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O Que a Natureza Te Conta

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Hong Sang-soo. Com: Ha Seong-guk, Kang So-yi, Kwon Hae-hyo, Cho Yun-hee, Park Mi-so.

O cinema do realizador sul-coreano Hong Sang-soo tem como princípio organizador a observação meticulosa do comportamento de seus personagens; não se trata de um cinema calcado em tramas complexas ou em uma sucessão causal de eventos, mas sim na interação, na reação mútua, no dito e, crucialmente, na maneira como o dito é expresso – o conteúdo verbal assumindo por vezes uma importância secundária em relação à sua enunciação. É, em essência, um cinema de observação, uma característica que se reflete na abordagem de sua direção, que habitualmente constrói suas narrativas através de planos longos e estáticos, com movimentos de câmera sutis (ocasionais panorâmicas leves ou zooms in/out) que permitem que o espectador estude o comportamento dos indivíduos no campo, bem como o desconforto ou o conforto que surge como consequência de suas interações.

Em O Que a Natureza Te Conta, Hong Sang-soo mais uma vez investe em uma história simples em sua essência, acompanhando um casal de namorados formado por Donghwa (Ha Seong-guk) e Junhee (Kang So-yi), que, juntos há três anos, ainda não passaram pelo processo formal de apresentar Donghwa aos pais da companheira. Porém, ao levar a garota para casa certa manhã (os jovens moram em outra cidade e ela retorna nos fins de semana), a rotina é quebrada quando, antes de ter tempo de ir embora, ele acaba encontrando o sogro (Kwon Hae-hyo), que o convida a passar o dia ali e conhecer o resto da família – além da casa em si, que é bem maior do que supunha o jovem poeta.

A partir dessa premissa, Hong Sang-soo explora, entre outras coisas, seu habitual senso de humor, cuja sutileza frequentemente provoca o riso sem que saibamos exatamente o porquê – um riso que surge do comportamento dos personagens, de uma frase mal colocada, de um gesto de incômodo. Aliás, aqui talvez o cineasta assuma uma veia cômica mais explícita do que em trabalhos anteriores, parecendo mais determinado do que de costume a encontrar a comédia naquelas situações – e o sogro, embora se mostre afável e simpático, logo faz comentários irreverentes sobre o carro e o bigode do genro que acabam por sugerir uma ambiguidade desconcertante: são críticas veladas ou simpatia genuína? Essa incerteza, dividida entre o espectador e o protagonista, gera uma sensação de estranhamento curiosa mesmo que, de modo geral, percebamos que aquelas são pessoas gentis que buscam estabelecer uma relação amigável e evitar o desconforto mútuo.

Neste aspecto, é importante notar como a abordagem de Hong Sang-soo, embora sempre focada na direção de atores e na forma como a câmera e a montagem permitem que as interações fluam e os atores se expressem confortavelmente, parece conferir uma atenção um pouco mais evidente a outros elementos visuais, como direção de arte e figurinos. É curioso, por exemplo, o jogo cromático estabelecido a partir do figurino da namorada: se logo no início, ao chegarem à sua casa, as cores de sua roupa refletem quase perfeitamente as do sofá, estabelecendo visualmente seu pertencimento e conforto naquele espaço, o contrário pode ser dito com relação ao seu companheiro, que se encontra em um ambiente que lhe é desconhecido e, até certo ponto, intimidador. De forma similar, a cunhada do protagonista se veste ou de preto ou com cores diametralmente opostas àquelas da irmã, sublinhando uma diferença entre as duas que se revelará importante à medida que certos comentários da personagem geram desconforto e conduzem a desenvolvimentos posteriores na trama.

Marca registrada do cinema de Hong Sang-soo, os planos conjuntos, que permitem a observação simultânea de múltiplos personagens, valorizam a sutileza das performances, que, longe de se limitarem a recitações de diálogo, incorporam pausas e hesitações que conferem espontaneidade e verossimilhança importantes para salientar o desconforto da situação. Além disso, a repetição de conversas específicas, de elementos de diálogo e de certas perguntas contribui também para a tensão subjacente pelo estranhamento que estes ecos podem gerar. Além disso, como é de praxe nas obras do cineasta, há o momento em que o álcool entra em cena, alterando a dinâmica entre os personagens e revelando facetas ocultas – e o clímax do filme é construído em um longo plano (se há cortes secos representando pequenas elipses, estes são tão discretos que passam despercebidos) que acompanha, quase em tempo real, o processo de embriaguez do grupo. E é assim que o protagonista, inicialmente tenso e medindo as palavras para agradar os sogros, gradualmente se solta, expondo frustrações acumuladas ao longo do dia e gerando tanto apreensão quanto uma válvula de escape divertida.

Já o uso expressivo do zoom in/out, outra assinatura do diretor, resulta em escolhas narrativas interessantes, abrindo e fechando o quadro para ressaltar pontos específicos do diálogo ou, mais frequentemente, para sublinhar momentos de isolamento ou reflexão dos personagens. Em certa passagem, por exemplo, o protagonista e o sogro estão sentados em um banco, observando as montanhas a partir de um jardim criado pelo dono da casa em homenagem à sua mãe; inicialmente mais aberto, o quadro se expande ainda mais em um zoom out quando o sogro se levanta para buscar algo, acentuando o isolamento momentâneo do protagonista e o consequente alívio da pressão de ter que desempenhar um papel social específico. Com o retorno do outro, porém, o zoom in não apenas restabelece o enquadramento anterior, mas o deixa ainda mais fechado, intensificando o desconforto e a consequente rigidez do rapaz. Além disso, o uso do desfoque intencional já presente em um filme anterior do diretor, In Water (inteiramente rodado fora de foco; uma escolha que naquela obra me pareceu mais um artifício do que algo orgânico), aqui se manifesta em diferentes gradações e com eficiência bem maior, refletindo literalmente o ponto de vista do protagonista, que, embora precise de óculos, frequentemente os mantém pendurados na camisa – algo que se soma a um elemento simbólico, já que reflete também certa falta de foco em sua trajetória de vida (seu desejo de investir na poesia parece mais uma reação à necessidade de se afirmar independentemente do pai, um advogado bem-sucedido, do que um objetivo pessoal claramente definido).

É sempre um prazer perceber como a produtividade impressionante de Hong Sang-soo não o impede de continuar realizando obras adoráveis como esta.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

21 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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