Dirigido e roteirizado por Ari Aster. Com: Joaquin Phoenix, Pedro Pascal, Emma Stone, Deirdre O´Connell, Micheal Ward, Cameron Mann, Luke Grimes, Clifton Collins Jr., Austin Butler.
Boa parte dos personagens de Eddington, novo trabalho do diretor Ari Aster, compartilha uma característica fundamental: ao expressarem suas supostas convicções políticas, eles acabam por misturar argumentos de forma caótica, perdem o foco das discussões e constroem raciocínios sem coerência lógica ou base factual. Curiosamente, alguns destes traços podem ser atribuídos à própria construção narrativa do filme.
Apresentando-se como uma obra ancorada em nosso momento histórico por capturar a confusão ideológica e a natureza dispersa das discussões que dominam por alguns segundos a atenção coletiva - qualidades que definem cada vez mais o debate público contemporâneo, especialmente nas plataformas digitais –, o filme conta uma história ambientada em maio de 2020, período significativo por permitir que a narrativa inclua tanto a pandemia de Covid-19 e as medidas de lockdown quanto o assassinato de George Floyd pela polícia e a intensificação do movimento Black Lives Matter. É neste contexto que somos levados a uma pequena cidade americana que vem debatendo a aprovação da construção de um grande centro de dados, possivelmente destinado ao desenvolvimento de inteligência artificial – uma iniciativa defendida pelo prefeito Ted Garcia (Pascal), que aposta nos supostos benefícios econômicos do projeto enquanto enfrenta oposição de grupos ambientalistas que alertam para suas possíveis consequências ecológicas negativas.
Paralelamente a este conflito central, a própria imposição do lockdown e a obrigatoriedade do uso de máscaras geram resistência em certos segmentos da população - incluindo o xerife da comunidade, Joe Cross (Phoenix), que também nutre ressentimentos pessoais com relação ao prefeito em função de um antigo incidente envolvendo sua esposa Louise (Stone). Cada vez mais raivoso, Joe anuncia impulsivamente que irá se candidatar à prefeitura para disputar o cargo com seu atual ocupante, o que apenas aumenta as tensões com sua esposa, que teme a atenção que isto despertará sobre sua saúde mental. Como se não bastasse, este clima negativo é acentuado pela presença constante da mãe de Louise, Dawn (O´Connell), obcecada por teorias conspiratórias e pelo impulso de criticar o genro.
Vivido por Joaquin Phoenix com sua habitual intensidade, Joe é uma figura de temperamento complexo – não totalmente passivo diante do mundo, mas sempre hesitante em se entregar a confrontações verbais diretas (particularmente com a esposa emocionalmente distante). Isto, claro, o leva a experimentar uma frustração crescente que acaba por se extravasar das piores maneiras possíveis, permitindo que o ator equilibre a situação dramática do personagem com toques de humor que evidenciam um timing cômico impecável – como no momento em que toma impulsivamente o celular de um manifestante e imediatamente percebe ter cometido um erro. Além disso, a falta de educação formal do sujeito (ilustrada por detalhes como um adesivo de campanha no qual a expressão "you are" aparece incorretamente grafada como "your") compromete ainda mais sua capacidade de articulação, deixando-o em imensa desvantagem diante do prefeito.
O que nos traz a Pedro Pascal, que compõe Ted como um político calculista cujo carisma natural se torna ainda mais evidente diante da personalidade apagada de seu rival. Apresentando-se como um progressista, ele não demora a revelar facetas demagógicas e oportunistas: se por um lado defende a Ciência ao apontar a importância do lockdown e do uso de máscaras, por outro demonstra facilidade em ignorar os alertas científicos sobre o terrível impacto ecológico que o tal centro de dados provocará na região. Neste sentido, o roteiro escrito pelo próprio Aster merece créditos por evitar simplificações, recusando-se a estabelecer representações unidimensionais do espectro político norte-americano contemporâneo (principalmente considerando as limitações estruturais deste espectro, onde o progressismo mainstream representado pelo partido Democrata se coloca muito distante de posições genuinamente esquerdistas). Com isso, o contraste entre os dois personagens centrais se manifesta principalmente em seus estilos opostos de confrontação política, com Phoenix encarnando uma impulsividade emocional autodestrutiva enquanto Pascal representa a racionalidade calculista e a eficácia política, constantemente desorientando seu oponente menos articulado e estrategicamente despreparado. (Já as participações de Austin Butler e Emma Stone se revelam surpreendentemente limitadas pelo roteiro, o que é uma decepção.)
