Dirigido e roteirizado por Leonardo Lacca.
Com ela aprendi a amar o Cinema. Encantada por filmes de todos os gêneros, ela era a primeira a informar os netos sobre os lançamentos da semana – e quando alguma obra destinada ao público infantil entrava em cartaz, o passeio já começava em casa, com um almoço diferente (na realidade, ela apenas fazia pequenas esculturas com o arroz e o feijão), e terminava depois da sessão com um misto quente e um sorvete na lanchonete das Lojas Americanas localizada no centro de Belo Horizonte. Enfeitando seu apartamento com decorações de Natal já no primeiro dia de dezembro, ela transformava aquele período do ano em um evento que durava semanas e culminava em uma ceia que fazia questão absoluta de preparar sozinha.
Seu nome era Maria de Lourdes de Oliveira, era minha avó materna (e madrinha de batismo) e ter que reconhecer seu corpo no IML depois de um atropelamento na avenida Cristiano Machado foi o pior momento da minha vida. Foi uma obrigação que assumi para evitar que minha mãe fosse forçada a cumpri-la e que eu apagaria da minha mente sem qualquer hesitação se pudesse fazê-lo, já que acabou se tornando uma imagem alojada no mesmo compartimento de todas as muitas lindas lembranças que tenho daquela pessoa tão especial – e desde aquele dezembro de 2005 não houve uma semana sequer sem que o que vi tenha invadido meus pensamentos.
Pois durante os 78 minutos em que assisti a Seu Cavalcanti, documentário dirigido por Leonardo Lacca, apenas as melhores memórias de minha avó-madrinha retornaram – um efeito que atribuo à atmosfera de afeto, nostalgia e irreverência que o longa evoca do início ao fim.
Registrando imagens de seu avô Severino Cavalcanti entre 2001 e 2016, Lacca explica, na suave narração de seu filme, como aquele foi um costume que marcou o início de sua atividade como realizador, embora tenha surgido de um impulso quase inexplicável – mas que se torna mais compreensível depois de conhecermos o efeito agregador exercido por seu Cavalcanti e o carinho que inspirava em toda a família. Orgulhoso das conquistas de filhos e netos, ele é capturado pela câmera enquanto enfrenta com resiliência a música alta e os gritos de celebração na festa de formatura da neta (um evento para o qual se arruma cuidadosamente e durante o qual chega a invadir a pista para roubar uma dança com a advogada recém-formada) – e mais tarde, ao ser levado a um estúdio para gravar algumas cenas diante de uma tela verde, ele segue as instruções do neto-cineasta ainda que admita não entender direito o propósito de tudo aquilo. “É um prazer estar aqui”, diz seu Cavalcanti sobre a experiência compartilhada com o descendente, completando depois de uma pausa: “Mas não vai demorar muito mais não, vai?”.
Péssimo motorista e apaixonado por seu carro velho (uma combinação temerária), ele frequentemente sai sozinho rumo a destinos ignorados pelas filhas – e quando estas decidem desvendar o mistério e o seguem, o receio de serem descobertas é logo aplacado por Lacca: “Ele nunca olha para o retrovisor”. Aliás, esta intimidade com os hábitos do avô logo passa a ser dividida com o espectador, que descobre o gosto do sujeito por uísque após o almoço, testemunha sua ansiedade quando a filha demora a chegar em casa e observa seu costume de colocar o relógio de pulso em uma das colunas da cabeceira da cama sempre que vai dormir. Neste sentido, não há dúvida de como a relação próxima entre documentarista e documentado é fundamental para o projeto, já que seu Cavalcanti se torna tão relaxado com a presença constante da câmera que mal parece se esforçar para conter seus bocejos ou mesmo para se manter acordado, dormindo (sentado, escorado em algo ou deitado) em vários instantes da projeção.
Mas uma importante cumplicidade também é estabelecida entre Lacca e a plateia, que é informada sobre como o orçamento do projeto não comporta os direitos de uso de músicas famosas (o que obriga o diretor a usar versões genéricas que remetem às intenções originais) e também de como falhas pontuais na captação de som foram corrigidas através de uma dublagem que o filme não tenta vender como escolha narrativa, reconhecendo com bom humor sua natureza de band-aid técnico. Por outro lado, as sessões de ADR que trazem seu Cavalcanti gravando no estúdio as frases que disse no momento das filmagens se revelam divertidas não apenas pela repetição obrigatória que testa a paciência do personagem-título, mas também pelas divagações às quais este acaba se entregando como resultado.
Trazendo passagens encenadas para a câmera e durante as quais seu Cavalcanti contracena com Maeve Jinkings (deixarei que a natureza da figura vivida pela atriz seja descoberta assistindo ao filme), o longa alcança um hibridismo tão eficaz que esta soa totalmente convincente interpretando em um cenário documental – e se não reconhecêssemos seu rosto, dificilmente desconfiaríamos se tratar de uma performance, já que seus gestos (como brincar com a papada do protagonista) sugerem um conforto alcançado através de uma longa convivência. De modo similar, Tânia Maria (a grande revelação de O Agente Secreto, que não por acaso teve Lacca como preparador de elenco) surge em uma participação pequena, mas essencial que permite ao diretor recriar um momento cuja complexidade provavelmente se diluiria sem a mediação da ficcionalização.
Forte, carismático e politicamente consciente numa idade na qual certa alienação (ou no mínimo alguma preguiça) seria mais do que compreensível, seu Cavalcanti deixou um legado familiar cuja beleza não se torna menor pelas complicações que também inclui – e quando vemos o diretor empurrando o velho carro do avô ao lado de outras pessoas cujas vidas também foram tocadas pelo sujeito, é inevitável enxergarmos ali um símbolo do exercício feito pelo próprio filme para manter sua memória e sua passagem pelo planeta vivas e presentes.
E ainda bem que o fez; conhecer seu Cavalcanti foi um presente que, além de caloroso por sua personalidade, me permitiu lembrar um pouco de minha linda avó sem ser perturbado pelos machucados que a tiraram da família que construiu e manteve com seu imenso amor.
07 de Outubro de 2025
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