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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
26/10/2017 13/09/2017 4 / 5 / 5
Distribuidora
Imovision

O Formidável
Le Redoutable

Dirigido e roteirizado por Michel Hazanavicius. Com: Louis Garrel, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, Grégory Gadebois, Guido Caprino.

Godard é um babaca. As histórias envolvendo atitudes lamentáveis do cineasta são tão numerosas que nem podem mais ser chamadas de “decepcionantes”, já que para que desapontassem precisaríamos ter uma expectativa diferente acerca de sua personalidade. Isto não desmerece sua Arte, claro, posto que um número considerável dos criadores mais visionários da História é composto por indivíduos com atitudes reprováveis em suas vidas pessoais. Ainda assim, não deixa de ser curioso que a 70a. edição do Festival de Cannes tenha incluído dois filmes que apontam a escrotice do célebre cineasta francês: o documentário Visages, Villages, no qual destrata gratuitamente sua amiga Agnès Varda (e sobre o qual já escrevi aqui no site), e a ficção baseada em fatos reais O Formidável, inspirada na autobiografia de Anne Wiazemsky e dirigida por Michel Hazanavicius.

Aliás, não é a primeira vez que Hazanavicius comanda uma obra que aborda o mundo do Cinema: há poucos anos, seu O Artista se transformou em um fenômeno surpreendente, chegando a vencer o Oscar de Melhor Filme. Desta vez, o cineasta busca retratar um período específico da carreira de Godard (Garrel), começando em 1967, quando rodou A Chinesa e se envolveu com Wiazemsky (Martin), até 1979, quando o casal se separou. A maior parte do longa, contudo, se passa durante os protestos de maio de 1968, que inflamaram a verve revolucionária do diretor, levando-o a atuar para o cancelamento do festiva de Cannes daquele ano.

Contando com uma caracterização surpreendentemente convincente de Louis Garrel como Godard (com atenção para a dicção particular deste), O Formidável é, ainda assim, um veículo que deveria garantir o estrelato absoluto a Stacy Martin, atriz que eu já havia elogiado ao escrever sobre Ninfomaníaca e que aqui evoca a rica trajetória emocional de sua personagem, da adoração absoluta pelo parceiro ao seu gradual desencantamento. Além disso, a câmera a trata com uma fascinação inquestionável, detendo-se em sua beleza como forma de sugerir o olhar repleto de desejo do próprio Godard.

Aliás, Hazanavicius compreende que fazer um filme sobre o ícone da nouvelle vague exige uma linguagem que busque algo diferente do convencional e, para cumprir este objetivo, frequentemente faz pequenos jogos com a linguagem ou com simples brincadeiras estéticas, como ao manter o ruído da máquina de escrever mesmo quando Godard para de datilografar ou ao exibir a imagem em negativo, alternando-a com a fotografia normal em um ritmo que respeita o do disco arranhando que acompanha a sequência. De maneira similar, o longa utiliza legendas para revelar o subtexto de uma troca de diálogos (sim, como Woody Allen fez em Annie Hall) e investe na metalinguagem ao trazer “Godard” acusando os atores de estupidez, já que repetem qualquer coisa que o diretor ordene (e só falta Garrel piscar para a câmera neste momento) ou ao enfocar uma conversa entre o casal principal sobre nudez desnecessária no Cinema enquanto se encontram nus. Sim, são piadas óbvias, mas que ao menos reconhecem as estratégias do próprio roteiro.

Corajoso ao criar um retrato tão crítico de um ídolo (especialmente se considerarmos que se trata de uma produção francesa), O Formidável traz um Godard arrogante, egoísta e cruel, mesmo que também sugira que estas características contribuíram para o sucesso de sua identidade criativa. Mais inesperado, por outro lado, é notar como a obra sugere a insegurança como um fator importante na insistência do realizador em quebrar propositalmente qualquer convenção que surja em seu caminho e que, em alguns (ou muitos) pontos de sua carreira o fizeram soar quase como uma caricatura de si mesmo.

O que, em última análise, termina por humanizá-lo ainda mais.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2017.

21 de Maio de 2017

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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