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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
28/11/2019 27/11/2019 4 / 5 4 / 5
Distribuidora
Paris

Entre Facas e Segredos
Knives Out

Dirigido e roteirizado por Rian Johnson. Com: Ana de Armas, Daniel Craig, Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Don Johnson, Michael Shannon, Toni Collette, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Lieberher, Riki Lindhome, Edi Patterson, K Callan, Noah Segan, Marlene Forte, M. Emmet Walsh, Frank Oz e Christopher Plummer.

Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Georges Simenon, Dashiell Hammett, Raymond Chandler: se você reconheceu um ou mais destes nomes (ou Poirot, Holmes, Maigret, Spade e Marlowe), é bastante provável que em um momento ou outro de sua vida o fascínio por histórias protagonizadas por brilhantes (e problemáticos) detetives particulares tenha exercido forte influência sobre suas escolhas ao optar por um livro. Representantes de um dos mais populares gêneros literários – até a proliferação da autoajuda -, estes autores ajudaram a definir as regras e convenções de narrativas que, mesmo similares em estrutura na maior parte do tempo, surpreendiam pela invencione de tramas mirabolantes cujas reviravoltas mantinham o leitor em um divertido suspense por horas.


Ou, no caso de Entre Facas e Segredos, por 130 brilhantes minutos.

Escrito e dirigido por Rian Johnson, que já havia flertado com o gênero (mais especificamente, com o noir) em seu também excelente A Ponta de um Crime, o filme tem uma ambientação que não poderia ser mais clássica, se passando quase inteiramente no interior de uma mansão gótica enquanto o famoso detetive Benoit Blanc (Craig) investiga a morte do milionário autor – de livros policiais, claro - Harlan Thrombey (Plummer). Entre os suspeitos, estão os filhos do sujeito, Linda e Walt (Curtis e Shannon), o genro Richard (Johnson), as noras Donna e Joni (Lindhome e Collette), os netos Ransom, Meg e Jacob (Evans, Langford e Martell) e a enfermeira particular Marta Cabrera (de Armas). Esta última, por sinal, é a protagonista do longa, já que, honesta a ponto de vomitar sempre que tenta mentir, logo se torna uma espécie de assistente informal de Blanc apesar de guardar seus próprios segredos.

Se no papel este conceito de uma protagonista fisicamente incapaz de dizer inverdades poderia soar tolo, em Entre Facas e Segredos acaba por se tornar um recurso eficaz e importante, já que, no meio de tantos personagens e tramoias, o espectador tem ao menos uma referência na qual se ancorar. O mais interessante, contudo, é constatar como Johnson, claramente fluente na linguagem do mistério, reconhece as expectativas do público e não demora a subvertê-las, começando pelo fato de revelar, logo no primeiro ato, o que realmente ocorreu com Harlan – e, acreditem, isto não é um spoiler, já que representa apenas a primeira de uma série de guinadas engenhosas que eu jamais me atreveria a expor, já que descobrir cada uma delas representa uma experiência ímpar.

Brincando com a cronologia da narrativa, mas não a ponto de tornar a estrutura mais importante do que a trama em si, Johnson elabora um enredo complexo que dá voltas sobre si mesmo sem jamais perder o controle, amarrando todas as pontas, por menores que sejam, numa arquitetura dramática tão satisfatória que o impulso imediato é de assistirmos novamente ao filme para conferirmos cada elemento e o modo como se encaixam no resto – algo que, vale repetir, A Ponta de um Crime também fazia muito bem.

Além disso, o cineasta continua a exibir seu talento na condução de atores, já que cada integrante deste elenco fantástico tem a oportunidade de desenvolver seu personagem com voz e características próprias, sendo notável também como Johnson é capaz de manter a mise-en-scène clara mesmo com tantas pessoas em cena (e, da mesma forma, o design de produção de David Crank merece aplausos por conferir personalidade a cada aposento da mansão - da sala com o imenso trono de facas ao pequeno e aconchegante estúdio de Harlan).

A dinâmica entre os atores, diga-se de passagem, representa outro dos prazeres oferecidos por Entre Facas e Segredos – e é impossível não apreciar o talento de Jamie Lee Curtis, por exemplo, ao observar como, ao ouvir um elogio, ela transforma uma resposta superficialmente afável (“Obrigada. Isto significa muito.”) em uma manifestação de puro desprezo por seu interlocutor. Enquanto isso, Daniel Craig se diverte com o sotaque sulista do detetive, adicionando um toque suficiente de patetice aos modos do sujeito para que duvidemos de sua competência mesmo quando se mostra capaz de perceber detalhes mínimos. E se Michael Shannon projeta vulnerabilidade e decência, isto não o impede de sugerir uma faceta menos digna e mais mesquinha de Walt, ao passo que Don Johnson já deveria ser aplaudido apenas pela maneira casual com que entrega um prato sujo a Marta ao mesmo tempo em que afirma considerá-la “da família” (e é impressionante como, em meio a tantos veteranos, Ana de Armas jamais se deixa apagar, trazendo carisma e força à protagonista). Para finalizar, Chris Evans cria um personagem que, mesmo sem esconder seu caráter dúbio, conquista a simpatia do público, comprovando possuir um ótimo timing cômico.

Igualmente instigante é notar como Rian Johnson preenche cada interação com subtextos que, por si só, já tornariam o filme rico ainda que não apresentasse qualquer mistério: é revelador, por exemplo, como praticamente nenhum membro da família Thrombey demonstra saber a origem da família de Marta mesmo que todos afirmem considerá-la uma “igual” – e, claro, o fato de a garota ser filha de imigrantes ilegais e também a bússola moral do longa é uma escolha que se torna ainda mais relevante em uma época na qual Donald Trump e seus apoiadores insistem em demonizar qualquer um que tenha pele um pouco menos clara. Não é coincidência, tampouco, que os filhos de Harlan insistam em afirmar que construíram sozinhos seus próprios negócios, escancarando como geralmente o discurso de “meritocracia” parte justamente daqueles que menos obstáculos enfrentaram na vida (e que Linda conceda ter recebido do pai “um pequeno empréstimo de um milhão de dólares” é uma alfinetada descarada no próprio Trump, que já fez afirmação idêntica sem se dar conta do absurdo que dizia).

Aproveitando também para demolir, através do adolescente troll alt-right vivido por Jaeden Martell, parte do fandom reacionário, racista, misógino e xenofóbico da série Star Wars que atacou o diretor por se atrever a expandir o universo da franquia e torná-lo mais inclusivo e menos repetitivo em Os Últimos Jedi, Johnson ainda reflete o déficit de atenção tão característico das redes sociais em uma fala divertidíssima dita pela sempre fantástica Toni Collette, que, ao reconhecer Blanc, exclama: “Eu li um tweet sobre um artigo sobre você!”.

No entanto, mais sintomático do que a maneira como retrata a superficialidade, o egoísmo e pequenez dos milionários Thrombey é o otimismo que Johnson acaba por exibir através de suas alegorias políticas – algo nada surpreendente vindo do diretor que enxergou, na imagem de um garotinho segurando uma vassoura como um sabre de luz, um aceno de esperança.

24 de Dezembro de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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