27 ANOS
InícioCríticasLiga da Justiça

Liga da Justiça

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Zack Snyder. Roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon. Com: Ben Affleck, Gal Gadot, Henry Cavill, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher, Joe Morton, Diane Lane, Amber Heard, Billy Crudup, Connie Nielsen, J.K. Simmons, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Jeremy Irons e Ciarán Hinds.

Uma das muitas diferenças entre as produções da Marvel e da DC reside na maneira como as primeiras constantemente abraçam a leveza, o humor e o absurdo de suas premissas, enquanto as últimas apresentam uma tendência ao sombrio, ao pessimismo e à auto importância. Ambas as abordagens trazem suas vantagens e seus perigos: se a Marvel cria obras com mais facilidade de entreter, estas também acabam frequentemente soando descartáveis e intercambiáveis, ao passo que os projetos da DC, mesmo que consigam exibir identidades próprias e densidade dramática ao lidar com personagens fantásticos, exigem de seus realizadores um controle delicado entre a melancolia e o espetáculo. Infelizmente, se Christopher Nolan alcançou brilhantemente este equilíbrio em sua trilogia, o mesmo não pode ser dito sobre O Homem de Aço e Batman Vs. Superman, que Zack Snyder transformou em narrativas inchadas, ocasionalmente aborrecidas e visualmente desinteressantes.

Assim, é uma grata surpresa que 2017 tenha se revelado um ano tão positivo para a DC, que, depois do ótimo Mulher-Maravilha, volta a acertar – mesmo ainda repetindo alguns velhos problemas – com Liga da Justiça, o mais ambicioso de seus projetos.

Continuando a história a partir de onde a deixamos em Batman Vs. Superman, o roteiro de Chris Terrio e Joss Whedon revela um mundo em caos desde a morte do Homem de Aço (Cavill) e no qual Batman (Affleck) tenta reunir os indivíduos com superpoderes que descobriu em um arquivo da LexCorp - Aquaman (Momoa), Flash (Miller) e Cyborg (Fisher) -, sendo auxiliado na tarefa pela Mulher-Maravilha (Gadot). O objetivo do Homem-Morcego é formar um grupo capaz de lidar com a ameaça que ele viu em um pesadelo no capítulo anterior (pois é, lembram daquilo?) e que poderá causar a destruição do planeta agora que este não conta mais com a proteção do Superman, cujo destino traz um forte sentimento de culpa a Bruce Wayne. E é então que a tal ameaça se materializa na forma do Lobo da Estepe (Hinds) e de seu exército de... insetos humanoides voadores?

Com um ritmo bem mais ágil que os dois últimos longas dirigidos por Snyder, Liga da Justiça consegue apresentar todos os novos personagens de maneira objetiva, evitando perder tempo com histórias de origem desnecessárias (o Flash é rápido, o Aquaman controla a água e o Cyborg é capaz de, bom, um monte de coisas; precisamos saber mais do que isso?) – um contraste imenso com todas as vezes em que vimos Thomas e Martha Wayne sendo assassinados diante do filho. Isto, porém, não impede que cada um daqueles heróis tenha personalidades distintas e papéis específicos na narrativa: o Flash de Ezra Miller é o jovem empolgado em fazer parte de um grupo como aquele e que funciona como o óbvio alívio cômico do projeto (o que pontualmente soa forçado, já que ele parece obrigado a fazer alguma piada todas as vezes em que aparece); o Aquaman de Jason Momoa se torna surpreendentemente interessante ao assumir a pose de bad boy; e o Cyborg de Ray Fisher intriga por jamais saber o alcance de seus poderes, que continuam a se desenvolver.

Enquanto isso, Ben Affleck se mostra bem mais à vontade na pele de Bruce Wayne, encarnando-o como um homem que reconhece estar envelhecendo e compelido a preencher o vácuo que acredita ter provocado ao levar Superman ao cemitério – e outro mérito do filme (e do ator) é conseguir até mesmo encaixar algumas piadinhas envolvendo o personagem sem que estas soem artificiais. Gal Gadot, por sua vez, segue uma atriz limitada a duas ou três expressões faciais (nem sempre adequadas aos momentos nos quais são empregadas), mas mais uma vez incute energia e carisma à Mulher-Maravilha, estabelecendo-a como o ponto de equilíbrio da recém-formada Liga e também sua integrante mais capaz.

