Uma Batalha Após a Outra
Dirigido e roteirizado por Paul Thomas Anderson. Com: Leonardo DiCaprio, Chase Infiniti, Teyana Taylor, Regina Hall, Sean Penn, Benicio Del Toro, Eric Schweig, Alana Haim, Wood Harris, Shayna McHayle, Tony Goldwyn, James Downey, John Hoogenakker, James Raterman, Dan Chariton, April Grace, Kevin Tighe.
Nasci em 1974, ainda durante a ditadura militar que torturou duas de minhas tias e matou vários de seus companheiros de luta – e, nos 51 anos que vivi desde então, constatei de perto como os esforços por avanços sociais e políticos exigem dedicação constante e como cada vitória deve vir cercada de precauções para não ser derrubada através de manobras reacionárias que invariavelmente têm o interesse dos poderosos como única motivação. Aliás, a História da humanidade é, em essência, um combate contínuo para impedir que as classes dominantes – sejam estas econômicas, religiosas ou políticas – atirem pessoas aos leões, queimem mulheres sob acusação de bruxaria, mantenham grupos inteiros escravizados, pratiquem genocídios sob todo tipo de justificativa (incluindo “pureza racial” e “desígnios divinos”), derrubem democracias, aprisionem/executem líderes populares, persigam minorias, neguem verdades científicas indiscutíveis e destruam o planeta.
Inquisidores, cruzados, colonialistas, confederados, monarquistas, supremacistas, fascistas, nazistas, franquistas, camisas-negras, stalinistas, integralistas, vichystas, militaristas, apartheiders, pinochetistas, khmers, talibãs, macarthistas, salazaristas, trumpistas, sionistas, bolsonaristas – os nomes variam, mas a filosofia pouco muda: a dissidência deve ser destruída; direitos civis, cancelados; avanços sociais, negados; interesses econômicos das elites, preservados. Pensar no bem comum é ser condenado a viver numa realidade que frequentemente soa distópica e absurda, não sendo surpresa que tantos optem pela alienação absoluta para preservar a sanidade.
Felizmente há também os que insistem na boa luta – como os jovens que, no início de Uma Batalha Após a Outra, se preparam para invadir um centro de detenção de imigrantes a fim de libertá-los das garras militares supervisionadas pelo racista coronel Steven J. Lockjaw (Penn). Liderados pela valente e desafiadora Perfidia Beverly Hills (Taylor), os integrantes do grupo French 75 não combatem apenas a xenofobia, mas o conservadorismo e o sistema em si; sua causa é a própria revolução em suas diversas facetas, abrangendo ações que incluem explosões de bancos e dos QGs de políticos antiaborto – e se o cuidado constante para evitar mortes sugere um humanismo admirável, mas ingênuo, não demora muito até que a inevitável fatalidade seja empregada como desculpa para que o Estado aja com a brutalidade costumeira, comprovando como uma luta na qual apenas um dos lados detém poderio militar (associado ao total descaso para com a vida alheia) jamais será justa. Como se não bastasse, há a triste realidade de como momentos de repressão tendem a separar os idealistas dos pragmáticos – uma distinção que geralmente é sintetizada pela lealdade dos primeiros aos princípios e aos companheiros, enquanto os segundos tendem a enxergar a própria sobrevivência como prioridade.
E tudo isso apenas no primeiro ato do roteiro escrito por Paul Thomas Anderson em uma adaptação (bastante) livre da obra “Vineland”, de Thomas Pynchon (autor que o cineasta já havia explorado em seu excelente Vício Inerente); a partir daí, o filme dá um salto de 16 anos no tempo para reencontrar o companheiro de Perfidia (e ex-especialista em explosivos) Bob Ferguson (DiCaprio), que, afastado da luta, agora se preocupa apenas em manter a filha Willa (Infiniti) em segurança. Infelizmente, por razões que permitirei que o longa revele, é então que Lockjaw decide caçá-los enquanto tenta ser aceito por um grupo de nacionalistas/supremacistas cristãos, empregando para isso todo o aparato militar à sua disposição.
