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Blue Moon

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Richard Linklater. Roteiro de Robert Kaplow. Com: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale, Andrew Scott, Giles Surridge, Simon Delaney, Patrick Kennedy.

Sob nenhuma métrica o cineasta Richard Linklater poderia ser considerado um fracasso – e, no entanto, por mais admirado que seja dentro da própria indústria cinematográfica, eu ainda o classificaria como um artista subestimado. Dono de uma versatilidade impressionante, ele transita com facilidade entre projetos grandes e pequenos, entre o cinema de gênero e obras que desafiam qualquer categorização, entre o industrial e o independente – e seu mais recente trabalho, Blue Moon, é um exemplo perfeito dessa habilidade. Narrado basicamente em tempo real, carregado de diálogos e ambientado em um único local, o filme poderia facilmente se tornar um exercício tedioso de autoindulgência, mas, graças à direção habilidosa de Linklater e às performances brilhantes de seu elenco, acaba se estabelecendo como uma obra que jamais deixa de fascinar e envolver o espectador.

Partindo do roteiro original de Robert Kaplow (e é importante observar que se trata de um original, já que a estrutura pode sugerir raízes no palco), o longa é centrado no letrista Lorenz Hart (Hawke), que, apesar de ter sido parceiro do celebrado Richard Rodgers por mais de 20 anos, acabou sendo ofuscado pela fama da dupla que este formou posteriormente com Oscar Hammerstein – e é justamente a noite de estreia de Oklahoma!, primeiro projeto de Rodgers & Hammerstein, que concentra a ação do filme. Feliz pelo amigo, mas machucado por sentir-se rumo ao esquecimento, Hart chega mais cedo ao lendário restaurante Sardi's, ponto de encontro da elite teatral de Nova York no qual acontecerá uma recepção para a equipe do musical – e ao longo da noite acompanharemos suas várias conversas com o bartender Eddie (Cannavale), com o escritor E.B. White (Kennedy) e com o próprio Rodgers (Scott), além, claro, da bela Elizabeth Weiland (Qualley), uma jovem pela qual está profundamente apaixonado.

Desafiando a convenção de que no Cinema o imperativo é mostrar em vez de contar (e comprovando que a Arte jamais deve se render a regras, o que a engessaria), Linklater constrói a narrativa quase inteiramente através de diálogos, jamais recorrendo a flashbacks ou outros artifícios: quando Hart conta uma história – e ele conta várias -, o cineasta mantém sua câmera presa ao personagem no presente, permitindo que sua retórica articulada, associada ao carisma de Ethan Hawke, mantenha o público atento a cada uma de suas palavras. Inteligente, divertido e culto, Hart é capaz de fazer referências que vão de Shakespeare a Casablanca, de tecer análises cuidadosas das letras e métricas de suas próprias composições e daquelas concebidas por outros, mas também de se entregar a anedotas vulgares e juvenis. Autodestrutivo e lutando contra o alcoolismo e a depressão, o sujeito permite que Hawke, um ator talentoso que aqui faz sua nona colaboração com Linklater, explore as mais diversas nuances de sua personalidade, criando o retrato de um homem cativante e hostil, confiante e inseguro, narcisista e carente em medidas iguais. Surgindo como uma metralhadora verbal, mas também capaz de sugerir o tumulto interior de Hart através de um simples olhar ou de uma pausa bem colocada, Hawke oferece em Blue Moon uma das melhores performances de sua já rica carreira.

Dito isso, é claro que o potencial de um intérprete é sempre maximizado pela competência do elenco que o cerca – e neste sentido Ethan Hawke é premiado com companheiros de cena impecáveis: Bobby Cannavale como o bartender, por exemplo, poderia facilmente ter se tornado apenas um avatar do espectador como receptor dos monólogos do protagonista, mas confere ao sujeito personalidade, presença de espírito e sensibilidade – como, por exemplo, ao reconhecer que Hart precisa de uma bebida mesmo tendo sido instruído a não lhe servir álcool. Do mesmo modo, seria fácil para Andrew Scott retratar Richard Rodgers como um antagonista, como alguém cujo sucesso representa a decadência do ex-parceiro; em vez disso, Scott jamais deixa de evocar o carinho e o respeito que Rodgers sente por Hart por mais exausto que esteja diante de sua instabilidade e do longo período em que teve que lidar com os constantes problemas do outro enquanto compunham. Para completar, Margaret Qualley evita que Elizabeth surja como mero interesse romântico, como uma beldade inalcançável: sim, o espectador reconhece (muito melhor e mais rapidamente que Hart) a impossibilidade de qualquer envolvimento entre os dois, mas a atriz jamais permite que a garota soe como uma pessoa fria ou interesseira que identifica a carência de um homem vulnerável e a explora para benefícios próprios; há ternura em suas interações com o letrista.

Porém, além de conduzir bem seus atores (e este sempre foi um dos pontos fortes do cineasta), Linklater confere dinamismo a uma narrativa que poderia facilmente soar estática ou teatral na tela: além da câmera fluida, que se move pelo ambiente de forma orgânica (e que também sabe quando deve se manter parada e se concentrar nas performances), a abordagem do diretor inclui um controle preciso do tempo na diegese – leia-se: no universo do filme -, mantendo a impressão de que tudo transcorre em tempo real enquanto, na prática, acelera os acontecimentos para que uma noite de celebração possa ser encenada em apenas 100 minutos de projeção. Assim, aos poucos percebemos como o restaurante vai se enchendo e ficando vazio e, não menos importante, como a energia dos personagens se altera ao longo da noite.

Ainda que se apresentando como estudo de personagem, Blue Moon sabe estar lidando com um universo habitado por indivíduos que têm a criatividade como ganha-pão (além dos profissionais da Broadway, há o escritor E.B. White, autor de A Menina e o Porquinho e cujo O Pequeno Stuart Little ganha uma referência divertida durante a narrativa); assim, é natural que inclua discussões sobre a natureza da Arte e sobre como tentar conceber algo inofensivo é um contrassenso para aqueles que usam a imaginação para se expressar. Sim, a inocuidade é financeiramente rentável ao atender aos menores denominadores comuns – se ninguém se ofende, todos se tornam “consumidores” em potencial (e se uso o termo “consumidor”, é porque sob esta abordagem a obra já se tornou um simples produto – ou, no vocabulário atual, “conteúdo”).

Contudo, “desafiar” não implica necessariamente em agressividade, o que é um equívoco comum entre certos artistas; Blue Moon, por exemplo, não abandona suas ambições temáticas e estéticas, mas tampouco sente a necessidade de ser “controverso” ou “polêmico” (rótulos que criadores inseguros de seu valor amam abraçar). Ao retratar um homem complexo, um artista disposto a olhar para si mesmo e para o mundo através de lentes críticas, o filme já inspira, pelo exemplo, uma postura menos passiva e mais questionadora por parte do espectador. Muitas vezes, isto já é mais do que o suficiente.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

18 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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