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Críticas por Pablo Villaça

Toy Story 4
Toy Story 4

Dirigido por Josh Cooley. Roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom. Com as vozes de Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Jordan Peele, Christina Hendricks, Madeleine McGraw, Keanu Reeves, Ally Maki, Jay Hernandez, Lori Alan, Joan Cusack, Bonnie Hunt, Kristen Schaal, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Blake Clark, June Squibb, Carl Weathers, Don Rickles, Jeff Garlin, Estelle Harris, Laurie Metcalf, Bill Hader, Patricia Arquette, Melissa Villaseñor, Timothy Dalton, Alan Oppenheimer, Mel Brooks, Carol Burnett, Betty White, Carl Reiner.

É assim que somos por dentro?”, pergunta, aterrorizado, um bichinho de pelúcia em Toy Story 4 ao ver um boneco similar destruído por um gato e com o algodão que o preenchia agora exposto ao mundo. Trata-se, na superfície, de uma piada divertida, mas que resume também o terror existencial que pode ser lido no subtexto não apenas desta continuação, mas de seus antecessores, que frequentemente trazem seus personagens discutindo a própria natureza, seu papel no universo, o que desejam e as limitações que enfrentam diante destas aspirações, seja Buzz confrontando o fato de não ser um patrulheiro espacial, Jessie se fechando para o amor por temer novas rejeições ou Lotso descobrindo ter sido substituído sem que isto fosse notado por sua dona.

No entanto, não há dúvida de que o centro destes filmes sempre foi o cowboy Woody (Hanks), cuja devoção ao dono Andy é rivalizada apenas por sua dedicação ao bem-estar de seus companheiros de brincadeira – uma devoção fadada à frustração, obviamente, já que, ao contrário de seus brinquedos, o garoto cresceria e os deixaria para trás. Assim, quando Toy Story 3 chegou ao fim com a doação de Woody e sua turma para uma nova criança, Bonnie, o arco narrativo dos longas parecia ter se concluído de maneira orgânica e satisfatória, o que tornava este quarto capítulo uma proposta temerária. E, contudo, os gênios da Pixar acabam por encontrar uma justificativa perfeita para sua realização através da constatação de que a verdadeira trajetória dramática da série ainda não havia chegado ao fim: a dependência – meio patológica, convenhamos – de Woody em relação à ideia de se definir pela devoção a um dono, o que o condenava a uma existência (eterna) de dores inevitáveis.

Quando este novo longa tem início, por sinal, o protagonista já está percebendo os primeiros sinais de sua obsolescência, já que Bonnie (McGraw) vem mantendo-o no armário enquanto usa sua estrela de xerife para estabelecer Jessie (Cusack) como a heroína de suas brincadeiras, ao passo que seu papel de líder agora é exercido – como seria natural – pela boneca Dolly (Hunt), que já pertencia à menina. Neste aspecto, Toy Story 4 reflete a bela frase de Eric Rohmer* sobre como “todo bom filme é também um documento de sua época” ao reconhecer o fundamental e crescente movimento de empoderamento feminino, já que não apenas Jessie assume o protagonismo nos jogos de Bonnie como, mais tarde, Woody reencontrará a personagem que o moverá em diversos sentidos: a pastora Betty (Potts), ausente do terceiro filme depois de ter sido doada pela mãe de Andy. Antes mocinha em apuros que Woody continuamente resgatava através da imaginação de seu dono, Betty agora é uma figura forte e independente que encontrou seu lugar no mundo – um lugar sem donos que ditem seu papel e a enxerguem como uma indefesa pastorinha de vestido rendado (roupa que, por sinal, ela descarta em prol de uma peça mais prática).

Este encontro vem em um momento providencial para o cowboy, que, na impossibilidade de ser o centro do afeto de Bonnie, encontrou uma nova função ao proteger Garfinho (Hale), um trocinho desconjuntado que a menina criou usando um spork (híbrido de colher e garfo) e outros itens encontrados numa lixeira e que se tornou seu brinquedo favorito. Este novo personagem, aliás, já surge com suas próprias crises existenciais, já que insiste em se identificar como lixo e, portanto, como algo já descartado e inútil – e se você tem alguma dúvida das ambições filosóficas do roteiro de Andrew Stanton e Stephany Folsom, basta observar que Woody e Garfinho estão longe de monopolizar os autoquestionamentos na trama, que também inclui Duke Caboom (Reeves), que se envergonha por não conseguir realizar as proezas que o comercial que o anunciava prometia, e Gabby Gabby (Hendricks), uma boneca obcecada em ser amada por uma garota chamada Harmonia (preciso dizer algo?) e que, para isso, acredita ter que consertar sua caixa de voz, que veio danificada da fábrica (sim, você leu direito: o impulso primordial da boneca é encontrar a própria voz).