Ilustrando a onipresença das redes sociais como plataformas de expressão política e construção identitária na atualidade, Eddington retrata, por exemplo, as consequências potencialmente irreversíveis de transmissões ao vivo impulsivas e de posts escritos no calor do momento, mas não ignora também a importância destas redes para promover mobilizações que em teoria podem resultar em mudanças políticas socialmente importantes. Por outro lado, o filme oferece uma reflexão relevante sobre as formas contemporâneas de ativismo político, que, principalmente nos meios digitais, surgem frequentemente desconectadas de qualquer formação ideológica – o que inclui o fenômeno crescente do ativismo essencialmente performático aqui exemplificado por jovens brancos privilegiados que se engajam superficialmente em causas sociais apenas para impressionar potenciais parceiras sexuais. Para completar, o roteiro aborda a ansiedade autocrítica paralisante de ativistas socialmente afortunados que constantemente questionam seu próprio direito de participação política – elemento que se transforma em piada recorrente ao trazer personagens protestando publicamente enquanto criticam sua própria legitimidade para protestar – algo que o longa sugere ser fruto não necessariamente de uma consciência sobre lugar de fala, mas de uma mera sinalização de virtude.
Toda esta dinâmica vista em Eddington acaba por ilustrar a confusão de conceitos que caracteriza gerações formadas politicamente no ambiente fragmentado e algoritmicamente manipulado das redes sociais, sem fundamentação histórica consistente ou formação teórica substantiva – resultando em um ativismo superficial e esteticamente orientado, o que aqui é simbolizado no momento em que o protagonista prepara tripé e iluminação antes de fazer um discurso político importante. Ao mesmo tempo, o filme examina como as plataformas digitais facilitam a propagação viral de desinformação e teorias conspiratórias; personagens ideologicamente conservadores reproduzem narrativas sobre Bill Gates e controle populacional, vacinas que supostamente contêm microchips de vigilância, negacionismo pandêmico, teorias sobre "Deep State" e a obsessão costumeira envolvendo George Soros, ao passo que oportunistas exploram estas crenças irracionais para ganho político imediato e enriquecimento financeiro pessoal.
Quanto a estes últimos, um bom exemplo é representado pelo personagem de Butler, um impostor que constrói uma biografia repleta de ficção para se posicionar como guru espiritual e atrair seguidores emocionalmente vulneráveis – o tipo de picareta tão comum no empreendedorismo motivacional digital que prolifera nas redes. De maneira similar, o longa reflete como políticos populistas conservadores instrumentalizam discursos de medo e paranoia social, cultivando a desconfiança generalizada para se apresentarem como salvadores da nação – processo que resulta na ascensão de figuras como aquelas que nem preciso mencionar.
É uma pena, portanto, que depois de construir discussões instigantes e personagens complexos, Eddington desmorone em seu ato final – um colapso que talvez resulte da dificuldade em encontrar respostas satisfatórias para questões sociais que hoje soam quase insolúveis. Falhando em priorizar a coerência dos personagens, o roteiro parece optar pelo caos e pela violência não como catarse tematicamente significativa ou como um comentário sobre tendências historicamente inevitáveis, mas como puro espetáculo e mesmo como exercício de gênero - decisões que comprometem consideravelmente a obra.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
17 de Maio de 2025
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