Dirigido por Sebastián Lelio. Roteiro de Sebastián Lelio, Josefina Fernández, Manuela Infante e Paloma Salas. Com: Daniela López, Avril Aurora, Lola Bravo, Paulina Cortés, Néstor Cantillana, Mariana Loyola, Luis Dubó, Amparo Noguera.
Foi especialmente interessante assistir ao chileno A Onda logo após Eddington, de Ari Aster, já que ambos os filmes abordam, embora com enfoques diferentes, a questão do ativismo político exercido por pessoas que constantemente questionam a própria legitimidade para defender certas posições.
Dirigido por Sebastián Lelio, o longa se inspira nas manifestações que ocorreram no Chile em 2018 e ficaram conhecidas como parte da "nova onda feminista" – protestos que se espalharam por todo o país e incluíram greves organizadas por coletivos de mulheres e denúncias sobre abusos sexuais frequentes em instituições tradicionais. A partir deste contexto, A Onda se concentra nas alunas de uma universidade que expõem casos de assédio e abuso sexual cometidos tanto por colegas quanto por professores em posições de autoridade, trazendo como centro destes eventos uma estudante de música, Julia (López), que, prestes a realizar a audição mais importante de sua carreira, começa a se questionar quanto à natureza de uma interação específica com o assistente de sua professora, que talvez tenha constituído um comportamento abusivo – e o que começa como dúvida se transforma em certeza e revolta à medida que ela reconsidera o que ocorreu. Eventualmente – e contra a própria vontade – a garota se transforma no centro simbólico das manifestações no campus; uma espécie de símbolo involuntário dos crimes tolerados e sistematicamente ignorados pela instituição.
Embora declaradamente feminista em sua temática e posicionamento, contando também com três mulheres na concepção do roteiro (Josefina Fernández, Manuela Infante e Paloma Salas), o filme é um claro resultado da mão pesada de seu diretor e co-roteirista, que, mesmo responsável pelo excepcional Uma Mulher Fantástica e pelo intrigante O Milagre, aqui se perde completamente ao estabelecer a narrativa do projeto, expondo inclusive sua insegurança com relação ao seu direito de contar esta história. Aliás, a contradição aparente de um filme feminista dirigido por um representante do gênero tradicionalmente opressor é superficialmente abordada pelo próprio longa em um momento metalinguístico que reconhece como o roteiro foi "escrito pelo patriarcado" – uma passagem que, em vez de soar como genuína autocrítica, parece apenas uma justificativa preventiva, um escudo contra condenações futuras.
Limitando-se a repetir clichês associados a discussões superficiais sobre abuso sexual quando conduzidas por pessoas sem formação política, ideológica ou histórica – problema similar ao identificado em Eddington -, A Onda inclui cenas como a que traz a mãe de um acusado lamentando publicamente que seu pobre filho não recebeu oportunidade de defesa adequada; outra na qual homens denunciados repetem ladainhas sobre como têm mãe/esposa/irmã/filha ou como "todos que (os) conhecem sabem que jamais faria algo assim"; e alegações de que se trata de uma "caça às bruxas" promovida por feministas vingativas. Estas reproduções de lugares-comuns, entretanto, jamais oferecem qualquer perspectiva que enriqueça o debate, limitando-se apenas à constatação óbvia de como são frequentes e estúpidas.
Mas a coisa piora: assim como Partir un jour, filme de abertura do festival, A Onda se insere no subgênero do "musical surpresa" – produções que não se apresentam inicialmente como pertencentes ao gênero, mas que gradualmente revelam esta natureza através de canções que soam improvisadas e pouco melódicas. Intensificando-se à medida que a história avança, esta abordagem narrativa culmina em um terceiro ato dominado por música ininterrupta e coreografias caóticas, resultando em uma cacofonia insuportável que traz personagens de ambos os lados do conflito essencialmente gritando suas posições políticas durante a meia hora final de projeção. Para piorar, em vez de utilizar o elemento musical como recurso estético para contrastar com os temas densos (o que poderia ser interessante), o longa opta por um espetáculo de gosto duvidoso – como na sequência ambientada em uma delegacia na qual uma vítima de estupro é questionada sobre suas roupas enquanto a coreografia remete a movimentos sexuais sem se atentar para as implicações éticas desta escolha.
