Cronologia da Água, A
Dirigido por Kristen Stewart. Roteiro de Kristen Stewart e Andy Mingo. Com: Imogen Poots, Thora Birch, Tom Sturridge, Susannah Flood, Michael Epp e Jim Belushi.
A trajetória profissional de Kristen Stewart é fascinante: depois de ver algumas de suas escolhas artísticas ironizadas em função de sua associação com a série Crepúsculo – e que, sejamos justos, muitas vezes se deviam mais à mediocridade do material original -, a atriz construiu uma carreira cada vez mais surpreendente, participando de projetos artisticamente ambiciosos e comercialmente arriscados que acabaram levando-a a vencer o César (o Oscar francês) de Melhor Atriz Coadjuvante por Acima das Nuvens, tornando-se a primeira norte-americana a ser reconhecida pela premiação.
Pois se sua carreira como atriz já vinha se desenvolvendo de forma consistente, A Cronologia da Água, que marca sua estreia na direção de longas-metragens, inaugura uma nova etapa que sugere um potencial igualmente significativo: o que Stewart demonstra nesta obra revela não apenas coragem artística, mas uma ambição estética notável. Sim, a história pessoal da escritora Lidia Yuknavitch, marcada por tragédia e superação, poderia facilmente ter rendido um filme correto se abordada através das convenções seguras que cinebiografias adotam em Hollywood, mas “correto” parece não ser o bastante para a jovem cineasta, que opta por estratégias infinitamente mais desafiadoras tanto para si mesma como realizadora quanto para o espectador, que é levado a experimentar diretamente a subjetividade fragmentada da protagonista ao longo de sua vida marcada por traumas e a ver-se, assim, na perspectiva psicológica e emocional daquela personagem em seus momentos mais desesperadores.
Como se estes desafios já não fossem imensos, Stewart abraça outro igualmente complicado do ponto de vista cinematográfico: retratar visualmente o processo criativo de um escritor. Ora, se a representação do trabalho de atores, cineastas, dançarinos ou músicos apresenta relativa facilidade devido à natureza visual ou performática destas atividades, capturar a criação literária (que essencialmente envolve uma pessoa sentada diante do papel em branco ou da tela de computador) representa um obstáculo maior para qualquer realizador, especialmente um estreante - e ainda assim Stewart é bem-sucedida ao transformar este processo interno e silencioso em algo visualmente dinâmico e dramático.
Baseado nos escritos autobiográficos de Yuknavitch, aqui interpretada por Imogen Poots, A Cronologia da Água retrata os horrores de sua infância marcada por abusos físicos, emocionais e sexuais cometidos pelo próprio pai (Epp) enquanto a mãe (Flood), dominada pelo alcoolismo e sem força psicológica para confrontar o marido, provoca suas próprias cicatrizes através da omissão – cicatrizes tão profundas que, em certo momento, depois de um raro gesto de coragem da mãe, a protagonista comenta em sua narração: "Naquele momento, eu quase a amei".
Igualmente triste é constatar como estes padrões de abuso tendem a se perpetuar na vida adulta das vítimas, que frequentemente passam a reproduzir de modo inconsciente comportamentos similares até que gradualmente aprendam a processar seus traumas e compreendam como estes afetam seus relacionamentos – algo que no longa fica evidente quando a protagonista passa a tratar o marido com brutalidade por não saber lidar com o afeto e a gentileza que recebe deste. Não que ela deseje ser maltratada; a questão é que ao longo da vida ela foi praticamente condicionada a acreditar que é assim que as pessoas tratam aqueles que supostamente amam. Enquanto isso, sua irmã Claudia processa tudo que viveu de um modo menos autodestrutivo, mas igualmente doloroso, já que exibe uma tristeza constante, profundamente enraizada, que atravessa cada momento de sua existência aparentemente funcional, já que se casou e se tornou mãe - e a performance de Thora Birch, que evoca esta melancolia permanente através do olhar da personagem, merece fartos aplausos.
