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Porta dos Fundos: Contrato Vitalício

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Ian SBF. Roteiro de Fábio Porchat e Gabriel Esteves. Com: Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Luis Lobianco, Thati Lopes, João Vicente de Castro, Rafael Portugal, Júlia Rabello, Antonio Tabet, Gabriel Totoro, Marcos Veras, Marilia Gabriela.

Não é necessária muita coragem para afirmar que o mais fantástico grupo de humor a fazer a transição da TV para a tela grande foi o Monty Python, responsável por ao menos duas das melhores comédias do Cinema: A Vida de Brian e Em Busca do Cálice Sagrado. E, no entanto, o (ótimo) primeiro longa-metragem da trupe, E Agora para Algo Completamente Diferente (1971), consistia de uma série de esquetes amarrados de maneira inventiva, sugerindo uma primeira experiência cuidadosa por parte dos comediantes diante da nova linguagem que pretendiam dominar. Já o brasileiro Casseta & Planeta e o canadense The Kids in the Hall, quando buscaram repetir a trajetória dos britânicos, se lançaram de cara em histórias compostas por cenas que tentavam funcionar isoladamente enquanto construíam uma trama maior – no caso do primeiro, o resultado foi uma das piores coisas que o Cinema brasileiro já produziu (A Taça do Mundo é Nossa!), ao passo que o segundo, mesmo irregular, se saiu consideravelmente melhor com seu Em Alto Astral.

Pois o desafio do grupo Porta dos Fundos era maior, já que, ao contrário dos antecessores, que chegavam a produzir esquetes de quase dez minutos, se estabeleceu já na era do YouTube, obrigando-se a criar suas pequenas histórias de humor em apenas 2 ou 3 minutos e tornando seu salto para o formato de longa ainda mais abrupto. O resultado, felizmente, é mais do que promissor: mesmo que mais sólido comicamente em momentos específicos do que como uma trama única, Contrato Vitalício consegue desenvolver uma narrativa coesa que traz estrutura com atos bem definidos e um protagonista cuja jornada é explorada de maneira competente.

Abrindo a projeção durante o Festival de Cannes, quando o ator Rodrigo (Porchat) e o cineasta Miguel (Duvivier) são surpreendidos pelo prêmio vencido por seu filme, Contrato Vitalício assume ares fantásticos quando Miguel desaparece ao ir ao banheiro, retornando de maneira igualmente inexplicável uma década depois. Agora famoso e requisitado, Rodrigo inicialmente comemora o retorno do amigo apenas para, aos poucos, assustar-se com o relato feito por este, que insiste ter sido abduzido por alienígenas que moram no centro da Terra e se preparam para conquistar o planeta. Como se não bastasse, o ator se vê preso a um contrato que assinou quando bêbado e que o obriga a participar do novo filme do diretor, que pretende justamente adaptar sua aventura para as telonas.

Escrito por Porchat ao lado de Gabriel Esteves, o roteiro aos poucos concebe uma lógica própria na qual Rodrigo é, a rigor, o único ser humano que poderíamos considerar “normal” em um universo povoado por figuras que oscilam entre a caricatura e o nonsense. Tomemos, como exemplo, Fernanda (Lopes), namorada do protagonista: obcecada por redes sociais e pela própria aparência, ela é a personificação do narcisismo na era digital (sua profissão é descrita como “famosa da Internet”), convertendo sua existência em um streaming contínuo e medindo o próprio valor através de número de curtidas e compartilhamentos. Já Ulisses (Lobianco), agente de Rodrigo, jamais desgruda os olhos do celular no qual mantém contato ininterrupto com celebridades, jornalistas e assessores de imprensa, tentando emplacar seu principal cliente em qualquer projeto que o mantenha na mídia.

Mas se estes tipos extremos poderiam ser encarados como mera muleta cômica, o risco é evitado através da determinação do filme em explorar as características de cada um até as últimas consequências, insistindo em piadas que qualquer roteirista precavido abandonaria depois de duas ou três versões, mas que, justamente pela recorrência absurda, começam a funcionar de maneira surpreendente – e um exemplo disto pode ser visto na interação entre a preparadora de elenco Denise (Rabello) e o ator Paulo (Portugal), que começa como um exercício trivial até chegar ao ponto no qual o rapaz é transformado em uma criatura animalesca graças aos abusos da outra. Da mesma forma, se o detetive particular Otacilio (Tabet) é inicialmente visto como um sádico, gradualmente percebemos a verdadeira extensão de sua insanidade, ao passo que a obsessão de Fernanda pela beleza física (ela transa apenas para queimar calorias) acaba por deformá-la cada vez mais. Fechando o elenco secundário, João Vicente de Castro encarna o mendigo/guerreiro Luciano como um brutamontes com pane completa no cérebro, enquanto Gabriel Totoro (quem bolou este apelido merece um prêmio) converte seu personagem em um retrato inquietante (e divertido) do stalker.