Como se não bastasse, o projeto repete continuamente os mesmos argumentos políticos superficiais, pecando também ao transformar o caso específico da protagonista em uma síntese de todos os problemas enfrentados pelas mulheres sob uma estrutura patriarcal, como se uma única situação particular pudesse resumir adequadamente a totalidade da experiência feminina. Aliás, questões essenciais como consentimento são abordadas superficialmente e – pior – tratam o relato de Julia como uma região acinzentada, como algo complexo e ambíguo, questionando se esta verbalizou explicitamente seu consentimento, se expressou claramente sua recusa ou se demonstrou interesse inicial apenas para mudar de ideia mais tarde – perguntas que são absolutamente irrelevantes quando consideramos que ela estava inconsciente durante o ato.
Igualmente problemático é o fato de a protagonista ser constantemente manipulada por personagens que seriam supostamente aliadas: seu caso pessoal é exposto publicamente contra sua vontade, ela é transformada em símbolo político apesar de afirmar que detesta se sentir como vítima e eventualmente é esquecida pelas próprias defensoras, que se tornam mais interessadas nas repercussões e oportunidades midiáticas do que em seu bem-estar psicológico. Com isso, o que poderia fomentar uma discussão sofisticada sobre a complexidade inerente a movimentos sociais amplos e ideologicamente diversos acaba soando como uma crítica problemática que parece sugerir como aquelas mulheres não conseguem se entender, sendo movidas mais pelo ego do que pela sororidade.
Revelando sua fragilidade também ao tentar construir metáforas profundas, A Onda invariavelmente recorre às escolhas mais óbvias, como ao trazer a protagonista falhando em alcançar uma nota musical aguda durante a cena inicial apenas para ouvir a professora declarando como a garota “pensa conhecer a própria voz” (e é claro que ao longo dos 129 minutos seguintes ela irá justamente descobrir esta “voz”). Finalmente, o longa conclui sua bagunça em um terceiro ato desarticulado no qual se perde completamente em simbolismos narrativos inconsistentes – como ao retratar paredes sendo demolidas para revelar cômodos/objetos ocultos, mas sem qualquer clareza conceitual: as tais paredes representariam as barreiras sociais enfrentadas pelas mulheres em instituições patriarcais ou traumas psicológicos reprimidos? Em vez de explorar qualquer uma destas possibilidades, o filme opta por incluir uma sequência pavorosa na qual várias jovens renegam os próprios pais, já que estes seriam representantes do patriarcado – e uma personagem chega a ligar para o pai, um motorista de Uber que trabalha exaustivamente para financiar a educação da filha, apenas para dizer "você não é mais meu pai" - mesmo sem haver qualquer sugestão de que o sujeito exiba um comportamento reprovável e machista.
Ignorando sistematicamente questões relevantes de classe socioeconômica e identidade racial – interseccionalidades cruciais no movimento feminista contemporâneo –, A Onda ainda parece defender implicitamente a problemática ideia de que a expressão artística se torna mais autêntica e rica quando originada da dor do artista, romantizando perigosamente a associação entre trauma psicológico, depressão clínica e criação artística significativa.
Já se candidatando a pior filme de 2025, esta produção basicamente condensa irresponsavelmente as complexidades e nuances das violências cometidas contra mulheres em uma sociedade patriarcal, mistura todas as mensagens políticas possíveis sem qualquer coerência ideológica e despeja tudo em sequências visualmente elaboradas nas quais a câmera em constante movimento captura coreografias velozes com a esperança de que esta abordagem caótica resulte magicamente em algo relevante, revelador ou revolucionário. O efeito alcançado, porém, é precisamente o oposto, trazendo uma obra surpreendentemente conservadora em sua mensagem e fracassada como experimento visual.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
17 de Maio de 2025
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