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Morra, Amor

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Lynne Ramsay. Roteiro de Lynne Ramsay, Alice Birch e Enda Walsh. Com: Jennifer Lawrence, Robert Pattinson, Sissy Spacek, LaKeith Stanfield e Nick Nolte.

Para quem assistiu a Precisamos Falar Sobre o Kevin ou Você Nunca Esteve Realmente Aqui, obras anteriores de Lynne Ramsay, a capacidade da cineasta de mergulhar o espectador na subjetividade de seus personagens não é novidade: são filmes que, embora possuam tramas específicas, priorizam a experiência interior dos protagonistas – seus estados emocionais, sua relação com o mundo e, principalmente, um profundo sentimento de impotência diante dos acontecimentos.

Pois todos estes elementos atravessam Morra, Amor, seu novo trabalho apresentado na competição oficial de Cannes este ano.

Adaptado do livro de Ariana Harwicz pela própria diretora ao lado de Enda Walsh e Alice Birch, o roteiro explora a turbulência interior de sua protagonista, Grace (Lawrence), que se muda com o marido Jackson (Pattinson) para uma casa próxima à cidadezinha em que este foi criado – uma propriedade que pertencia ao tio do sujeito e que ali cometeu suicídio. Embora confortável e espaçoso, o imóvel é situado em uma área isolada, dificultando o convívio de Grace, que está no período final de gestação, com qualquer outra pessoa.

Ainda que tudo isso possa soar como a premissa de uma obra de terror, Morra, Amor não traz elementos sobrenaturais em sua narrativa – o que não impede que a existência da protagonista assuma tons terrivelmente opressivos. Aliás, o plano inicial do longa já revela muito ao surgir como um quadro estático que revela a expansão do andar térreo da casa, incluindo a cozinha, as salas e a porta de entrada, trazendo paredes cobertas por padrões de cores tristes que contrastam com as cores vivas da roupa de Grace e complementando as de seu marido, indicando desde o princípio como ela jamais se sentirá à vontade naquele lugar. Além disso, ao sobrepor os batentes de várias portas, o enquadramento cria um tom claustrofóbico que se manterá durante toda a projeção, quando frequentemente veremos aquela mulher através de frestas de portas entreabertas ou sob batentes – algo ressaltado pela razão de aspecto reduzida (1.33:1).

Enquanto isso, o inteligente desenho de som nos aproxima ainda mais das experiências emocionais e psicológicas de Grace, seja ao trazer uma canção que subitamente se torna acelerada sem que ninguém a corrija, seja ao salientar o zumbido de um mosquito enquanto a personagem conversa com a sogra (Spacek). Da mesma forma, quando Jackson compra um cãozinho sem consultar a esposa (ampliando suas já vastas responsabilidades cotidianas), o latido do animal se torna uma constante, criando no público a mesma sensação de ansiedade contínua e frustração que a protagonista experimenta.

E estas ansiedades já são muitas, incluindo a pressão da maternidade e das massacrantes pressões sociais depositadas sobre toda mulher que dá à luz através da expectativa de que se tornem mães perfeitas a partir do primeiro choro do bebê. Este sentimento é ilustrado, por exemplo, quando Grace celebra os seis meses de nascimento do filho e comenta casualmente que “uma mãe de verdade teria assado o bolo” em vez comprá-lo – algo que revela sua percepção injustamente autocrítica (principalmente porque constatamos que é uma mãe afetuosa e preocupada) e também indícios de uma possível depressão pós-parto.

Soma-se a tudo isso a mágoa crescente diante da negligência emocional e sexual por parte do marido, além da profunda solidão, já que ele permanece fora de casa boa parte do tempo. Neste aspecto, é tocante testemunhar a reação de Grace quando, ao conversar com o marido pelo telefone, nota que este se encontra em um restaurante, descobrindo que ele está tomando cerveja e comendo um hambúrguer – e ao ouvi-la perguntar como está o gosto do sanduíche, constatamos como simplesmente sair de casa para uma refeição se tornou para ela uma possibilidade distante. Para piorar, qualquer prazer sexual só pode ser alcançado através da masturbação, o que se apresenta como uma questão ainda mais grave diante da natureza sexual intensa da personagem.

Oferecendo a Jennifer Lawrence a oportunidade de criar uma de suas melhores performances, Morra, Amor traz a atriz como uma figura cuja angústia crescente eventualmente resulta em uma irritação generalizada com o mundo e em ações impensadas e autodestrutivas – e é mérito de Lawrence que, mesmo chocados diante de certas atitudes, compreendamos perfeitamente as raízes de seu comportamento. E mais: quando em determinado momento alguém lhe pergunta como está se sentindo, sua resposta – um "Estou bem" acompanhado de um sorriso – é contraposta ao seu olhar vazio que evidencia a ausência de qualquer sensação de bem-estar.

Robert Pattinson, por sua vez, segue resistindo à possibilidade fácil de desenvolver uma carreira de galã convencional, parecendo constantemente determinado a demolir qualquer imagem de protagonista tradicional – o que é uma sorte para os admiradores de seu talento como ator. Aqui, por exemplo, ele encarna um homem cuja impotência emocional é rivalizada apenas por sua falta de companheirismo, transformando Jackson em uma fonte contínua de frustração.

Abrindo a projeção com uma bela floresta que entra em aparente combustão espontânea, Lynne Ramsay emprega esta imagem como uma metáfora visual eficiente daquilo que a protagonista experimentará internamente – com a diferença de que, longe de ser espontânea, sua “combustão” é reação não apenas a um desequilíbrio hormonal relativamente comum após o parto, mas principalmente à falta de compreensão do marido diante de suas necessidades – não apenas sexuais, mas de companhia e apoio emocional.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025

18 de Maio de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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