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Balada de um Jogador

★★☆☆☆2/5 estrelas
12 min

Dirigido por Edward Berger. Roteiro de Rowan Joffe. Com: Colin Farrell, Fala Chen, Tilda Swinton, Deanie Ip, Alex Jennings, Anthony Chau-Sang Wong.

Balada de um Jogador, novo trabalho do alemão Edward Berger (Conclave, Nada de Novo no Front), é um filme de excessos visuais e confusões temáticas: depois de estabelecer a estética e a lógica de um neon-noir ao combinar a seminal pulsão de apostador de Bob, o Jogador e as luzes de Macau, o cineasta passa a investir em uma narrativa de tons metafísicos com o objetivo de criar uma parábola sobre… o quê? A desumanidade do capitalismo? A beleza da tradição diante da ferocidade moderna? O colonialismo? Aqui e ali, o roteiro de Rowan Joffe parece flertar com todas estas ideias e abandoná-las assim que outra preocupação se apresenta – e como não li o livro original de Lawrence Osborne, não posso dizer se a diluição destas discussões se trata de um equívoco na adaptação ou se vem do material original.

O que eu pude antecipar desde o primeiro plano do longa é que logo ouviria uma narração em off, já que a apresentação do protagonista despertando em seu quarto de hotel praticamente gritava essa abordagem; por outro lado, o fato de a produção logo descartá-la é um descaso que me surpreendeu mesmo depois de ter constatado a falta de coesão geral da obra.

Encarnado por Colin Farrell com uma intensidade que quase leva o espectador a ignorar o caos criativo ao seu redor, Lorde Doyle é um jogador compulsivo que por razões aos poucos reveladas se encontra escondido em Macau – com resultados similares aos que observaríamos caso um alcoolista se hospedasse em uma fábrica de cachaça. A comparação, aliás, se mostra ainda mais apropriada quando notamos como, de modo similar a um adicto que esconde garrafas de bebida pela casa, Doyle mantém rolos de dinheiro espalhados pelo quarto e notas escondidas na meia. Tentando manter a persona de um apostador bem-sucedido que é desmontada assim que notamos a hesitação em seu olhar e o tremor de suas mãos, o sujeito representa o tipo de personagem pelo qual Farrell é atraído de forma recorrente: homens ansiosos e carregados de culpa que só não buscam alguma redenção por julgá-la impossível.

Com a tensão constante ressaltada pelas lentes grandes angulares utilizadas em planos fechados e pela insistência em registrar cada gota de suor e cada poro do rosto do protagonista, o diretor de fotografia James Friend cria uma paleta repleta de cores intensas que só se fragilizam quando em competição com as luzes fluorescentes que sugam sua vivacidade e projetam um tom doentio sobre Doyle e os ambientes que ocupa. Oscilando entre a melancolia romântica e a crueza realista apenas ao saltar da noite para o dia (como na cena em uma plataforma de madeira na qual Doyle adormece diante das estrelas e do mar e acorda cercado de lama), Balada de um Jogador oprime de modo constante seu anti-herói, seja ao enfocá-lo em planos plongée (ângulo alto) que o diminuem, seja ao empregar contra-plongées (ângulo baixo) que salientam a dimensão dos prédios que o cercam.

Enquanto isso, a direção de arte de Jonathan Houlding explora a contraposição entre o luxo dos cassinos e dos hotéis, com sua elegância decadente (ou cafonice que aspira a sofisticação), e a precariedade das regiões mais humildes, que trazem dúzias de apartamentos minúsculos amontoados em torno de um pátio claustrofóbico. Já a trilha de Volker Bertelmann investe no bombardeamento constante, dando uma paz à audição do espectador apenas quando o desenho de som opta por ruídos cujo simbolismo precisa ser martelado sem qualquer sutileza (reparem, por exemplo, os instantes nos quais o ranger da madeira dos casebres flutuantes toma conta da mixagem).

Infelizmente, toda a atenção conferida aos aspectos visuais da produção se mostra a serviço de uma narrativa que atira para todos os lados em busca de importância: aqui, um personagem secundário discute a “ferocidade da elite inglesa” e como esta é “imune à vergonha”; ali, outro aponta como a origem proletária deveria unir dois adversários; acolá, o velho orientalismo dá as caras através de um sujeito poderoso – vivido por Anthony Wong – que sugere a crença no misticismo tradicionalmente (leia-se: baseada no racismo) atribuída a asiáticos pelas produções europeias e norte-americanas. Ao mesmo tempo, Berger abandona qualquer traço de humanidade do protagonista ao forçá-lo a se comportar de forma cada vez mais extrema e caricatural, equiparando seu vício por jogos a qualquer outra pulsão que possa ser enquadrada como manifestação de ganância – e, assim, sempre que é impedido de apostar, Doyle se entrega à comilança desenfreada, com direito a efeitos sonoros e enquadramentos que o tornam animalesco.

Isto, claro, também abre espaço para imagens que flertam com o terror e o sobrenatural – aspectos introduzidos abruptamente no meio da projeção e que, usando outra convenção simplista (a da personagem feminina que existe apenas para ajudar o protagonista a alcançar alguma redenção), transforma a figura vivida por Fala Chen em um mero artifício de roteiro. Para piorar, o filme trata certo aspecto gritantemente óbvio da trama como se fosse um grande segredo, apostando a força de seu clímax em uma “revelação” (com direito a flashbacks expositivos) que só me espantou quando percebi que o protagonista ainda não havia percebido o que estava acontecendo.

Encerrando a narrativa com um daqueles gestos vazios que imploram para que os interpretemos como significativos quando são apenas absurdos (e mesmo ofensivos), Balada de um Jogador desperdiça o talento e o carisma de Farrell, estabelecendo-se apenas como uma sombra pálida de obras como O Jogador, Incrível Obsessão, Joias Brutas e, claro, o já mencionado Bob, o Jogador.

03 de Novembro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
2.0
★★☆☆☆

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