Adotando a mesma estratégia de obras satíricas como Doutor Fantástico ao batizar seus personagens (se Kubrick empregou sobrenomes como Turgidson, Strangelove e de Sadesky, Anderson investe em Perfidia, Lockjaw, São Carlos e Junglepussy), Uma Batalha Após a Outra só não consegue ressaltar pelo exagero o absurdo da realidade contemporânea porque desde que o realizador finalizou as filmagens o governo Trump se encarregou de ir além da irracionalidade – o que talvez dificulte um pouco a eficácia do humor do longa, já que é difícil rir de dores reais, mas certamente expande sua relevância e o acerto de suas observações (afinal, se os membros do fictício Clube de Aventureiros Natalinos ao menos buscam se manter nas sombras – ou no subterrâneo -, o fato é que em 2025 supremacistas já não exibem qualquer embaraço em defender nazistas em público).
Não que Anderson e seu brilhante elenco falhem em sua busca por leveza cômica: DiCaprio, por exemplo, que já havia demonstrado sua habilidade para gags físicas em O Lobo de Wall Street, aqui cria sua própria versão do The Dude de Jeff Bridges ao compor a versão mais velha de Bob como um sujeito que passou quase duas décadas fritando o cérebro com álcool e outros entorpecentes como forma de alcançar não a alienação absoluta que mencionei antes como mecanismo de fuga, mas ao menos um anestésico para suavizar a ansiedade trazida pelas lembranças do passado e as frustrações do presente (e o fato de passar boa parte da projeção usando um roupão apenas acentua a comparação com o protagonista de O Grande Lebowski, sendo também divertido ouvi-lo grunhir de cansaço ao tentar acompanhar a energia dos jovens que o guiam em uma fuga). De forma similar, o sensei interpretado por Benicio Del Toro diverte pela calma com que lida com as situações mais estressantes, ao passo que a intensidade de Teyana Taylor como Perfidia é instrumental para que compreendamos por que a possibilidade de ver-se subitamente enjaulada por um papel mais “convencional” – somada possivelmente à depressão pós-parto – poderia se tornar algo tão impensável.
E se a estreante Chase Infiniti (ao batizá-la com este nome, seus pais praticamente profetizaram sua participação neste longa) demonstra possuir carisma, talento e vigor de sobra para dividir a tela com tantos veteranos, Sean Penn comprova pela enésima vez ser um dos atores mais versáteis de sua geração ao construir Lockjaw como um sujeito cuja rigidez física (cof-cof) é sintoma de uma personalidade composta por combinações sempre perigosas: insegurança e ambição, ignorância e arrogância, ressentimento e posição de poder. Exibindo uma série de tiques faciais que denunciam seu tormento constante em vez de transformá-lo em caricatura, Lockjaw é um indivíduo cuja intolerância – como é tão comum – esconde curiosidade e atração pelo alvo de seu desprezo (sua resposta diante do questionamento sobre o tamanho de sua camisa é didática); ao mesmo tempo, seu desejo de pertencimento e o sentimento de que o mundo lhe deve mais do que alcançou o tornam um instrumento perfeito para os objetivos de pessoas bem mais inteligentes que sabem o valor de empregar um intermediário que os afaste da sujeira de suas intenções.
Mantendo a narrativa sempre em movimento e criando uma atmosfera de tensão que a trilha enlouquecedora de Jonny Greenwood eleva a níveis quase insuportáveis, Uma Batalha Após a Outra é impecável tanto em suas proezas técnicas mais sutis (o rejuvenescimento digital de DiCaprio no primeiro ato é um dos melhores até hoje) quanto em sua grandeza visual na sequência em uma rodovia que amarra a projeção e que, convertendo a estrada em uma montanha-russa (ou em um mar agitado por ondas gigantescas, o que estabelece uma rima elegante com uma fala dita pelo personagem de Del Toro), usa o mormaço como filtro e ressalta cada grão cinza do asfalto, transformando-a em uma das perseguições de carro mais esteticamente prazerosas que já vi.
