Dirigido e roteirizado por Radu Jude. Com: Eszter Tompa, Gabriel Spahiu, Adonis Tanța, Oana Mardare, Șerban Pavlu, Annamária Biluska, Ilinca Manolache.
É inegável que a seleção competitiva da Berlinale deste ano exibe uma relativa escassez daquilo que poderíamos identificar como "nomes de grife" (aqueles cineastas já estabelecidos e cujas obras são vistas como chamariz na programação dos grandes festivais), sendo uma das poucas exceções em 2025 o romeno Radu Jude, responsável por obras como Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental e o ótimo Aferim!. Conhecido por seu senso de humor atípico que surge nos momentos mais inesperados, o cineasta frequentemente emprega a graça como ferramenta para dissecar o comportamento humano, expor feridas sociais e analisar as mais diversas dinâmicas de poder que atravessam a sociedade contemporânea – algo que, de uma forma ou de outra, é tema recorrente em sua filmografia e que ele volta a abordar em Kontinental ´25.
Escrito pelo próprio diretor, o roteiro tem início acompanhando um catador de latas - um homem solitário e marginalizado cuja saúde mental está claramente debilitada e que, falando sozinho e praguejando contra um mundo que o abandonou, é seguido pela câmera de Jude enquanto coleta objetos, pede dinheiro e caminha por diversos espaços. E é então que o humor peculiar do realizador começa a se manifestar: subitamente, em primeiro plano, surge um dinossauro animatrônico rugindo que revela como naquele instante o personagem busca latas em um parque temático – e esta contraposição abrupta serve como comentário potente sobre o absurdo da condição humana contemporânea: como podem coexistir, lado a lado, a necessidade de catar lixo para sobreviver e a frivolidade de parques temáticos frequentados por multidões para ver réplicas malfeitas de dinossauros?
Rodado inteiramente em um iPhone e exibindo como consequência uma qualidade particular de imagem digital (uma estética mais "lavada", com cores pálidas, que foi propositalmente mantida mesmo após o processo de pós-produção), o longa emprega esta característica para ressaltar a natureza cotidiana do que retrata ao despertar um sentimento de familiaridade no espectador, tão habituado a registrar (e consumir) imagens capturadas por telefones celulares. Ao mesmo tempo, ao filmar à distância, aparentemente de forma clandestina nas ruas, Jude capta a invisibilidade do personagem à medida que todos que cruzam seu caminho desviam o olhar, salientando assim a brutalidade e a desesperança de sua condição.
Contudo, já no primeiro ato o filme deixa claro que o catador de latas é apenas o ponto de partida de seu foco principal, já que, prestes a ser despejado pela oficial de justiça Orsolya (Tompa) - a verdadeira protagonista da obra –, o sujeito pede alguns minutos para recolher seus pertences e, enquanto os policiais aguardam do lado de fora, comete suicídio ao se enfocar com um fio de arame. E é claro que aqui novamente o senso de humor macabro de Jude retorna enquanto os oficiais tentam prestar os primeiros socorros em uma cena reminiscente de um episódio particular de The Office que os fãs da série reconhecerão imediatamente.
Surpreendente também ao utilizar referências culturais inesperadas como a menção do nome de Hirayama, protagonista do lindíssimo Dias Perfeitos, para descrever o homem morto (o que comprova a força do filme de Wim Wenders ao já ter seu protagonista transformado em código para um tipo específico de personagem apenas um ano desde seu lançamento), Kontinental ´25 segue um padrão narrativo comum na obra de Jude e no chamado Novo Cinema Romeno ao se desenvolver através de longos planos estáticos que registram conversas triviais entre os personagens. Esta abordagem, claro, permite que o espectador observe o comportamento de cada indivíduo no quadro - mesmo aqueles em silêncio - e extraia significado das interações mais banais, que acabam por revelar muito sobre suas personalidades e visões de mundo. A protagonista, por exemplo, que expressa culpa pelo ocorrido, busca consolo no marido em certo momento apenas para vê-lo oferecer um gesto de apoio rápido antes de demonstrar interesse sexual – um comentário afiado sobre o egoísmo masculino, sexismo e a objetificação sofrida por aquela mulher mesmo em meio a uma crise profissional e de consciência. Ao mesmo tempo, fica claro como a personagem desenvolve certa fascinação mórbida pelos detalhes da morte do catador de latas, já que ela repete obsessivamente o que testemunhou para várias pessoas – e, por mais que genuinamente acredite ter tentado ajudar o homem dentro de suas possibilidades, não deixa de ser revelador como ele acaba se transformando em um modo de Orsolya chamar a atenção para si mesma.
Privilegiando o subtexto em detrimento do texto explícito, o roteiro também evita a pregação escancarada ao comunicar suas mensagens de modo indireto e inteligente: em certo momento, por exemplo, a protagonista, conversando sobre os bairros da cidade, comenta que se mudaria caso tivesse condições - uma fala aparentemente casual que, no entanto, revela uma proximidade socioeconômica muito maior com o homem que despejou do que com os donos do prédio. Esta, claro, é uma realidade que a classe média frequentemente se recusa a aceitar, iludindo-se sobre sua posição e funcionando, muitas vezes, como instrumento para a manutenção do poder da elite econômica. Não é por acaso que o despejo visa liberar o terreno para a construção de um hotel de luxo, já que pessoas como a oficial de justiça e os policiais acabam por executar o trabalho sujo dos ricos, perpetuando uma contradição fundamental da sociedade capitalista que muitos são incapazes de (ou não desejam) enxergar – e sua tentativa de "ajudar" o catador, portanto, trazia uma demagogia inata por estar inserida na própria lógica do sistema que a obriga a agir como agente da mesma despossessão que procura suavizar.
Mas as ambições temáticas de Radu Jude não param por aí, envolvendo também questões essenciais como a xenofobia: imigrante de origem húngara, a protagonista é até vista com naturalidade por já ter passado por um longo processo de assimilação, mas isto não ocorre com um ex-aluno que, também húngaro, trabalha como entregador e estampa em sua bicicleta a frase "Eu sou romeno" numa tentativa desesperada de evitar a agressão de motoristas que hostilizam trabalhadores imigrantes, esforçando-se até mesmo para atingi-los com seus carros. Com isso, o filme expõe o fenômeno mais amplo do nacionalismo crescente em diversas partes do globo – não só na Europa, mas também no Brasil e nos Estados Unidos, nações paradoxalmente construídas por processos migratórios históricos e que inacreditavelmente parecem ter regredido como sociedade graças ao avanço de uma extrema-direita intolerante e violenta.
Não é à toa que ao longo do filme a protagonista (vivida de modo excepcional por Eszter Tompa) busca incessantemente por consolo ou respostas em conversas com figuras que incluem padre, marido, colegas, amiga e o ex-aluno, recebendo apenas variações da mesma formulação vazia: "a culpa não foi sua" – uma ausência de respostas significativas que é reflexo da incapacidade inerente ao sistema capitalista de oferecer soluções ou mesmo um sentido para a desigualdade brutal, a crueldade e a desumanização que ele próprio gera.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
20 de Fevereiro de 2025
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