Aliás, Stewart demonstra sabedoria na escalação de seu elenco, que inclui ainda uma participação surpreendente de Jim Belushi como o escritor Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho: associado a papeis cômicos durante toda sua trajetória profissional (assim como seu irmão John, precocemente morto por uma overdose), o ator vive o mentor literário da protagonista como um homem cuja excentricidade transcende o estereótipo e se apresenta como uma personalidade intelectualmente inspiradora em seu não-conformismo. Além disso, é admirável como a diretora (que, vale dizer, escreveu o roteiro ao lado de Andy Mingo, marido de Yuknavitch na vida real) jamais ignora como as experiências de Lidia não lhe permitem esquecer a ameaça em potencial que figuras masculinas representam – e assim, quando Kesey abraça a protagonista em um gesto aparentemente paternal, tanto a personagem quanto o espectador experimentam uma apreensão momentânea temendo que aquela demonstração de afeto subitamente revele intenções predatórias. E não é à toa que somos condicionados a ecoar o medo da escritora, já que, mesmo evitando retratar os abusos por esta sofridos de forma gráfica (o que é um alívio), Stewart é hábil ao utilizar sugestões visuais como substitutas eficazes: durante boa parte do primeiro ato, por exemplo, vemos apenas partes do rosto do pai de Lidia – nariz, boca, maxilar –, mas raramente seus olhos, o que intensifica o aspecto ameaçador de sua presença.
Rodado pelo diretor de fotografia Corey C. Waters em 16mm – uma escolha incomum na era digital –, A Cronologia da Água conta com uma textura granulada que contribui para estabelecer a sensação visual de memórias resgatadas - não como nostalgia estética, o que seria inadequado de um ponto de vista emocional diante das terríveis experiências da protagonista, mas como um registro visual deliberadamente imperfeito que sugere a solidificação de memórias fragmentadas e da melancolia/tristeza que estas inevitavelmente trazem. Da mesma forma, esta abordagem visual é refletida na paleta de cores sempre evocativa: em determinada passagem, por exemplo, a personagem adulta é vista em uma banheira compartilhando um momento doloroso com a irmã em um ambiente frio e dessaturado até que, em um corte abrupto, somos levados a um instante paralelo da infância em que as irmãs surgem também em uma banheira, mas agora em uma paleta quente e viva que reflete a pequena ilha de segurança que representavam uma para a outra.
O trabalho da montadora Olivia Neergaard-Holm, por sinal, é de um brilhantismo único, utilizando frequentemente cortes secos precisos, ocasionalmente quase subliminares, que ilustram visualmente a natureza fragmentada das memórias de Lidia. Além disso, a falta de linearidade cronológica da narrativa, que envolve constantes elipses que vão e voltam no tempo, sugere como as dores do passado colorem a percepção do presente – e uma vitória profissional, por exemplo, pode gerar uma breve alegria até ser emocionalmente manchada por flashbacks intrusivos de uma rejeição passada. Aliás, esta talvez seja uma das qualidades mais fascinantes do filme: sua capacidade de retratar a personagem simultaneamente de forma objetiva, externamente observável (seu comportamentos e suas ações) e de modo subjetivo, expondo sua vida interior (suas emoções e seus pensamentos).
Um exemplo maravilhoso desta estratégia surge em uma cena de um virtuosismo narrativo admirável e que traz a protagonista em uma leitura pública de um conto autobiográfico: alternando fluidamente entre perspectivas complementares – mantendo o mesmo monólogo como constante sonora, mas variando a fotografia, os enquadramento e temperatura das cores –, Kristen Stewart demonstra visualmente como há duas leituras ocorrendo simultaneamente: a externa, presenciada pela plateia que se encontra diante de Lidia no evento literário, e a interna, que revela como aquela mesma leitura afeta emocionalmente a protagonista ao levá-la a recordar e reviver suas experiências traumáticas.
Para completar, como já apontado, o longa realiza a proeza de retratar o processo criativo literário com eficácia, ilustrando como passagens inteiras por vezes surgem em flashes desconectados que resultam do processamento/reelaboração das memórias através de racionalizações que também podem emergir como insights bruscos. Mais: o filme captura com precisão uma sensação familiar a quem vive da escrita: a euforia - rara – quando subitamente o escritor percebe ter escrito algo que reflete exatamente o que queria dizer, com as palavras se encaixando na ordem perfeita para expressar precisamente o pensamento ou emoção desejados.
Ancorado pela performance extraordinária de Imogen Poots, A Cronologia da Água é um feito que estabelece Kristen Stewart como uma artista multidisciplinar, como uma realizadora com potencial para desenvolver uma carreira atrás das câmeras capaz de rivalizar com aquela – admirável – que construiu diante destas.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
18 de Maio de 2025
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