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Amrum

★★★☆☆3/5 estrelas
12 min

Dirigido por Fatih Akin. Roteiro de Fatih Akin e Hark Bohm. Com: Jasper Billerbeck, Diane Kruger, Kian Köppke, Laura Tonke, Hark Bohm, Matthias Schweighöfer, Lisa Hagmeister, Detlev Buck, Lars Jessen.

A culpa coletiva que define a sociedade alemã desde o término da Segunda Guerra Mundial constitui um fenômeno histórico que encontra justificativa nos horrores perpetrados durante o regime nazista e que impulsionou, nas décadas seguintes, um esforço considerável por parte de todo o país para corrigir os erros gravíssimos do passado, direcionando-o para uma realidade mais progressista e inclusiva – trajetória que, assim como vem ocorrendo em escala global na última década, enfrenta uma perigosa reversão caracterizada pelo ressurgimento de movimentos autoritários e nacionalistas. Este sentimento coletivo, presente na consciência nacional alemã a ponto de se tornar parte essencial de sua identidade pós-guerra, tem sido frequentemente instrumentalizado para justificar posicionamentos paradoxais como a defesa incondicional de um estado genocida como Israel, utilizando a memória do Holocausto como escudo moral contra qualquer forma de crítica ou questionamento. E é precisamente neste território complexo e moralmente ambíguo que Amrum, novo trabalho do diretor Fatih Akin, estabelece suas bases narrativas e temáticas.

Ambientado nos últimos dias da guerra em uma pequena ilha alemã, o longa não demora a ilustrar como aquela comunidade relativamente isolada busca manter um cotidiano de relativa normalidade apesar do conflito que domina a Europa e do governo monstruoso que mergulhou o continente no caos absoluto. Com a perspectiva da derrota alemã se tornando cada vez mais evidente, o roteiro escrito por Akin e Hark Bohm nos apresenta a Nanning (o estreante Jasper Billerbeck), um menino que vive com a mãe, dois irmãos pequenos e a tia enquanto o pai, oficial nazista de alta patente, se encontra presumivelmente no front. Esforçando-se para trazer alimentos e algum dinheiro para a família, ele se mostra particularmente preocupado com a mãe, que, prestes a dar à luz em circunstâncias tão adversas, encontra-se em profundo estado depressivo por ter consciência da derrota iminente e desesperada ao perceber que todos os seus alicerces (o marido, sua ideologia e a própria estrutura social que os sustentava) estão próximos do colapso total.

Parte deste colapso começa a alterar a realidade da comunidade à medida em que grupos de refugiados chegam à ilha – cidadãos alemães que fogem do avanço do exército soviético sobre Berlim e que, mesmo dividindo a nacionalidade com os habitantes locais, são tratados com o preconceito e a hostilidade normalmente reservados a estrangeiros nestas situações. Aliás, o próprio Nanning enfrenta algo parecido, já que, criado em Hamburgo, é visto como forasteiro pelas crianças locais – e o fato de ter participação ativa na Juventude Hitlerista não facilita sua vida, gerando tensão, por exemplo, com a personagem antinazista interpretada por Diane Kruger, dona de uma pequena fazenda que emprega o garoto a fim de ajudá-lo.

Mantendo-se próximo da perspectiva infantil que colore a compreensão de Nanning e de seu melhor amigo, Amrum evidencia como falta ao jovem protagonista capacidade cognitiva ou emocional para compreender as implicações históricas da guerra, as consequências de seu desfecho e o trauma coletivo resultante – e muito menos o reposicionamento geopolítico da Alemanha no cenário internacional. Percebendo intuitivamente que o fim do conflito traz alívio evidente para alguns membros da comunidade e desespero profundo para outros, as crianças conseguem apreender apenas a realidade do desastre econômico provocado pela guerra, o que inclui escassez de alimentos e deterioração da infraestrutura básica do país.

Com a mãe mergulhada em estado depressivo e se recusando a se alimentar, boa parte da narrativa de Amrum se concentra nos esforços do menino para conseguir os ingredientes básicos – farinha, ovos, leite, açúcar – para que o padeiro local prepare pão com mel e manteiga, iguaria favorita de sua mãe. Esta busca aparentemente trivial acaba funcionando como âncora estrutural eficaz, já que justifica dramaticamente o encontro do protagonista com vários personagens que, em maior ou menor grau, encarnam facetas específicas da situação e da mentalidade alemãs naquele momento. Filho dedicado e amoroso, Nanning não tem culpa por devotar seu amor a uma mãe nazista; se sob uma perspectiva moral adulta este sentimento e estes esforços poderiam ser considerados algo no mínimo desperdiçados, o fato é que para a criança a figura materna existe apenas numa dimensão afetiva primordial, sem filtros ideológicos ou julgamentos políticos que o menino ainda não tem capacidade de formular.

Infelizmente, as ambições temáticas do longa nem sempre encontram eco na tela, revelando uma insegurança preocupante diante da própria capacidade de abordar a discussão com a sutileza que sua complexidade histórica e moral exige e frequentemente transformando o subtexto em formulações explícitas que martelam cada ponto na cabeça do espectador. Um exemplo desta limitação pode ser visto em uma sequência de sonhos que, excessivamente didática, traz Nanning sendo confrontado por uma figura que o recrimina por sua herança familiar - e quando ele argumenta que a culpa pertence exclusivamente aos seus pais, recebe como resposta a afirmação de que está conectado a eles e que sua mera presença evoca a memória daqueles crimes.

Com isso, Amrum jamais transcende o óbvio, limitando-se a apontar a existência desta culpa coletiva sem oferecer perspectivas novas ou qualquer insight relevante sobre suas manifestações (e consequências) atuais.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025

16 de Maio de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
3.0
★★★☆☆

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