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Nossos Corpos

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Claire Simon.

Os corredores longos e com luzes frias transmitem uma impressão errada sobre o lugar, que oferece calor humano, solidariedade e, às mais felizardas, esperança no interior de seus consultórios. Rodado em uma imensa clínica ginecológica de Paris, Nossos Corpos é um documentário que conta com sua parcela de dores e lágrimas, mas em essência é uma obra que celebra a empatia e ressalta como a Medicina deveria ser uma profissão dominada por indivíduos mais preocupados com o Outro do que com interesses corporativos e particulares.

Dirigido e fotografado por Claire Simon (que também opera a câmera na maior parte do tempo, algo fundamental para preservar a integridade emocional das pacientes), o filme tem um foco definido: acompanhar consultas e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos ocorridos na clínica, indo de mulheres em busca de um aborto (oferecido pelo sistema público de saúde do país) a outras determinadas a engravidar, passando por pacientes afetadas por casos graves de endometriose e câncer de mama – passagens pesadas que são equilibradas por um parto cercado de extrema gentileza. Evitando qualquer tipo de editorialização através de narrações desnecessárias (que ocorrem apenas nas duas pontas da projeção e por razões compreensíveis), Simon nos apresenta não só às mulheres que buscam ajuda no local, mas aos médicos que as recebem, resultando em interações moldadas pelo motivo da consulta e também pelas personalidades dos envolvidos. (Há um profissional, por exemplo, que exibe a divertida mania de escrever e desenhar tudo que explica, seja isto necessário ou não.)

Além disso, como o documentário cobre de partos a tratamentos paliativos para pacientes terminais, toda a dimensão da experiência humana acaba sendo refletida em algum momento, sendo fascinante estudar os contrastes entre as reações das personagens, que podem expressar pavor diante de tudo ou uma resignação tocante. Em todos os casos, porém, algo se mantém constante: a humanidade naquelas conversas, que abandonam moralismos baratos ou elementos religiosos irrelevantes às questões de saúde e se concentram na tentativa de ajudar.

Em dois instantes, por exemplo, vemos o mesmo médico atendendo mulheres trans em fases distintas de sua transição: uma jovem de 17 anos que deseja iniciar seu tratamento hormonal e uma mulher de meia-idade que está atingindo a idade na qual deverá interrompê-lo para evitar riscos à saúde – e nas duas consultas há debates sobre questões médicas e, igualmente importante, inseguranças pessoais que precisam ser dirimidas. (A propósito: o tratamento também é bancado pelo sistema público de saúde francês.) No caso da adolescente, aliás, um dos contratempos reside na resistência de seu pai para aceitar a identidade da filha, o que a impede de seguir condutas que exigem a autorização de ambos genitores (a mãe da garota, por outro lado, a acompanha na consulta e demonstra apoiá-la).

A presença ou ausência de acompanhantes, vale apontar, é igualmente reveladora: se aqui vemos uma adolescente em busca de aborto depois que o namorado se negou a assumir a criança ou mesmo a ajudá-la a encerrar a gravidez, ali testemunhamos o afeto de um casal que se submete a um tratamento fertilizante; se aqui uma jovem chora ao admitir que as dores durante o sexo a fazem sentir culpa em relação ao marido com o qual se casou há poucos meses, acolá é uma mulher que passou por um parto complicadíssimo e excruciante que desabafa e é consolada pela própria cineasta.

No entanto, Simon não fecha os olhos para os problemas da clínica (e do sistema hospitalar como um todo) ou idealiza a profissão, incluindo, em certo ponto, os protestos feitos diante do estabelecimento por pacientes determinadas a denunciar abusos (sexuais ou psicológicos) sofridos nas mãos de médicos enquanto ali se encontravam internadas.

Dito isso, o elemento mais admirável de Nossos Corpos reside na honestidade de sua diretora, que, ao ser diagnosticada com câncer de mama durante as filmagens, não hesita em se expor – física e mentalmente – da mesma maneira com que suas “personagens” o haviam feito. De um ponto de vista puramente narrativo, aliás, o triste diagnóstico traz nova dimensão ao projeto ao torná-lo ainda mais pessoal, sendo revelador, por exemplo, como Simon inclui um longo plano de uma parede (algo que não havia feito até então) logo depois de sua conversa com o oncologista, simbolizando assim seu estado de espírito com economia.

Culminando em uma longa conversa entre uma médica e uma antiga paciente cujas possibilidades de tratamento já se esgotaram, Nossos Corpos cria, ao longo de suas quase duas horas e cinquenta minutos, uma tapeçaria do que temos de mais bonito, de mais frágil, de mais desesperador e, não menos importante, de mais inspirador.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2023

19 de Fevereiro de 2023

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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