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Homem-Aranha: De Volta ao Lar

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Jon Watts. Roteiro de Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna e Erik Sommers. Com: Tom Holland, Michael Keaton, Laura Harrier, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Jacob Batalon, Donald Glover, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Angourie Rice, Abraham Attah, Tyne Daly, Selenis Leyva, Logan Marshall-Green, Michael Chernus, Kenneth Choi, Hannibal Buress, Martin Starr, Gwyneth Paltrow, Robert Downey Jr. e a voz de Jennifer Connelly.

Depois que Sam Raimi atirou a série em um despenhadeiro com o horroroso Homem-Aranha 3 e a versão com Andrew Garfield foi subitamente abandonada quando começava a encontrar seu caminho, a Sony, que detém os direitos sobre o personagem, resolveu compartilhá-lo com seus donos originais e aceitou liberá-lo para entrar no cada vez maior Universo Estendido da Marvel, o que resultou no segundo reboot da franquia em apenas 15 anos. Assim, é no mínimo irônico que o novo Peter Parker passe a maior parte do filme basicamente implorando para ser aceito entre os Vingadores, o que me parece uma piadinha particularmente sacana da Marvel às custas da Sony – uma piada que se torna ainda mais cruel quando consideramos que este Homem-Aranha: De Volta ao Lar é o melhor filme estrelado pelo herói desde Homem-Aranha 2, que continuo a defender como o mais consistente dos seis longas.

Sem perder tempo recontando a origem dos poderes de Parker pela enésima vez, o (mediano) roteiro escrito por nada menos do que seis pessoas tem início logo depois da batalha-clímax de Os Vingadores, quando vemos Adrian Toomes (Keaton) liderando seus funcionários no processo de limpeza dos detritos alienígenas das ruas de Nova York. Subitamente dispensado pelo governo e endividado por ter comprado equipamentos apenas para a tarefa, Adrian decide utilizar os itens que já havia coletado para criar armamentos com tecnologia alienígena e, nos oito anos seguintes (isto significa que De Volta ao Lar se passa em 2020, certo?), se torna um empresário bem-sucedido no submundo do crime, passando a ser conhecido como Vulture. Enquanto isso, depois de participar do embate contra o Capitão América em Guerra Civil, Peter (Holland) se vê frustrado com a insistência de Tony Stark (Downey Jr.) e Happy Hogan (Favreau) em mantê-lo distante da ação, limitando-o a cuidar dos pequenos crimes ocorridos no Queens.

Encarnado por Tom Holland como a versão mais jovem do super-herói, Peter Parker é, aqui, um garoto de 15 anos, o que o converte em uma figura bem mais interessante quando consideramos o peso sobre seus ombros e seu patente despreparo emocional para lidar com este. Encarando seus novos poderes com a empolgação natural da idade, ele brinca com os recursos incluídos no uniforme que ganha de Stark, faz poses ao abordar criminosos e chega a dar saltos mortais apenas para atender o pedido de um transeunte. Mas, ainda mais importante, Holland evoca a insegurança do personagem, sua ansiedade diante da paixão recém-descoberta pela colega Liz (Harrier), e mesmo o pânico que experimenta ao constatar que talvez tenha superestimado sua própria capacidade de lidar com certas ameaças – e, com isso, acaba criando a versão mais humana de Peter até agora.

Igualmente rejuvenescida, a tia May agora ganha o rosto de Marisa Tomei, o que naturalmente conduz o roteiro a uma série de piadinhas óbvias sobre como a atração que esta desperta nos homens da vizinhança deixa o sobrinho embaraçado (e é uma pena que o filme pouco ofereça à ótima atriz além disso). Enquanto isso, Jacob Batalon vive Ned, melhor amigo do herói, como um garoto hiperativo cujo fascínio pelos poderes do Homem-Aranha gera boas gags, conseguindo estabelecer também uma ótima dinâmica com Holland e que pode ser observada na naturalidade com que os dois rapazes trocam cumprimentos elaborados sem nem prestarem muita atenção ao que fazem.

Já o elenco secundário, recheado de comediantes talentosos e de veteranos da tevê (como Tyne Daly, que surge em duas cenas como uma representante do governo), é responsável por alguns dos momentos mais inspirados da narrativa: Donald Glover, que no passado chegou a ser considerado para viver o protagonista, aqui surge como um pequeno criminoso local que, com um olho sempre fechado, divide uma cena divertida com Holland, ao passo que Martin Starr (Silicon Valley) e Hannibal Buress interpretam professores da escola na qual Peter estuda, conseguindo encaixar duas ou três boas piadas no pouco tempo de tela que recebem. (E é preciso admirar a coesão que a Marvel cria ao escalar Jennifer Connelly para dar voz à inteligência artificial que controla o uniforme do Homem-Aranha, já que seu marido, Paul Bettany, deu voz a Jarvis, que desempenhava a mesma função para o Homem de Ferro.)