De um modo ou de outro, portanto, todos os personagens principais de Toy Story 4 se definem por uma ideia do papel que acreditam ter nascido para desempenhar, aprendendo, ao longo da projeção, a se erguerem quando esta ideia não encontra reflexo na realidade – e, neste sentido, não é difícil ler a insistência de Garfinho de se atirar no lixo (ou pela janela!) como um impulso suicida. Não seria a primeira vez que a série flerta com a ideia da aceitação da morte como algo inevitável, bastando lembrar a magistral cena, em Toy Story 3, na qual os brinquedos, percebendo que não podem evitar a destruição pelo fogo, se dão as mãos e se resignam ao próprio fim.

É claro que todos estes subtextos oferecem material para reflexão para o público adulto sem sacrificar o dinamismo ou mesmo a aparente leveza da narrativa para os pequenos espectadores, já que as sequências de ação são conduzidas pelo diretor estreante Josh Cooley com inventividade e humor. As piadas, diga-se de passagem, são frequentes e variadas, podendo surgir através do diálogo (“O pânico está me atacando!”, grita Rex, sendo fiel ao seu temperamento), de brincadeiras visuais como a entrada de Duke Caboom em cena, que sugere um tamanho que não corresponde às suas dimensões reais, ou de referências a outras obras (a canção-símbolo de O Iluminado, “Midnight, the Stars and You”, é ouvida no aterrorizante antiquário, e Garfinho pode ser visto penteando com adoração o cabelo de Gabby Gabby exatamente como Gary Walsh, também vivido por Tony Hale, endeusava a Selina de Julia Louis-Dreyfus em Veep). Além disso, o excepcional design de produção converte o antiquário, com suas teias de aranha e partículas suspensas de poeira, em uma das melhores criações da Pixar, ao passo que o momento em que Woody reencontra Betty e, mesmo congelado na mão de uma criança, permite que seus lábios revelem um quase imperceptível sorriso é de provocar arrepios.

Aliás, se Toy Story 4 não fizesse parte de uma série tão soberba, seus pequenos problemas seriam mais fáceis de ignorar; no entanto, é uma pena constatar como o roteiro se enfraquece em função da necessidade de encontrar alguma função para todos os personagens dos capítulos anteriores e que nem sempre justificam totalmente o tempo de tela – e, em particular, é triste ver como Buzz Lightyear (Allen) fica preso a uma piada repetitiva envolvendo sua “voz interna” e que parece ignorar todo o avanço do boneco nos capítulos anteriores. Em contrapartida, os estreantes Ducky e Bunny (Key e Peele, numa escalação inspiradíssima) quase roubam o filme sempre que surgem em cena, revelando-se – ao lado do unicórnio Buttercup (Garlin) - insanos o bastante para despertar risos infalíveis.

Ainda assim, não há como negar a força dramática do filme em seus momentos finais (e aqui, sim, Buzz se revela essencial) e que oferecem uma conclusão perfeita para a trajetória psicológica e emocional de Woody, que, mesmo sem renegar seu papel no imaginário infantil, compreende que tão importante quanto se dedicar a alguém é perceber também o erro de se deixar definir pelo outro e pelo desejo de ser por este reconhecido ou amado.

São percepções como estas que tornam Toy Story (os quatro) tão belos e fascinantes – e não só pelas reflexões que provocam, mas por sua capacidade de encarar questões fundamentais de nossas existências e dizer, como Garfinho em uma das cenas pós-créditos, um simples e honesto “Eu não sei”.

22 de Junho de 2019

* Se você reconheceu a frase, não se espante: é uma de minhas favoritas e já a citei ao escrever sobre Batman Begins, O Homem-Urso, Getúlio, RoboCop, Que Horas Ela Volta? e Sete Homens e um Destino.

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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