28 ANOS
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Praga, A

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Charlie Polinger. Com: Everett Blunck, Kenny Rasmussen, Kayo Martin, Joel Edgerton, Lucas Adler, Kolton Lee, Caden Burris, Elliott Heffernan, Lennox Espy.

Embora se apresente formalmente como um filme de terror através de suas convenções visuais, de sua abordagem narrativa inquietante e da trilha sonora evocativa, A Praga não gira em torno de ameaças sobrenaturais ou vilões indestrutíveis típicos do gênero, mas sim daquele que pode ser considerado um dos períodos mais aterrorizantes da experiência humana: a adolescência. Esta fase de descobertas constantes – algumas que proporcionam alegria, prazer e encantamento genuínos, outras que provocam angústia e desorientação – é caracterizada fundamentalmente por uma profunda insegurança em relação ao mundo e à própria identidade em formação, constituindo um momento de crise permanente. Para piorar, administrar estas ansiedades se torna quase impossível graças à falta de experiência de vida e à imaturidade emocional naturais da idade – e o fato de tantos adultos adotarem uma postura condescendente diante destas crises, sugerindo que “o tempo demonstrará que não eram tão graves/importantes”, revela apenas como ignoram que, para o adolescente imerso em sua experiência imediata, aquela vivência é intensa, significativa e avassaladora; a legitimidade de um sofrimento psicológico não deve ser medida pela perspectiva temporal oferecida pela distância cronológica, mas pela dor com que é vivenciado no presente.

E é neste território psicológico complexo que o longa de estreia do cineasta Charlie Polinger estabelece suas bases narrativas e temáticas. Escrito pelo próprio diretor, o roteiro se passa em uma escola durante um programa de verão no qual os pais podem deixar seus filhos pré-adolescentes e adolescentes para que participem de diversas atividades. Dormindo nos alojamentos do colégio, os jovens passam por uma convivência intensa, criando subgrupos com suas próprias regras, hierarquias implícitas e códigos de conduta estabelecidos – algo que Ben (Blunck), protagonista da obra, descobre ao ser inscrito pela mãe para participar do programa de polo aquático da instituição. Recém-chegado à cidade, o garoto se vê então duplamente deslocado, tendo que se adaptar não só à nova residência, mas à dinâmica de um grupo já entrosado e cuja hostilidade se torna patente através da forma cruel com que um outro menino, Eli (Rasmussen), é tratado. Vitimado por problemas dermatológicos típicos da idade (e possivelmente por algum tipo de dermatite), Eli é acusado de ser infectado com “a praga”, que pode ser interpretada simultaneamente como uma condição biológica objetiva e como uma construção social subjetiva. Isto, claro, coloca Ben em uma posição de se ver dividido entre a empatia natural e instintiva que sente pelo isolamento de Eli e a pressão social para se integrar ao grupo liderado pelo carismático e maniqueísta Jake (Martin).

Estabelecendo um tom inquietante desde a sequência inicial, que situa o espectador no fundo de uma piscina na qual os personagens mergulham, perturbando a tranquilidade da água, A Praga emprega a câmera lenta, o azul sufocante e a brilhante trilha sonora de Johan Lenox para deixar evidente que os 90 minutos seguintes serão de incômodo constante. Aliás, a música de Lenox é essencial ao evocar certo tribalismo primal presente na dinâmica que o longa retrata e que envolve uma “cultura” rigidamente definida por aqueles adolescentes – que, claro, emulam os comportamentos uns dos outros para garantirem a aceitação mútua. E mais: utilizada em momentos aparentemente prosaicos, a trilha eleva estas passagens a experiências que remetem a pesadelos, como, por exemplo, na cena em que Ben se vê isolado na piscina ao perceber que ninguém irá lhe passar a bola durante uma partida, disparando gatilhos adolescentes como o pânico diante da possibilidade do embaraço e da exclusão.

Neste sentido, a performance de Rasmussen como Eli, portador original da “praga”, é interessante, já que eventualmente podemos constatar que se trata de um garoto com um senso de humor peculiar e surpreendentemente confortável consigo mesmo. Sim, há sugestões da existência de um quadro de neurodivergência que talvez aumente sua dificuldade de interação social, mas o problema não reside nesta condição e sim na falta de compreensão sobre suas implicações (a história se passa em 2003). Enquanto isso, Jake, líder do grupo, é beneficiado pela fantástica performance do estreante Kayo Martin, que desde sua primeira aparição comunica através do olhar um julgamento interior constante com relação a todos que o cercam, como se estivesse sempre em um monólogo interno carregado de sarcasmo e de um imenso senso de superioridade - que, paradoxalmente, revela para o espectador sua fragilidade emocional. Logo no princípio da projeção, por exemplo, o garoto faz um comentário casual sobre estar participando do programa pela segunda vez consecutiva depois que o pai o inscreveu "por engano" – uma mentira óbvia que aponta para uma situação familiar problemática para a qual ele talvez encontre alívio ao destratar alguns de seus colegas.

Igualmente triste é testemunhar as dinâmicas de gênero entre aqueles pré-adolescentes, que demonstram uma necessidade terrível de proclamar a própria “masculinidade” através da agressividade e das conversas performativas sobre as meninas que participam do programa, discutindo inclusive suas “experiências” sexuais que são claramente invenções para estabelecer status – e se alguns daqueles jovens demonstram aparente conforto com esta dinâmica tóxica, outros claramente seguem o comportamento social dominante para garantir aceitação mínima, enquanto um terceiro grupo manifesta culpa visível por suas ações, mas carece de força moral (estou sendo rigoroso; é melhor dizer “maturidade”) para questionar abertamente o comportamento coletivo.

Pois o que frequentemente falta ao adolescente é a percepção de que a “praga" que leva à exclusão tem, como cura, a compreensão acerca do próprio valor intrínseco, individual, que não precisa necessariamente de uma validação externa – mas considerando como esta percepção também falta a boa parte dos adultos, é injusto esperar que ocorra a indivíduos tão jovens.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025

17 de Maio de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

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