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Silêncio

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido por Martin Scorsese. Roteiro de Jay Cocks e Martin Scorsese. Com: Andrew Garfield, Adam Driver, Yôsuke Kubozuka, Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Issei Ogata, Shin’ya Tsukamoto, Yoshi Oida, Ryo Kase, Nana Komatsu e Liam Neeson.

É fascinante observar o contraste entre as visões de Mel Gibson e Martin Scorsese, dois cineastas de formação católica que transformaram a violência em elemento cardinal de seus filmes: para o primeiro, esta purifica; para o segundo, infecta. Onde Gibson vê martírio, Scorsese enxerga punição; se para aquele a violência é um meio, para este é o fim. Finalmente, se o diretor de A Paixão de Cristo e Apocalypto é obcecado pela capacidade de seus protagonistas de receber e suportar a brutalidade alheia, o criador de Touro Indomável e Os Bons Companheiros se interessa por homens que gostam de cometê-la – e não deixa de ser uma curiosa coincidência que ambos tenham usado o mesmo ator em 2016 em suas reflexões espirituais cinematográficas.

Último capítulo de uma trilogia informal que conta com A Última Tentação de Cristo e Kundun, Silêncio é mais um retorno de Scorsese à investigação da religiosidade, da fé e de seus signos – uma exploração que, de certa maneira, faz parte de muitos de seus filmes, que constantemente fazem um julgamento rigoroso de seus brutamontes, sejam estes protagonistas ou antagonistas (e o uso do vermelho como representação da culpa católica já pode ser encontrado desde a primeira fase de sua carreira, marcando, por exemplo, várias passagens de Caminhos Perigosos). Aqui, porém, a religião não é comentário, mas o centro da narrativa, baseando-se no livro de Shûsaku Endô para contar a história dos padres jesuítas Rodrigues e Garupe (Garfield e Driver), que, no século 17, são enviados ao Japão com o objetivo de resgatar o padre Ferreira (Neeson), que, segundo relatos, teria renegado a fé e abraçado os costumes locais. Auxiliados por Kichijiro (Kubozuka), um guia pouco confiável, os dois homens buscam também oferecer algum conforto aos cristãos que encontram durante a jornada e que são perseguidos pelo inquisidor Inoue (Ogata), encarregado de livrar o país do cristianismo.

Substituindo a energia maníaca movida a drogas de O Lobo de Wall Street, seu trabalho anterior, por uma abordagem frequentemente contemplativa que reflete os modos calmos dos padres que acompanha em Silêncio, Scorsese demonstra mais uma vez seu raro talento de manter-se autoral mesmo alterando radicalmente seu estilo de uma obra para outra: aqui, por exemplo, a claustrofobia de uma narrativa como Ilha do Medo cede lugar a planos abertos que trazem a Natureza como centro ao mesmo tempo em que subjugam seus personagens a esta. Não é à toa que, ainda no primeiro ato da projeção, o diretor prepara uma linda rima temática e visual ao mover sua câmera, que enfocava os religiosos em plongée (apontando diretamente de cima para baixo), para revelar o brilho do sol que pode ser visto apenas sobre as nuvens, antecipando o instante em que, bem mais tarde, um personagem comentará como os japoneses enxergam naquele astro uma representação da divindade que os católicos atribuem a Cristo. Aliás, considerando a imagem do deus-Sol oculto por nuvens, tampouco é acaso que constantemente vejamos Rodrigues cegado por névoas densas que exprimem a insegurança provocada pela ausência aparente de seu próprio Deus.  

Esta equiparação de crenças, por sinal, faz parte de um esforço consciente de Scorsese para não demonizar os japoneses, mesmo que as pavorosas ações destes sejam elemento importante da narrativa – afinal, se aqui os cristãos são as vítimas da opressão religiosa, em vários outros momentos foram os opressores (o mesmo se aplicando a judeus, muçulmanos, budistas e basicamente a qualquer outra forma organizada de religião). Da mesma maneira, como o filme pontua com eficácia, há uma arrogância inerente ao próprio ato de catequização, já que, afinal, os jesuítas não demonstram qualquer interesse em assimilar a cultura nipônica, preocupando-se apenas em exportar os próprios dogmas, o que, claro, só aumenta a dificuldade da tarefa ao adicionar confusões linguísticas à já confusa teologia cristã - como o longa ilustra na cena em que um casal de camponeses tenta compreender o conceito de “Paraíso”.

