Seja bem-vindx!
Acessar - Registrar

Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
23/02/2023 09/12/2022 1 / 5 2 / 5
Distribuidora
California Filmes
Duração do filme
117 minuto(s)

A Baleia
The Whale

Dirigido por Darren Aronofsky. Roteiro de Samuel D. Hunter. Com: Brendan Fraser, Hong Chau, Sadie Sink, Ty Simpkins, Sathya Sridharan e Samantha Morton.

Qualquer elemento redentor que A Baleia possua se deve a Brendan Fraser – e não exatamente pela qualidade de sua performance (embora esta mereça aplausos), mas sim pelos históricos profissional e pessoal do ator, que levam o público a sentir um carinho por seu personagem que vem em grande parte do afeto por seu intérprete. Já o filme em torno deste é indefensável, revelando-se um melodrama tolo que enxerga seu protagonista com uma repugnância que tenta apresentar como empatia.


O sujeito em questão é Charlie (Fraser), professor de escrita criativa de um curso online que sempre mantém sua webcam desligada por suspeitar que sua aparência seria vista com desconforto por seus alunos, já que, pesando mais de 270 quilos, ele mal consegue sair de sua poltrona sem a ajuda de sua amiga e enfermeira Liz (Chau). Com a pressão arterial atingindo níveis letais e sofrendo de insuficiência cardíaca congestiva, ele se nega a ir ao hospital por não ter plano de saúde e, assim, o longa acompanha o que talvez sejam seus últimos dias de vida e nos quais conhece o missionário Thomas (Simpkins), reencontra a ex-esposa Mary (Morton) e tenta estabelecer alguma conexão com a filha Ellie (Sink), que tinha oito anos de idade quando o pai deixou a família para viver com o namorado – cujo suicídio, por sua vez, desencadeou o processo que levaria Charlie à obesidade mórbida.

Em resumo: em pouco menos de duas horas, A Baleia tenta incluir em sua narrativa discussões complexas sobre fanatismo religioso, homofobia, ideação suicida, compulsão alimentar/alcoolismo e o sistema de saúde desumano dos Estados Unidos – falhando em trazer qualquer contribuição relevante aos temas, mas conseguindo soar gordofóbico e misógino no processo, o que é uma proeza considerável.

Roteirizado por Samuel D. Hunter a partir de sua própria peça teatral, o filme é menos uma adaptação do que uma versão filmada do espetáculo, já que o excesso de diálogos expositivos funciona mal na tela e a entrada/saída em cena constante dos personagens no único cenário da produção (a casa de Charlie e, em particular, sua sala de estar) é artificial e desajeitada. Para piorar, o cineasta Darren Aronofsky não consegue escapar desta teatralidade, chegando a reforçá-la com uma marcação de cena cuja limitação é ainda mais ressaltada pela decisão de atravessar a projeção realizando travellings semicirculares ancorados no protagonista enquanto outros personagens se movimentam em torno deste. E se a decisão de rodar o longa numa razão de aspecto reduzida, de 1.33:1, tem o óbvio propósito de aumentar a sensação de claustrofobia experimentada por Charlie, o resultado se torna excessivo quando associado à fotografia escura e a um design de produção determinado a criar um ambiente sujo, bagunçado e amontoado, passando do claustrofóbico e chegando a um mero clichê visual - que, vale apontar, é apenas um entre vários, já que Aronofsky também inclui uma inevitável passagem que traz dois personagens conversando enquanto sentados de lados opostos de uma porta fechada e, ainda mais previsível, faz questão de mostrar uma chuva torrencial sempre que a porta do apartamento é aberta com o único objetivo de, claro, substitui-la pela luz do sol durante aquele que tenta ser um clímax emocional poderoso.

Retratando Charlie como uma figura repugnante cuja obesidade recebe um tratamento típico de uma criação de David Cronenberg, A Baleia vê o físico de seu protagonista como algo que foge do natural e estaria à vontade no subgênero do body horror – e não falo somente de como Aronofsky e o diretor de fotografia Matthew Libatique buscam posicionar Fraser e a câmera para tornarem cada aspecto de seu corpo o mais grotesco possível, mas também de como o transformam em um verdadeiro animal ao trazê-lo comendo baldes de frango, pizzas inteiras, barras de chocolate e sanduíches imensos com uma sofreguidão absurda que inclui grunhidos, suspiros e gordura se espalhando pelas bochechas, pelo queixo e pelas roupas. (Em certo momento, ele chega a engasgar, levando uma personagem a sugerir que ele coma “como um ser humano normal”.)