Bom, ao menos até o retorno do Superman, cujos poderes são infinitamente superiores aos da amazona (ah, sério? Vão reclamar de spoiler? O nome de Henry Cavill é o segundo a aparecer nos créditos iniciais e também está no cartaz do filme, caramba!). Aliás, um dos melhores aspectos de Liga da Justiça é constatar como o Homem de Aço move a trama tanto em sua ausência quanto ao retornar: já na sequência de créditos (talvez a melhor parte do longa, o que é um elogio problemático), seu otimismo quanto à Humanidade em um vídeo amador é contraposto à melancolia que domina o planeta depois de sua morte, quando o niilismo de Wayne parece se confirmar na desesperança exibida por todos e na violência generalizada (particularmente contra imigrantes, num raro comentário político do roteiro), que são ressaltadas pelo ótimo uso da canção de Leonard Cohen, “Everybody Knows”, numa versão cantada pela norueguesa Sigrid (“Everybody knows the war is over/ Everybody knows the good guys lost / Everybody knows the fight was fixed/ The poor stay poor, the rich get rich”).

Mas é claro que um filme como este depende pesadamente não só dos personagens, mas de suas sequências de ação – e aqui os resultados são mais irregulares: se a batalha e a perseguição envolvendo as amazonas são orquestradas com eficiência e dinamismo, encontrando espaço para nobres e tocantes sacrifícios pessoais, o confronto que deveria funcionar como clímax do longa se mostra mais problemático. Sim, é empolgante ver os heróis trabalhando em equipe (mesmo com o Aquaman deslocado ao atuar fora de seu elemento), mas, de modo geral, as lutas retratadas na tela soam convencionais e pouco imaginativas, parecendo pouco mais do que um amontoado de ruídos e explosões (em meu caderno de anotações, registrei “indicação ao Oscar de Edição de Efeitos Sonoros garantida, mas e daí?”). Em contrapartida, a trilha composta por Danny Elfman acerta especialmente ao incluir ecos dos temas criados por Hans Zimmer para a Mulher-Maravilha (em Batman Vs. Superman), por John Williams em Superman – O Filme e por ele mesmo no Batman de Tim Burton, costurando musicalmente o encontro das três franquias.

É uma pena, portanto, que Liga da Justiça seja prejudicado por um vilão tão ruim – “ruim” não no sentido de maldade (o que seria paradoxalmente bom), mas de sua execução. Insatisfatório em sua origem aparentemente aleatória, em suas motivações clichês (destruir/dominar o mundo), na unidimensionalidade de sua personalidade, em sua voz (para que contratar um ator como Ciáran Hinds se seu timbre será alterado para transformá-lo naquele mesmo que já ouvimos saindo das bocas de quase todos os vilões do tipo?) e em sua realização técnica (ele jamais deixa de parecer uma animação digital mais apropriada a um game), o Lobo da Estepe é um fracasso absoluto, deixando um vazio marcante no espaço que exigiria um antagonista memorável.

Trazendo uma participação de Joe Morton que acaba soando como uma referência curiosa a O Exterminador do Futuro 2, Liga da Justiça é um filme que, mesmo inferior a Mulher-Maravilha, sugere que a DC parece finalmente ter (re)encontrado seu caminho. Já estava passando da hora.

Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais e outra depois destes.

15 de Novembro de 2017

Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

Compartilhe esta crítica

Ajude a divulgar o Cinema em Cena

Publicidade

Anúncio Responsivo

Anuncie no Cinema em Cena

O que você achou deste filme?