Este conceito em particular, vale apontar, é utilizado por Silêncio para discutir outro elemento-chave da propagação religiosa: o conforto que a crença pode trazer aos que pouco podem esperar da realidade (e também o conformismo que pode inspirar). “No Paraíso não há fome, trabalho nem imposto, não é?”, pergunta uma jovem kirishitan (cristã) ao protagonista em um momento de desespero, sendo curioso notar como este responde enfaticamente embora, em uma cena prévia, ele próprio tenha esquecido momentaneamente o “conforto” da Fé quando, faminto, começou a devorar o alimento oferecido pelos humildes moradores de um vilarejo sem sequer se lembrar de orar em primeiro lugar, notando com embaraço o esquecimento apenas ao vê-los rezando.

O padre Rodrigues, aliás, é mais um personagem-narrador na filmografia de Scorsese a apresentar-se longe da perfeição: vivido por Andrew Garfield como um homem indubitavelmente devoto, o jesuíta aos poucos revela uma vaidade incontestável por trás de sua aparente bravura ante à pressão para renegar Cristo, chegando a enxergar a imagem deste como seu próprio reflexo em uma poça d’água. Remetendo à representação iconográfica cristã de Jesus através de sua própria aparência, com seus longos cabelos e sua barba, o padre parece quase apreciar a oportunidade de se martirizar – e sua insistência em perdoar as constantes traições de Kichijiro é menos um ato de absolvição do que uma forma de assegurar a existência contínua de seu Judas pessoal. Enquanto isso, Issei Ogata converte o inquisidor Inoue numa figura complexa que parece genuinamente lamentar as atrocidades que ordena – e há um momento magistral em que o homem parece literalmente desinflar diante de nossos olhos ao constatar a futilidade do esforço de tentar argumentar com Rodrigues. Para finalizar, Liam Neeson ganha a oportunidade de subverter sua imagem habitual de mestre ao encarnar um homem incerto quanto ao que acredita, ao passo que Adam Driver interpreta o padre Garupe como um indivíduo rígido, mas bondoso – e é importante reparar como ele não cobra de seus fiéis nenhum sacrifício que ele mesmo não esteja disposto a fazer.

Mas em nome de quem estes sacrifícios são feitos, afinal? Esta é principal pergunta que Silêncio apresenta ao espectador através de sua narrativa e de seu título, que, refletido nos vários planos plongée que denotam o ponto de vista de um Deus que observa à distância a jornada e o sofrimento de seus representantes, sintetiza a angústia dos padres perante a omissão do Criador diante da dor de suas criações. E se todo aquele tormento for em nome de uma ilusão? E o que seria pior: que aquele silêncio evidenciasse a indiferença divina ou simplesmente sua não-existência?

De um modo ou de outro, o que o padre Rodrigues parece não perceber em sua obsessão pelo calvário é que a mudez que o aflige espelha seu próprio silêncio diante da tribulação de seus discípulos, que são torturados em nome de sua recusa de abjurar Cristo – e, mesmo que ele sofra ao testemunhar tudo aquilo, não deixa de ser conveniente que sua pureza exija o sacrifício alheio. Aliás, a atitude mais cristã naquelas circunstâncias não seria justamente renunciar a Cristo? De que serve a Fé se esta não se manifesta em ações?

Afinal, professar amor ao divino ou declarar-se um “cidadão de bem” é bem mais fácil do que colocar o discurso em prática. E se o silêncio de uma deidade atormenta, pior é aquele que denuncia a ausência de humanidade.

23 de Março de 2017

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

Scorsese retorna a um tema presente em vários de seus melhores trabalhos, mas com uma abordagem nova e instigante.