Neste sentido, outra virtude deste novo trabalho de Anderson reside em sua capacidade de criar espetáculo e flertar com exercícios pontuais de gênero sem jamais sacrificar a coerência de seus personagens ou abandonar suas discussões políticas – equívocos que infelizmente Ari Aster cometeu em seu Eddington também em 2025. É revelador, por exemplo, como os mesmos supremacistas que tanto afirmam a inferioridade dos não-brancos logo percebem os problemas que terão com a ausência dos imigrantes em seus postos de trabalho – e é igualmente acertado como o cineasta inclui o detalhe de como as forças policiais infiltram uma manifestação popular para forjar um ataque com coquetel molotv para que assim possam reprimir com violência um protesto legítimo. Por outro lado, Anderson não deixa de fazer graça com o apego de grupos progressistas a ritos e processos que servem mais como obstáculo do que como modelo de organização – e ao longo das décadas perdi a conta de quantas vezes vi “questões de ordem” arruinando reuniões que chegavam ao fim sem resultados relevantes por se perderem em debates irrelevantes.
Já a admiração do filme pela iniciativa revolucionária de vários de seus personagens é inequívoca, mesmo que seja impossível deixar de observar como a paixão e o empenho daquelas pessoas raramente trazem mudanças sistêmicas – e é curioso perceber como, em última análise, as ações do protagonista não parecem fazer muita diferença, já que basicamente tudo terminaria do mesmo modo caso ele permanecesse à margem dos acontecimentos (e não creio que isto seja uma falha do roteiro, mas um comentário intencional). Ainda assim, qualquer atitude é melhor do que o ativismo de sofá ou aquele performativo que se interessa mais pela mera sinalização de virtude do que pelas causas supostamente defendidas; posts em redes sociais podem ter sua função, mas jamais serão substitutos de ações concretas como ir para a rua ou quebrar algumas vidraças de bancos. (Não, espancamento/assassinato de manifestantes não é minimamente equivalente a atos de vandalismo contra instituições financeiras: prédios podem ser repintados e vitrines podem ser reinstaladas.)
Dito isso, há muitas formas de combate: insistir em currículos escolares que reconheçam injustiças históricas e estimulem o pensamento crítico é algo tão importante quanto votar com consciência ou participar de manifestações contra projetos de lei absurdos – e quando Bob questiona se os professores da filha apontam como vários dos autores da Declaração de Independência eram donos de escravos ou como Roosevelt elogiou o massacre de filipinos pelo exército norte-americano, sua atitude demonstra como, de um modo ou de outro, seu posicionamento político segue coerente mesmo que suas prioridades agora sejam outras. Para completar, Anderson em vários instantes reforça outro aspecto fundamental do ativismo: a lealdade aos companheiros de luta – mesmo que estes invistam em focos progressistas distintos.
Apontando também como no fim das contas a solidariedade de classe deve se sobrepor a outros interesses, Uma Batalha Após a Outra não é um filme otimista: como o próprio título indica, lutar pelo bem comum, pela evolução da sociedade e contra as desigualdades é algo que pode fazer Sísifo parecer afortunado – e não é à toa que “a luta continua” deixou de ser apenas um mote da guerra pela independência de Moçambique e se tornou lema de toda a esquerda mundial.
Ou talvez eu esteja sendo injusto, já que a essência da narrativa concebida por Anderson reside na maneira como a continuidade do espirito de luta entre gerações é um legado digno de admiração. Se aplaudo a coragem da geração que me precedeu no embate pelo retorno da democracia ao nosso país, também vejo com orgulho o empenho de meus filhos por direitos LGBTQIA+ e de outras minorias políticas e também em defesa de povos vitimados pela brutalidade de estado (como palestinos e, sejamos honestos, os moradores de qualquer comunidade economicamente vulnerável nas grandes cidades brasileiras).
Sim, a consciência política cobra um preço alto à saúde mental de qualquer um, mas há algo de muito belo e inspirador na constatação de que a perpetuação do espírito revolucionário, da inquietude, do inconformismo diante de injustiças, do desejo de mudanças, da empatia e da solidariedade representa um dos melhores legados que podemos deixar em nossa brevíssima passagem pelo mundo.
As batalhas seguem vivas porque merecem ser empreendidas.
25 de Setembro de 2025
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