Dois Procuradores
Dirigido e roteirizado por Sergey Loznitsa. Com: Alexander Kuznetsov, Anatoliy Beliy, Aleksandr Filippenko, Vytautas Kaniusonis.
Ao longo das duas últimas décadas, o cineasta ucraniano Sergey Loznitsa demonstrou diversas vezes sua notável versatilidade ao se mostrar tão eficiente na ficção (Uma Criatura Gentil, Donbass) quanto no documentário (Funeral de Estado, A História Natural da Destruição) – e agora ele retorna à mostra competitiva de Cannes com Dois Procuradores, obra ambientada na União Soviética de 1937, durante o auge do expurgo stalinista – período em que Stalin eliminava sistematicamente do governo e do partido qualquer um que encarasse como crítico ou possível adversário.
Adaptado do livro de Georgy Demidov pelo próprio diretor, o longa tem início em uma das inúmeras prisões que abrigavam os supostos inimigos do líder soviético e para as quais estes desafortunados eram basicamente enviados para morrer graças à rotina de trabalhos forçados sob condições de frio e fome. Por circunstâncias envolvendo coragem e sorte, porém, um desses prisioneiros, um veterano do Partido e combatente da Revolução de 1917, consegue enviar uma carta a um promotor local, Kornyev (Kuznetsov), que decide visitá-lo para ouvir seu depoimento. Leal ao Estado e aos princípios da revolução, o sujeito se choca ao constatar as ações da NKVD (a polícia secreta soviética), que conclui terem sido realizadas sem o conhecimento de Stalin – o que o leva a uma jornada (física, emocional e ideológica) para apurar e denunciar os abusos.
Com uma estrutura interessante que sugere circularidade ao trazer o protagonista em duas longas viagens de trem em sentidos opostos, Dois Procuradores se passa em um universo no qual o tempo parece caminhar com mais lentidão, quase a contragosto – algo salientado pela abordagem de Loznitsa ao conceber quadros normalmente mais abertos em planos estáticos e longos que nos obrigam a observar cada detalhe do ambiente. Em contrapartida, ao adotar composições mais fechadas no ato final, o diretor cria uma tensão subjacente às conversas que testemunhamos, como se o mundo estivesse encolhendo ao redor de Kornyev. De modo similar, a sequência que traz o promotor visitando o prisioneiro e passando por múltiplas barreiras de segurança remete a uma descida ao inferno, contrastando também o exagero de todo aquele aparato de vigilância à fragilidade do detento – um idoso debilitado, incapaz de manter-se em pé sem auxílio –, evidenciando o absurdo de um sistema alimentado pela paranoia.
Carregando o filme através de uma performance cujo minimalismo só acentua sua intensidade, Kuznetsov possui um rosto especialmente marcante que, caracterizado por um nariz visivelmente quebrado (resultado de lutas de boxe), confere ao personagem o ar de alguém que já viveu e testemunhou muitas coisas. Ainda assim, ao escutar o testemunho de Stepniak (Filippenko), o ator evoca a desilusão crescente de Kornyev apenas através do olhar, fazendo jus à confiança de Loznitsa, que mantém a câmera fixa em seu rosto em longos planos. Paradoxalmente, mesmo diante de tudo que escuta, Kornyev persiste em sua ilusão acerca de Stalin – uma cegueira que reflete a dos próprios prisioneiros que, vítimas do expurgo, ainda enviam cartas suplicando a clemência do líder, que julgam não estar a par de todas aquelas injustiças. E é esta incapacidade de reconhecer como a violência, a traição e a degradação dos ideais revolucionários têm origem precisamente no topo da hierarquia que constitui a tragédia central dessas figuras.
Estabelecendo paralelos evidentes com "O Processo" de Kafka ao retratar a burocracia estatal como um labirinto de lógica impenetrável no qual as origens da injustiça permanecem obscuras e os caminhos para sua superação são inacessíveis, Loznitsa emprega recursos visuais curiosos para ilustrar esta realidade: em certo momento, por exemplo, quando o protagonista visita o edifício do procurador-geral, um simples incidente – papéis derrubados numa escada – provoca a paralisação automática de todos os presentes, simbolizando uma sociedade robotizada na qual as pessoas deixam ser indivíduos e se comportam como máquinas. Aliás, nesta mesma passagem, o promotor encontra um homem imobilizado pelo medo e sussurrando pedidos de auxílio para encontrar a saída, sintetizando assim o clima de terror generalizado que, por contraste, ressalta a coragem do protagonista ao persistir em sua busca.
Contando com uma autenticidade que transcende a ficção, já que Demidov, autor do livro original, passou de fato 14 anos em um gulag, Dois Procuradores comprova a insistência da espécie humana em cometer os mesmos erros ao soar tristemente contemporâneo, sendo impossível ignorar, por exemplo, os paralelos com a administração de Trump nos Estados Unidos e sua perseguição sistemática a funcionários governamentais e a instituições (além de cidadãos comuns) que ousam questionar suas políticas. Do mesmo modo, incidentes recentes na trajetória do próprio diretor fortalecem esta constatação, já que, ao se opor à decisão de vários festivais internacionais de banir cineastas russos depois da invasão da Ucrânia pela Rússia, Loznitsa acabou expulso da Academia de Cinema Ucraniana, demonstrando como o impulso autoritário para calar o dissenso segue vivo e presente.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
15 de Maio de 2025
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