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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
02/01/2020 18/10/2019 5 / 5 5 / 5
Distribuidora
Vitrine Filmes

O Farol
The Lighthouse

Dirigido por Robert Eggers. Roteirizado por Robert Eggers e Max Eggers. Com: Robert Pattinson, Willem Dafoe e Valerila Karaman.

Assistir a O Farol é sentir-se preso em um pesadelo que nos aterroriza sem que consigamos compreender exatamente como ou por quê. Ambientado no fim do século 19 e acompanhando dois homens enviados a uma pequena ilha para cuidar do farol do título, o filme nos prende a estes personagens enquanto, ao longo de quatro semanas (ou mais), são atormentados pelo vento, ameaçados por tempestades e isolados pelo mar revolto, transformando suas tarefas profissionais em uma sentença.

Evocando uma pesada atmosfera desde a cena inicial, que revela a ilha em meio à neblina enquanto o barco que transporta os personagens se aproxima de seu destino e um plano-detalhe destaca uma pesada corrente que sugere o destino daqueles homens, O Farol é uma narrativa que angustia pelo estranhamento que provoca através do que acontece na tela – e acontece muita coisa – e do que não acontece, como a total ausência de interação entre a dupla principal e seus antecessores na tarefa, com os quais cruzam pelo caminho sem trocar sequer um aceno de cabeça.

Rodado em uma razão de aspecto de 1.19:1 que torna o universo dos personagens ainda mais claustrofóbico e adotando uma fotografia em preto-e-branco que ressalta a tristeza daqueles homens, O Farol chega a flertar com o expressionismo em seus fortes contrastes e ao transformar a geografia ameaçadora da ilha, com seu terreno inóspito, suas rochas lisas e precipícios, em um reflexo do estado emocional e psicológico do jovem Ephraim Winslow (Pattinson) e de seu superior Thomas Wake (Dafoe) – e o mesmo pode ser dito sobre a estranha inclinação do anexo que vai da pequena casa que habitam até o farol que mantêm em atividade. Além disso, assim como o filme anterior de Eggers, o ótimo A Bruxa, esta é uma obra que conduz o espectador de modo eficiente para a época que retrata – seja através da direção de arte e dos figurinos, seja através do vocabulário empregado pelos dois homens.

E já que mencionei A Bruxa, é curioso notar como, depois de fazer um filme sobre a repressão sexual feminina e o processo de despertar e independência de uma adolescente diante da opressão religiosa, o cineasta agora se concentra na relação entre dois homens que, forçados a um convívio longo e sem possibilidade de escape, parecem exibir certa tensão homoerótica sob os desentendimentos e hostilidades crescentes que guiam seu cotidiano - e eu sei que a análise semiótica na Arte muitas vezes exagera ao enxergar símbolos fálicos por todos os lados, mas, neste caso, considerando que boa parte dos conflitos gira em torno de uma torre no meio do nada... sinto muito, mas não dá para evitar (especialmente se considerarmos como Wake se refere ao farol como “ela” e afirma ser casado com este(a)).

Thomas Wake, aliás, oferece a Willem Dafoe a oportunidade (e o desafio) de se entregar a monólogos intensos e difíceis em função do vocabulário que combina o arcaico e o linguajar de um homem que se orgulha de exibir em cada palavra seu passado de marinheiro. É notável, diga-se de passagem, como o ator consegue converter um personagem caricato por natureza em um indivíduo complexo e misterioso, tornando-o ameaçador sem perder de vista o humor inerente ao absurdo que representa (e vê-lo rogar uma longa praga ao ter sua culinária criticada representa um dos melhores momentos da projeção). Enquanto isso, Robert Pattinson, que segue criando uma fascinante carreira pós-Crepúsculo (assim como Kristen Stewart, por sinal), forja uma dinâmica memorável com seu experiente parceiro de cena, indo da insegurança à pura hostilidade de forma fluida e demonstrando coragem, inclusive, ao abraçar um overacting que despertaria inveja em Nicolas Cage (e que funciona em seu contexto).

Enriquecido por um design sonoro que ajuda a compor o ambiente físico e psicológico da narrativa através do uivar constante do vento, do ranger do assoalho, da água passando pela caldeira, do grasnar das gaivotas (as gaivotas!), das ondas castigando os rochedos e da enlouquecedora sirene, O Farol é um exercício de gênero e de estilo que comprova que o sucesso criativo de A Bruxa não foi acidente e que Robert Eggers é um realizador com um belo caminho à sua frente.

Porém, não se trata apenas de talento, mas de audácia: enquanto grande parte do Cinema hollywoodiano - e do gênero terror - se rende ao lugar-comum, à literalidade absoluta e a tramas que se repetem há décadas, Eggers (que escreveu o roteiro ao lado do irmão Max) não teme criar uma história que faz da ambiguidade seu ponto forte. O terceiro ato, em específico, submerge na insanidade crescente dos personagens e toma emprestadas do mito de Prometeu tanto imagens simbólicas (a luz do farol como o fogo dos deuses) quanto literais (a punição divina através dos corvos/gaivotas devorando eternamente seu fígado).

E poucos planos produzidos pelo gênero nos últimos anos se apresentaram tão memoráveis quanto os tableaux vivants que reproduzem o destino de Prometeu e, antes disso, a influência crescente de Wake sobre Winslow ao surgir com um facho de luz intenso projetado pelos olhos.

O Farol é um pesadelo lindíssimo.

08 de Janeiro de 2020

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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