ao menos uma hora para posicionar todas as peças da trama. Claro que, de certa maneira, a trilogia original não pôde servir muito como preparação desde que o universo X-Men foi “reiniciado” em Dias de um Futuro Esquecido, transformando, por exemplo, Mística em uma heroína (nem anti-heroína ela pode ser considerada desta vez). Parte desta mudança se deve, provavelmente, ao fato de a ex-vilã ser vivida por Jennifer Lawrence (aparentemente entediadíssima), cujo estrelato certamente influenciou no fato de mal aparecer em cena em sua forma azul, já que os produtores querem ver na tela o rosto pelo qual pagaram tanto – o que leva a furos imperdoáveis como aquele no qual, mesmo presa num ambiente que anula seus poderes, a mutante mantém a aparência humana em vez de reverter à sua versão original.

Mas se Lawrence, atriz que admiro, atravessa o filme com um desinteresse inexplicável, o mesmo não pode ser dito sobre James McAvoy e Michael Fassbender, que chegam a compensar fragilidades do roteiro graças à forma com que se entregam aos papéis: em certo momento dramático de Magneto, por exemplo, Apocalipse parece duvidar da força do que estamos vendo (e que é impactante), apelando para um melodrama embaraçoso que obriga o ator a olhar para o alto e gritar um artificial “É isto que quer de mim?! É isto que eu sou?!” - algo que só não arruína a cena em função da intensidade de Fassbender. McAvoy, por sua vez, é hábil ao evocar a incomparável capacidade de empatia de Xavier, que o leva a sentir a dor do próximo como se sua fosse, o que o torna comovente e admirável.

Enquanto isso, Oscar Isaac toma uma decisão curiosa ao contrapor os imensos poderes de Apocalipse a uma composição vocal delicada, carregada em pausas e muito raramente se entregando a gritos – uma opção que, infelizmente, funciona melhor na teoria do que na prática, já que contribui para deixar o vilão menos imponente do que o ideal. Em contrapartida, mais uma vez o mutante Mercúrio, vivido por Evan Peters, se estabelece como uma das melhores coisas do longa não só em função da estratégia visual empregada para retratar seus poderes, mas também de seu eficaz bom humor. E se Tye Sheridan (jovem ator que passei a admirar desde A Árvore da Vida, Amor Bandido e Joe) tem a chance de transformar Ciclope em um personagem com algum arco dramático discernível, formando um par eficiente com a poderosa Jean Grey (Turner, uma revelação), os demais mutantes acabam sendo definidos apenas por seus poderes e nada mais, o que inclui os capangas de Apocalipse.

Divertindo-se com a ambientação de época assim como nos dois filmes anteriores, Apocalipse explora a moda repleta de cores da década de 80, os penteados inacreditáveis (o Alex Summers de Lucas Till exibe um mullett digno dos vampiros de Os Garotos Perdidos) e até mesmo as referências pop (Noturno veste uma jaqueta saída diretamente do Thriller de Michael Jackson, enquanto a professora de Ciclope em sua cena inicial é interpretada por ninguém menos do que Ally Sheedy). O triste é que o estilo gritante do período parece ter contaminado a direção de Bryan Singer, que se mostra determinado a chamar a atenção para si mesmo através de movimentos de câmera não só desnecessários, mas que expõem a artificialidade das criações digitais (como aquele, logo na primeira sequência da projeção, que escala a parede de uma pirâmide). Da mesma forma, o diretor vai ao extremo para ilustrar a felicidade temporária de Magneto ao trazê-lo em um jardim ensolarado, tomado por um verde impossível e observando uma criança que brinca com cervos – uma imagem que só não é mais ridícula do que aquela que traz certo personagem saindo por uma porta e correndo sobre a neve enquanto sua peruca pavorosa balança de maneira hilária sobre sua cabeça.

Além disso, de que adianta pensar em um conceito promissor como uma batalha que ocorre na mente de dois mutantes se esta se resumirá a uma nada imaginativa troca de socos? Para completar, Apocalipse comete o mesmo erro visto em O Homem de Aço e A Era de Ultron ao tratar de forma casual as mortes de (no mínimo) alguns milhões de pessoas, retratando a destruição do terceiro ato de forma distante, como se não houvesse multidões nas ruas ou dentro dos prédios e carros aniquilados – e este descaso é comprovado na decisão de incluir, nesta sequência, a inevitável ponta de Stan Lee, que, sempre representando uma piadinha para os fãs da Marvel, diminui ainda mais o impacto da tragédia que estamos testemunhando.

Ainda assim, quando o filme se concentra em seus personagens e na interação entre estes (incluindo o modo como seus poderes se complementam/contrapõem), o resultado é sempre positivo, já que o universo criado pela série se mantém fascinante.

E como é bom constatar que há quem entenda que não é preciso mergulhar tudo em sombras para que levemos super-heróis a sério.

Observação: há uma cena adicional após os créditos finais.

28 de Maio de 2016

Críticas dos longas anteriores da série: X-Men; X-Men 2; X-Men 3: O Confronto Final; X-Men Origens: Wolverine; X-Men: Primeira Classe; Wolverine: Imortal; X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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