Dirigido e roteirizado por Hafsia Herzi. Com: Nadia Melliti, Park Ji-Min, Amina Ben Mohamed, Rita Benmannana, Melissa Guers, Razzak Ridha, Louis Memmi, Anouar Kardellas, Waniss Chaouki, Madi Dembele, Mahamadou Sacko, Ahmed Kheloufi, Pascal Chanez, Sophie Garagnon, Némo Schiffman.
Há um eco temático curioso entre A Irmãzinha, exibido na mostra competitiva de Cannes deste ano, e Dreams, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim: ambos giram em torno de jovens mulheres que, prestes a entrar na fase adulta, descobrem não apenas o primeiro amor, mas a própria homossexualidade. A diferença é que naquela produção norueguesa a orientação sexual da protagonista não constituía um problema significativo ou fonte de conflito narrativo, já que sua família progressista não representava um obstáculo moral ou social, ao passo que neste longa francês o dilema da personagem se torna claro desde o primeiro segundo de projeção quando a vemos realizando as abluções que a identificam como muçulmana preocupada com os ritos e os dogmas de sua religião.
Interpretada pela estreante Nadia Melliti, Fatima tem um namorado pelo qual demonstra absoluta falta de entusiasmo emocional ou atração física (e as falas machistas do sujeito não colaboram), mantendo o relacionamento escondido da família por razões que inicialmente parecem relacionadas às expectativas culturais, mas que logo se revela como uma experimentação consciente, uma tentativa deliberada de avaliar sua capacidade de se conformar às expectativas sociais que pesam sobre ela. Esta racionalidade, contudo, não diminui seu sofrimento – e quando a vemos chorando sozinha por se saber lésbica, as lágrimas não vêm de uma homofobia internalizada, mas da certeza de que terá que lidar com as pesadas consequências que o reconhecimento público desta identidade trará em seu contexto específico.
Adaptado pela diretora Hafsia Herzi a partir do livro de Fatima Daas, o roteiro investe em uma estrutura ancorada nas estações do ano, que aqui funcionam mais como marcadores simbólicos de estados emocionais do que como indicadores cronológicos literais, já que a narrativa possivelmente se estende por dois ou três anos. Durante este período, a protagonista acaba por demonstrar um pragmatismo curioso ao lidar com sua jornada de autodescoberta, utilizando um aplicativo de relacionamentos para conhecer outras mulheres não necessariamente com o objetivo de buscar sexo, mas de poder conversar com pessoas mais experientes que talvez possam trazer alguma luz sobre o que esperar do mundo e como lidar com as possíveis condenações de familiares e amigos. Vivenciando suas primeiras experiências sexuais e o inevitável envolvimento emocional que estabelece com a enfermeira Ji-Na (Park Ji-min), Fatima passa por um processo de libertação emocional e psicológica que se torna mais evidente nos momentos em que, longe da família, pode ser autêntica, sem se render à necessidade de esconder aspectos fundamentais de sua identidade – e o fato de não poder abraçar esta identidade no ambiente familiar é algo que se torna cada vez mais doloroso.
Não que sua família seja particularmente conservadora, já que Herzi retrata a mãe e as irmãs da protagonista como figuras calorosas e afetuosas (mesmo seu pai, embora sempre na periferia da narrativa, é visto com simpatia); sua mãe, em especial, demonstra imenso orgulho das três filhas, celebrando as conquistas acadêmicas que, não é difícil concluir, facilitarão uma maior independência. E a questão, portanto, é: esta mãe amorosa aceitaria a verdadeira identidade da filha ou o peso das tradições religiosas e culturais prevaleceria sobre os laços familiares?
Um sinal negativo, por exemplo, vem de uma conversa que Fatima tem com o Imã da mesquita local, quando, buscando encontrar uma forma de reconciliar sua identidade sexual com suas crenças religiosas, procura aconselhamento espiritual e ouve apenas bobagens carregadas de preconceito e ignorância que servem apenas para intensificar seu sofrimento e torná-la ainda mais insegura com relação à possível reação de sua família. E este é, em essência, o drama central da narrativa (e da vida de tantas pessoas em situação similar): a tentativa por vezes impossível de trazer harmonia entre uma fé religiosa sincera e a identidade sexual que representantes desta mesma fé insistem em condenar. Um dos resultados deste embate desnecessário é a solidão: quando sofre uma desilusão amorosa, por exemplo, Fatima não se sente livre para recorrer às suas confidentes habituais (a mãe e as irmãs), o que apenas intensifica seu isolamento e sua dor.
Ancorado na performance complexa e sutil de Nadia Melliti, A Irmãzinha impressiona pela transformação gradual da protagonista; comparar quem ela é no início e no fim da narrativa é testemunhar duas versões quase irreconhecíveis da mesma pessoa – não por inconsistência de caracterização, mas pela sensível representação de cada etapa de sua evolução pessoal.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
17 de Maio de 2025
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