A ironia não percebida pelos realizadores é que, ao mesmo tempo em que veem o protagonista com asco, se esforçam para apresentá-lo como uma vítima do preconceito alheio. “Quem iria me querer como parte de sua vida?”, ele pergunta algumas cenas antes de surgir numa sequência na qual devora tudo à sua frente, derramando maionese num pão diante da geladeira aberta (porque sua glutonice é tamanha que não há tempo para abrir e fechar a porta), engolindo fatias inteiras de pizza e vasculhando todas as gavetas e armários que preencheu com guloseimas. Sim, a ideia é reforçar como Charlie está cometendo um suicídio inspirado no Nicolas Cage de Despedida em Las Vegas, mas a imagem resultante é a de uma caricatura.

O mesmo olhar unidimensional se aplica às personagens femininas, que, em maior ou menor grau, passam toda a projeção gritando com o pobre professor, ainda que – no caso de Liz – com boas intenções. A ex-esposa interpretada por Samantha Morton, por exemplo, chega a ser responsabilizada por Charlie ter deixado de conviver com a filha (o filme aparentemente confunde “guarda total” com “ordem de restrição”) e escondido desta que o pai sempre pedia notícias suas (e, é claro, a mulher se torna alcoólatra depois de ser deixada pelo marido). Sadie Sink, por sua vez, vai além da revolta adolescente ao compor Ellie e a torna uma autêntica psicopata, interpretando cada momento da personagem com raiva, sarcasmo ou ambos. Aliás, o mais inacreditável é que o filme parece achar divertido que ela ameace matar o pai ou acusar Thomas de estupro (para forçá-lo a se drogar), como se estas “piadas” – como ela as classifica – fossem minimamente razoáveis. E se até posso compreender que Charlie se empenhe para enxergar suas ações como bem intencionadas, menos aceitável é que o filme faça o mesmo. Não que o que ela busca causar na vida de Thomas importe, posto que o missionário, em sua homofobia e proselitismo invasivo, não merece muita simpatia.

Assim, é espantoso que, no meio de tudo isso, Charlie ainda seja capaz de acreditar que “as pessoas são incríveis” e que, no fundo, todos se importam com o bem-estar alheio. Pregando repetidas vezes que o mais importante é ser honesto consigo mesmo (o que aparentemente faz qualquer texto se tornar bom em um passe de mágica literária), o sujeito só não perde a verossimilhança graças à performance de Brendan Fraser, que, com seu olhar gentil e o tom de voz sempre calmo, traz humanidade ao que o roteiro pintou como um mero símbolo – e não é à toa que o filme se passa durante as primárias norte-americanas de 2016 que resultariam na seleção de Donald Trump como candidato republicano: é como se o longa dissesse que toda a pureza e bondade restantes no mundo (e representadas por Charlie) estivessem prestes a desaparecer.

Dito isso, a ideia de que “honestidade” é o pré-requisito máximo para a criação artística não depõe a favor do personagem como professor – especialmente se considerarmos como ele expõe os nomes dos autores dos textos confessionais recebidos e, mais grave, elogia as frases citadas como se fossem boa literatura. O que não espanta, já que, aos seus olhos, o simples fato de Ellie escrever um haiku a transforma em gênio.

Esta postura denota também hipocrisia por parte de A Baleia, que, tentando vender-se como um olhar sensível e cheio de empatia sobre um homem morbidamente obeso, poderia quase se tornar uma prequel de Se7en.

Ellie seria uma Jane Doe perfeita.

04 de Março de 2023

(Curtiu o texto? Se curtiu, você sabia que o Cinema em Cena é um site totalmente independente cuja produção de conteúdo depende do seu apoio para continuar? Para saber como apoiar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique! Mesmo!)

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Você também pode gostar de...

 

Para dar uma nota para este filme, você precisa estar logado!