Meia-Irmã Feia, A
Dirigido e roteirizado por Emilie Blichfeldt. Com: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Flo Fagerli, Isac Calmroth, Malte Gårdinger, Ralph Carlsson, Katarzyna Herman, Adam Lundgren.
De certo modo, o norueguês A Meia-Irmã Feia pode ser encarado como parte de uma série de produções recentes que buscam recontar fábulas estabelecidas a partir do ponto de vista de suas vilãs, redimindo-as no processo – como fez Malévola com A Bela Adormecida ou Wicked com O Mágico de Oz. Porém, apenas em parte: ao abordar a história de Cinderela usando uma das irmãs malvadas como protagonista, o filme escrito e dirigido por Emilie Blichfeldt complica a narrativa original ao explorar as nuances psicológicas e sociais por trás das personagens, humanizando (mas não reabilitando) a antagonista da Gata Borralheira enquanto mantém uma atmosfera que oscila entre o fabuloso e o grotesco.
Trazendo Elvira (Myren) como foco da produção, o roteiro não se esforça para suavizar suas piores características, embora as contraponha às suas fragilidades: mesquinha, invejosa e frequentemente sádica ao sentir um óbvio prazer em testemunhar o fracasso alheio, a jovem é também vitimada por inseguranças profundas - especialmente em relação à sua aparência. Considerando-se feia e julgando-se acima do peso que sua mãe considera o ideal, a personagem se torna ainda mais autocrítica ao se mudar para a casa do novo padrasto e conhecer a filha deste, que, como não é difícil imaginar, conta com a beleza clássica de uma princesa da Disney. Apaixonada pelo Príncipe Encant… Julian (Calmroth), ela sonha em se tornar sua esposa – um desejo que se torna uma obrigação quando sua mãe, desesperada ao descobrir que o falecido marido estava falido, passa a encarar este possível matrimônio como a garantia de sobrevivência financeira da família.
É a partir de então que A Meia-Irmã Feia encontra seu foco principal: sabendo que a noiva do herdeiro real será escolhida em um baile que terá a presença de todas as jovens solteiras do reino, Elvira se vê compelida a se submeter a procedimentos dolorosos e humilhantes para atingir um ideal de beleza que aumente suas chances de ser selecionada, incluindo a ingestão de ovos de solitária para emagrecer e uma rinoplastia primitiva e apavorante (quando a projeção tem início, ela já usava aparelhos dentários - um detalhe historicamente preciso, já que estes surgiram no início do século 19). Ilustrando a fome que a moça sente o tempo inteiro, já que tudo que devora é por sua vez consumido pelo verme em seu abdômen, o desenho de som da produção angustia o espectador com o roncar constante de sua barriga, transformando o ruído em um elemento perturbador que remete não só ao seu sofrimento físico como ecoa sua fome por aceitação e perfeição.
Com isso, a cineasta insere um subtexto importante em uma fábula que sempre insistiu em ressaltar o ideal de beleza de sua heroína: o de que este tipo de mensagem – especialmente em uma história amada por meninas jovens e, portanto, mais influenciáveis – reforça conceitos psicologicamente danosos sobre autoimagem e amor-próprio, estabelecendo padrões estéticos impossíveis que servem apenas para causar insegurança em quem tenta alcançá-los. Neste sentido, a abordagem de Blichfeldt é inteligente ao combinar componentes fabulescos e naturalistas: elementos mágicos — como a fada-madrinha, larvas costureiras e ratinhos que se tornarão criados humanos — são sugeridos, mas nunca mostrados ostensivamente ao público. Prendendo-se sempre ao ponto de vista de Elvira (que, lembrem-se, na história original não tinha conhecimento da ajuda sobrenatural oferecida à Cinderela), A Meia-Irmã Feia permite que o espectador preencha as lacunas com seu conhecimento prévio da fábula clássica, mantendo-se ciente de que em algum lugar daquele mundo uma abóbora está sendo transformada em carruagem e um vestido luxuoso está sendo produzido ao lado de sapatinhos de cristal – mesmo que, ancorado à perspectiva de Elvira, nada disso se torne imediatamente aparente – e uma consequência curiosa desta abordagem é que acabamos tendo uma percepção melhor do que a da própria Elvira com relação à injustiça da competição na qual se envolveu, já que todos os seus (muitos) esforços são facilmente superados pelo toque de uma varinha de condão.
Uma outra decisão criativa importante da diretora reside na introdução de elementos gráficos e violentos normalmente ausentes em adaptações de fábulas como esta: o pai de Cinderela, por exemplo, que morre logo no princípio da narrativa, tem seu corpo deixado em um aposento da casa enquanto não há dinheiro para enterrá-lo – e de tempos em tempos o longa enfoca seu cadáver apodrecido e tomado por vermes. Além disso, Blichfeldt inclui planos que exibem um pênis ereto, sêmen e, claro, muito sangue, já que há um componente importante de body horror na concepção do filme e que aqui, como já observado, reflete a violência não só física, mas psicológica à qual Elvira se submete em busca da “beleza”.
Interpretada por Lea Myren com intensidade e complexidade que a tornam ainda mais fascinante, Elvira é vista sob uma nova luz não por ser mal compreendida, mas por perpetuar, de certa maneira, as violências das quais ela própria é vítima – e é importante notar que a Cinderela vivida por Thea Sofie Loch Næss não é o retrato de humildade e inocência eternizado pela Disney, mas uma jovem que também exibe facetas egocêntricas e mesmo cruéis. Aliás, até a madrasta encarnada por Ane Dahl Torp pode ser encarada, de certo modo, como uma mulher obrigada a atos desesperados para sobreviver e cuidar das filhas.
Contando ainda com um terceiro ato brilhante, A Meia-Irmã Feia leva seu revisionismo ao extremo enquanto se mantém fiel à base da história que o inspirou – e, no processo, se torna um dos melhores filmes exibidos na Berlinale em 2025.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
17 de Fevereiro de 2025
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