Porém, o destaque da produção é mesmo Michael Keaton, que transforma Toomes/Vulture em um vilão distante de qualquer caricatura: genuinamente preocupado com o bem-estar de sua família, o sujeito não parece exibir qualquer prazer ao ser obrigado a cometer atos de vilania – e mesmo quando executa um subalterno, fica claro que esta não era exatamente sua intenção. Além disso, sua revolta ao perceber que a empresa de Tony Stark poderá limpar a bagunça que os Vingadores fizeram é compreensível, o que leva a exprimir frustração com relação à maneira com que os “ricos e poderosos” (suas palavras, não minhas) ignoram as necessidades e os direitos dos menos favorecidos. Isto, claro, não impede Keaton de soar absolutamente ameaçador quando isto é necessário – e sua conversa com Peter, em certo ponto da trama, é um exemplo de como um bom ator consegue evocar perigo e compaixão ao mesmo tempo.

Aliás, é admirável como a virada no humor de Toomes é ilustrada naquela cena através da cor do semáforo à sua frente, que subitamente o cobre de um vermelho intenso – e é uma pena que esta mesma competência não seja refletida nas sequências de ação, que são frequentemente concebidas como uma confusa série de cortes rápidos e de movimentos caóticos que não apenas as tornam difíceis de seguir como as fragilizam. Não é à toa que, com exceção de uma relativamente curta sequência no Monumento de Washington, a ação vista em De Volta ao Lar é pouco memorável e nada impactante. Para piorar, o Homem-Aranha continua parecendo exatamente aquilo que é – um boneco digital -, o que compromete ainda mais a eficácia das lutas e perseguições. De todo modo, Jon Watts cria ao menos uma imagem memorável ao trazer o herói comendo um sanduíche no alto de um prédio enquanto, ao fundo, vemos o horizonte de Manhattan, sendo uma pena que o normalmente brilhante compositor Michael Giacchino não crie algo mais notável do que uma trilha genérica que poderia ter saído da mente de qualquer músico com menos talento (ainda assim, sua releitura do tema clássico do personagem feito para a série de tevê é admirável; pena que é ouvida apenas durante a vinheta inicial da Marvel).

Pontualmente prejudicado por alguns buracos inexplicáveis no roteiro (como a equipe de uma empresa de limpeza conseguiu absorver e explorar tanto a tecnologia alienígena em apenas oito anos?), De Volta ao Lar é, na maior parte do tempo, uma obra repleta de energia, vitalidade e humor. Sim, seu ponto alto é uma referência bem-humorada ao beijo já clássico do primeiro filme e a Disney, dona da Marvel e da LucasFilm, não hesita em jogar aleatoriamente um merchandising de Star Wars na narrativa, mas isto não diminui os muitos acertos do filme.

Espero que desta vez a Sony demore até decidir ser hora de outro reboot. Se seguir no bom caminho, esta versão do Homem-Aranha merece durar um bom tempo.

Observação: há uma cena durante e outra após os créditos finais.

06 de Julho de 2017

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Assista também ao videocast - sem spoilers - sobre o filme:

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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Avaliações dos Usuários

Marcos Davi Gonçalves de Oliveira
Marcos Davi Gonçalves de Oliveira16 de mai. de 2018

concordo, michael keaton é o dono do filme e interpreta o melhor vilão da marvel até então. tom holland está bem, porem soa artificial em alguns momentos, parece exacerbadamente peralta; no mais, sinto q ele interpreta a si mesmo, um jovem ator inseguro e deslumbrado por estar na pele de um dos maiores ícones da cultura popular assim como o próprio peter, inseguro e deslumbrado por poder estar no meio dos vingadores.

Wesley Luiz
Wesley Luiz 27 de jul. de 2017

Pablo, vai ter crítica do dunkirk ?

Tiago
Tiago12 de jul. de 2017

Ótima crítica!

Leonardo Gama
Leonardo Gama10 de jul. de 2017

curioso que o filme que não mostra a picada da aranha e como seus efeitos começaram ou a morte do Tio Ben, é justamente nesse longa que vemos com clareza o nascimento do herói, isso ocorreu na cena do Peter Parker em baixo das pedras, que é emblemática e simbólica. até aquele momento, o filme tratava de um adolescente, com problemas de adolescente, mas com poderes e heroísmo dentro de si, que tinha dentre seus objetivos, ser um vingador e obter um certo reconhecimento pelo que fazia e pela sua capacidade. quando se viu sem saída, como heróis se vêem o tempo todo, ele chorou, pediu socorro (que atuação do Tom Holland!) e depois de ver sua imagem na água e ver quem ele tbm era/poderia ser, ele se acalmou e levantou as pedras. Percebam que ele não disse "come on Peter", ele disse/repetiu "come on Spider-man, come on spider-man" (superheróis quando estão sozinhos não se chamam pelo alter ego, mas sim pelo nome verdadeiro, ora), ele estava falando pra ele mesmo, quem ele tambpem era/poderia ser!!! ou seja, depois da cena das pedras, o personagem era realmente o Homem Aranha!!! prova disso: ele passa o filme td querendo reconhecimento/fama, querendo ser um Vingador, oiu como ele mesmo disse, queria er como o Homem de Ferro, e no final, ele tem essa chance, e abdica disso em favor de valores maiores! e esse sentimento é justamente o que diz quem é ou não Herói!!

Ana Mendez
Ana Mendez9 de jul. de 2017

Adorei a crítica, Pablo! O que você achou da nova Mary Jane? Eu adorei!