Dirigido e roteirizado por Robin Petré.
Realizado pela documentarista dinamarquesa Robin Petré, Only on Earth é uma coprodução espanhola que discute as alterações climáticas que vêm ocorrendo no planeta em velocidade cada vez maior e as consequências multifacetadas (e muitas vezes inesperadas) que se manifestam de formas distintas e preocupantes em diferentes regiões do globo. Neste caso específico, o olhar da diretora se volta para a comunidade autônoma da Galícia, situada no noroeste da Espanha - uma região que vem enfrentando condições crescentes de aridez e um aumento alarmante na frequência e intensidade de incêndios florestais. Este cenário, como o filme demonstra em um apropriado tom de urgência, resulta em um desastre ambiental de proporções significativas, afetando não apenas a população humana, mas, de maneira ainda mais trágica (principalmente por serem vítimas inocentes), a fauna local. Dito isso, é fundamental frisar que a preocupação central de Petré não reside em uma dissecação científica exaustiva das mudanças climáticas; o filme opta, em vez disso, por uma observação empática da dinâmica da vida na região, abordando em particular uma questão cultural bastante específica da Galícia: sua ancestral população de cavalos selvagens.
Ancorando o espectador nesse universo através de alguns personagens recorrentes, o filme nos apresenta, por exemplo, a um garotinho encantador que, ao lado do pai, participa do manejo dos cavalos selvagens, tendo também suas brincadeiras com um pequeno amigo registradas pela câmera. Ao mesmo tempo, conhecemos uma veterinária da região (cuja dedicação aos animais se torna evidente a cada gesto) e um bombeiro que, confrontado diariamente com a crescente emergência dos incêndios florestais, assume por vezes uma função didática ao elucidar para o espectador as complexas dinâmicas que culminam na intensificação desses desastres.
Retratando a vasta população de cavalos selvagens daquela terra com o mesmo respeito exibido pelos habitantes locais, a cineasta confere aos animais uma imponência que se torna quase mítica, optando frequentemente por enquadramentos em primeiríssimo plano que permitem que os olhos das criaturas tomem conta da tela – uma escolha estilística que, como não poderia deixar de ser, se junta ao efeito Kuleshov para levar o espectador a projetar significado naqueles olhares (um significado, é claro, que dependerá dos referentes e do temperamento de cada indivíduo). É perfeitamente possível enxergar ali afeto, fome, vazio ou – minha sensação particular – uma tristeza profunda. Aliás, aqui julgo importante ressaltar que ao identificá-los como “selvagens” estou apontando como não se tratam de animais domesticados ou criados por aquela comunidade; o trabalho do garotinho e de seu pai (e de vários outros conterrâneos), por exemplo, consiste em, uma vez por ano, reunir o maior número possível desses cavalos para aparar suas crinas – uma prática que se reveste de significado cultural e, suponho, também possui alguma dimensão comercial. Porém, apesar dessa intervenção pontual, o que transparece é respeito pela liberdade dos animais – o que, como já apontado, é ecoado pela distância respeitosa mantida pela câmera.
Infelizmente, por mais que os cavalos tenham seu habitat preservado pela população local, os efeitos globais das mudanças climáticas afetam a região de forma assustadora: com a diminuição das chuvas, os reservatórios de água sofrem rebaixamento e, num efeito cascata, a população de cavalos cai. Como os animais desempenhavam um papel de equilíbrio no ecossistema local, controlando a vegetação, seu declínio leva a um crescimento desordenado desta – e com o acúmulo de folhas secas sobre o solo, o risco de incêndios aumenta em frequência e em intensidade (e o bombeiro entrevistado por Petré chega a dizer que até o som produzido pelas chamas se alterou).
O que nos traz às sequências em que Only on Earth nos confronta com a realidade brutal dos incêndios ao produzir imagens quase apocalípticas, com o céu tingido de vermelho e a fumaça densa encobrindo a paisagem. Posicionando suas câmeras no meio do fogo ao acompanhar a luta dos bombeiros contra as chamas, o longa mergulha o espectador nesse caos amedrontador e o faz compreender a exaustão crescente estampada nos rostos dos combatentes – e também a sensação de impotência diante da força descomunal dos incêndios (em certo momento, o documentário retrata alguns moradores locais que, do alto de uma montanha, observam o incêndio se aproximar de suas casas, restando a eles apenas a torcida para que uma mudança na direção do vento salve tudo que possuem no mundo).
E tudo isso remete, no fim das contas, ao relato que abre a projeção e revela como os cavalos, ao fugirem do incêndio, acabam por se deparar com a presença humana e os equipamentos de combate ao fogo, preferindo, em um ato de desespero final, retornar para dentro das chamas. E não é difícil perceber o simbolismo existente no instinto daqueles animais, que parecem considerar o horror das chamas mais aceitável que a presença do Homem.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
21 de Fevereiro de 2025
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