O que nos traz à talentosa dupla central: pela segunda vez em um projeto que ele mesmo roteirizou (o anterior foi o ótimo Entre Abelhas), Fábio Porchat demonstra uma generosidade admirável ao reservar a maior parte das piadas para os demais atores, deixando para si um personagem que mais reage à loucura à sua volta do que propriamente age. Aliás, assim como naquele filme, Porchat encarna um indivíduo constantemente frustrado por não compreender o que está ocorrendo na maior parte do tempo, o que não o impede, claro, de exibir seu impecável timing cômico em momentos pontuais como aquele no qual tenta levar Miguel a narrar sua inacreditável história para Fernanda. E por falar em Miguel, Gregório Duvivier executa uma tarefa complicada ao converter uma figura que tinha tudo para ser unidimensional em um indivíduo que parece sempre revelar alguma nova faceta, deixando o espectador incerto até mesmo acerca da real natureza de seus relatos. Além disso, é interessante constatar como a intensidade de Miguel consegue transformar seu afeto pelo amigo em algo sincero, mas também ameaçador – e quando o sujeito estende os braços para Rodrigo, já no terceiro ato da projeção, sentimos a alegria e o carinho do gesto, mas também compreendemos o pânico que este inspira no outro.

Por outro lado, o roteiro também exibe fragilidades óbvias, sendo que a principal delas diz respeito ao arco do protagonista: até compreendemos que a ideia é registrar como sua superficialidade representará o problema a ser corrigido através de suas desventuras, mas esta mudança ocorre de maneira súbita demais, chegando mesmo a ser verbalizada pelo próprio sujeito durante o clímax, subestimando a capacidade do espectador de compreender a catarse do herói - um erro bastante parecido ao que ocorria em Entre Abelhas. E se o diretor Ian SBF fazia um trabalho complexo e promissor naquele longa, aqui se apresenta apenas eficiente como um burocrata lotado de café, apostando numa linguagem convencional, investindo numa fotografia chapada e desinteressante e recorrendo também a recursos narrativos ultrapassados, dignos de uma telenovela – como, por exemplo, os establishing shots que, logo no primeiro ato, trazem planos aéreos de Cannes e a fachada de um hotel enquanto (e isso é quase imperdoável) um imenso letreiro reforça o nome da cidade na qual nos encontramos naquele momento. SBF é claramente melhor do que isso e, por esta razão, é decepcionante vê-lo se acomodar tanto. Para completar (e aqui volto ao roteiro), a referência metalinguística ao merchandising se tornou ultrapassada desde que foi empregada em Quanto Mais Idiota Melhor, há mais de 20 anos, e não faz jus à modernidade do grupo.

Trazendo alfinetadas merecidas às comédias formulaicas que a Globo Filmes insiste em atirar sobre o público, Contrato Vitalício é uma demonstração promissora do potencial cinematográfico do Porta dos Fundos, que conta com uma trupe coesa e roteiristas capazes de desenvolver conceitos originais e divertidos. Não é ainda o filme que eles têm plenas condições de realizar, mas é uma forte evidência de que estão no caminho certo.

30 de Junho de 2016

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

Uma demonstração promissora do potencial cinematográfico do Porta dos Fundos.

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Avaliações dos Usuários

Rodrigo
Rodrigo22 de jan. de 2017

A parcialidade dessa crítica é evidente. Falta ritmo ao filme e o jeitão dramático é uma decepção.

fernando henrique Antony
fernando henrique Antony30 de set. de 2016

bom filme

Felipe Everson
Felipe Everson14 de jul. de 2016

Pessoalmente achei a crítica injusta. Deveriam ter sido só 2 estrelas. A divisão de atos não é marcada por pontos de virada aparentes, porque o ritmo de piadas no filme é regular: elas são homogêneas, não variam a intensidade do riso no espectador - exceto as da preparadora de elenco e do ator-vítima, que se sobressaem. Além disso, a valorização dramática excessiva de Porchat (Rodrigo) tira o foco no personagem cômico de Devuvier. A vida superficial de Rodrigo se resume a um folhetim sobre celebridades, abandonando a temática surreal do louco empoderado e enchendo linguiça com piadas e pontas de celebridades. O discurso sobre a mídia brasileira atrapalha o potencial do roteiro em imprimir piadas e humor sobre o narcisismo artístico de Devuvier (Miguel). Dessa forma, a loucura da mídia concorre com a loucura desse personagem. Poderíamos ter um "Pícaro" insano, o qual deixasse todas aquelas celebridades desconfortáveis e embaraçadas em papéis esdrúxulos e ações vexaminosas. Entretanto, foi criado um universo mais insano do que o antagonista, quem se torna a menor e menos aproveitada parte de um caos midiático. Nesse contexto, o herói "certinho" demais de Porchat culmina sobrevalorizado sem ser o centro de humor da obra. Ele demora demais para exagerar nas reações e se arrepende muito facilmente dos exageros, sem provocar surpresas nem nas reações nem nos arrependimentos. "Antes só do que mal acompanhado", de John Hughes, aborda muito melhor o tema do pícaro ensandecido que inferniza a vida do protagonista e transmite o tema (transportes) mais eficientemente. Steve Martin, o (anti) heroi certinho, está tão engraçado quanto John Candy, o pícaro atrapalhado. Mas certamente as melhores piadas são elaboradas com a presença de Candy - o centro de humor do filme.

Porta dos Fundos: Contrato Vitalício | Crítica por Pablo Villaça - Cinema em Cena