Compartilhe sua opinião e ajude outros cinéfilos a descobrirem grandes filmes

Publicidade

Espaço Publicitário

Anuncie no Cinema em Cena

Avaliações dos Usuários

Vitor Lemes Dias
Vitor Lemes Dias21 de nov. de 2017

Olha, sempre que sai uma crítica sua fico inquieto, mas dessa vez eu vou me manifestar, pois discordo veementemente desta crítica em sí. E apesar de ser minha opinião, formulada após assistir a duas vezes ao filme(uma na pré estréia é uma alguns dias depois), não sou o único a perceber alguns erros que são muito graves e que muitos, especialmente nós, brasileiros, estamos ignorando, ou por assim dizer, mascarando a realidade por ficção e fugindo dos nossos próprios anseios. A bilheteria norte americana, que a que realmente importa para os estúdios e distribuidoras, é uma prova deste contraste. Na primeira vez que assisti fiquei estaziado por ver esses heróis, finalmente, reunidos em um só filme. Sai feliz e me diverti. Porém, decidi reassistir mais uma vez o filme e reavaliar minha opiniao com um inquietação frustrante sobre a forma que o filme foi tratado. Totalmente incoerente com o universo estabelecido previamente nos outros filmes e com a forma que a história é contada nos longas providos por Zack Snyder. Cada filme (Homem de Aço e Batman v Superman) tinham sua própria excência e identidade, desde sua trilha sonora à forma que a história é contada. O que já não está presente no filme da Liga da Justiça, apesar de ter sido dirigido pelo mesmo(corrigindo, escrito e filmado. Pós produção completa feita por Joss Whedon). Cada longa anterior tinha um propósito que usava de vários argumentos e visões para contar aquela história, e no final, culminava em um grande espetáculo visual e intelectual. Já o filme da Liga é desprovido de tudo isso por ser simples, não arriscar atitudes que seriam consideradas icônicas e utiliza de artefatos como simples "frases de efeito" para dar um "up" em uma cena de ação genérica. Grande parte dessa culpa está sobre o tonalização da trilha sonora genérica e bagunçada composta por Danny Elfman, que também desprovida de identidade sonora, não se encaixa com o universo previamente estabelecido. Danny utiliza artefato de suas trilhas prévias e de outros temas genéricos para adequar a sua própria, e no final, culmina em uma música confusa, deslocada e sem originalidade, provando para sí mesma uma cópia forçada dos temas que o próprio Danny Elfman havia composto em outros filmes, especialmente "Vingadores: Era de Ultron" (Note como os temas dos dois filmes são iguais, a diferença é a forma como a primeira pautada na versão de Alan Silvestri e a outra no próprio tema do Batman, feito pelo próprio Elfman). Danny atingiu algo inalcançável por muitos: pode processar a aí mesmo por plágio. Outro destaque que dou é o quão mal editado ficou a pós produção e a evidente "colagem" e/ou "sobreposição" de certas cenas. Era notável como certos diálogos foram inseridos ali de última hora. Percebia-se apenas pela tonalidade do CGI de fundo e pela iluminação no cenário e pela sobreposição a luz acima da personagem. Não parecia algo que custou "300 milhões de dólares". Todos esses diálogos que ajudam a desenvolver uma relação entre as personagens tornam o ambiente mais leve e palpável à suspensão de descrensa do momento. Ex.: "Superman fazendo piada sobre a própria morte". Qual a necessidade disso? Apenas um alívio cômico. Desnecessário, já que todos os outros longas eram paltados na densidade do momento e o quão levados a sério eram levados. Para concluir resalto apenas que o filme é "bom", mas tinha um potencial tremendo para continuar uma história iniciada lá em o "Homem de Aço e Batman v Superman", e com o desgaste dos filmes de super-heróis, tornou-se mais uma vítima da mesmice da fuga da realidade perante as próprias consequências e das razões iniciais. É triste ver isso acontecer, boas histórias que não terão fim devido ao "medo" dos próprios expectadores em serem questionados da sua própria razão da existência. Preferem rir de uma catástrofe à encarar a verdade é a dor de suas consequências. Triste.

RODRIGO ROQUE
RODRIGO ROQUE21 de nov. de 2017

Ainda bem que não fui atrás dos críticos do site Omelete e de outros sites também que disseram que o filme era uma bomba. Não é, pelo contrário é muito bom! Escolhi confiar mais na crítica sempre inteligente e no bom senso do Sr. Pablo Vilaça, que sempre tem feito um ótimo trabalho. Comparativamente, uma semana antes tinha ido assistir Thor 3, e posso dizer que gostei muito mais da Liga da Justiça. Já estou ansioso pela continuação! OBRIGADO PABLO!!!

Pablo Villaça
Pablo Villaça19 de nov. de 2017

Obrigado, "John Constantine". :) <3

John Constantine
John Constantine18 de nov. de 2017

Na crítica de BvS eu comentei que te acho complacente com o Snyder, mas aqui eu concordo com tudo que você diz, tanto sobre as qualidades quanto os defeitos, e acrescento que pra mim só o Superman nesse filme valeu o ingresso. Finalmente, esse é o Superman que eu acredito que todo fã queria ver no cinema. E como eu não costumo comentar muito e não tenho redes sociais, vou aproveitar esse espaço pra deixar registrado que te acompanho há muito, muito tempo e que você é foda. Sem demagogia, não existe nenhum outro crítico (seja ele de cinema ou não) que eu acompanhe há tanto tempo, com tanto gosto e tenha tanto prazer em ler como você. Abraço.

Thede Cazarini
Thede Cazarini18 de nov. de 2017

Cresci lendo DC e Marvel desde a década de 70. Não tenho favoritismo entre um ou outro, amo todos os super heróis, então minha opinião é imparcial. No cinema hoje a Marvel nos consegue entregar um material mais fiel e mais divertido, apesar de inúmeras mudanças nas histórias. Já a DC continua devendo, apesar de ter gostado bastante de MM, não curti nada SM e BvsS. A Liga é melhor que esses dois, mas para mim ainda ficou devendo. Esperava mais.