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Avaliações dos Usuários

Alessandro
Alessandro22 de jun. de 2018

Olá Pablo. Gosto muito de suas críticas, mas vou discordar de algumas observações sobre "Silêncio". Não acho que o padre Sebastião seja vaidoso em suas atitudes. Na perspectiva dele, se compara a Cristo como uma forma de aceitação do sofrimento. É uma visão muito particular, e reflete sua crença espiritual. "Silêncio" para mim é uma obra que dialoga com outras do diretor, uma vez que seu tema principal é a existência ou não de um ser superior (Deus). Também é a sobre a necessidade de se acreditar na existência de outro mundo, muito diferente deste que pode ser muito sofrido, principalmente para os mais pobres e oprimidos, como é o caso dos camponeses explorados e dominados pelos Xoguns. Sobre os Xoguns, grandes líderes feudais, em "Silêncio", me passou a impressão que eles temiam a conversão na fé cristã, justamente porque na visão deles isso era visto como uma forma de colonialismo - o que em alguns aspectos não deixa de ser, embora no filme para os padres Sebastião e Garupe isso é visto como uma missão espiritual. Também em "Silêncio" há uma forte simbologia religiosa. Assim, em uma de suas facetas, Kichijiro pode ser visto como Judas, assim como o governador e Ferreira encarnam o demônio tentador que tentam "desviar" Sebastião, incitando-o o tempo todo a mudar de ideia. Para mim as melhores passagens de "Silêncio" foram os embates verbais de Sebastião com ambos, nos quais transpareceu a determinação do jovem padre de não se render e manter-se fiel aos dogmas cristãos. Para mim ficou claro que Sebastião apesar de cometer um discutível, não teve sua fé abalada e mante-se firme em suas convicções, conforme demonstra a imagem final do filme. Ou seja, o que predomina em "Silêncio" é que a crença na existência de Deus, mesmo abalada, continua existindo para Sebastião, mesmo em seus últimos momentos de vida. Agora ter a mesma leitura que tive sobre isso, vai depender da percepção de cada um. De modo geral, achei "Silêncio" um dos melhores filmes de Martin Scorsese, muito superior "A Lobo de Wall Street". Uma obra que defino como "metafísica", além da cotação de "estrelinhas", do gostei e do não gostei, e nos faz refletir sobre nossa própria crença, seja esta cristã ou não.

Heloisa Tonolli
Heloisa Tonolli10 de mai. de 2018

Acabei de assistir ao filme. Bárbaro! E essa sua crítica não fica atrás! Que crítico e que escritor maravilhosos você é! Parabéns e obrigada!

Rodarte-Quayle
Rodarte-Quayle1 de abr. de 2017

Magnífica crítica.

Andréa Sannazzaro Ribeiro
Andréa Sannazzaro Ribeiro24 de mar. de 2017

Oi Pablo, gosto muito das suas análises, sempre de grande relevância conceitual. Mas tem um ponto que muito me incomodou, o autor é etnocêntrico.Coloca elementos já conhecidos pela historiografia da inquisição europeia no oriente que por sua vez pouco podemos dizer de como se deu de fato. O que é perigoso, no minimo anti-ético. Sem dúvida o filme do Martin Scorsese é uma obra prima técnica.Mas, é absurdo os erros históricos, de duas uma, ou desconhece a história dos jesuítas, assim como do japão, da colonização europeia, de como a fé foi usada de maneira tendenciosa, ou é de uma desonestidade tremenda, quanto mais se tratando de um tema tão delicado eticamente. Fico me perguntando se a arte pode passar panos quentes com a ética e se elas são de fatos separadas.... Claro, sempre aquela resposta, que em nome da ficção um recorte é sempre perdido... Mas qual limite disto? É nocivo.. a estética bem elabora é capaz de organizar emoções, tanto quanto de produzir consciência histórica.....

Maria Cordelia Soares Machado
Maria Cordelia Soares Machado 24 de mar. de 2017

Que grande escritor que você é! Critica impactante