Dirigido por Mascha Schilinski. Roteiro de Mascha Schilinski e Louise Peter. Com: Luise Heyer, Lena Urzendowsky, Claudia Geisler-Bading, Lea Drinda, Hanna Heckt, Laeni Geiseler, Florian Geißelmann, Andreas Anke, Susanne Wuest, Gode Benedix, Bärbel Schwarz, Lucas Prisor, Konstantin Lindhorst.
O primeiro filme da mostra competitiva exibido este ano em Cannes foi o alemão O Som da Queda, da diretora Mascha Schilinski – cineasta que há oito anos estreou em longas-metragens com o interessante A Filha. Diferentemente de obras ancoradas em tramas elaboradas ou estudos de personagem, porém, este seu novo trabalho se revela um filme de sensação, talvez até sobre um temperamento específico: esta sensação seria a angústia; este temperamento, o de terror existencial contínuo. E não por acaso, já que a obra gira essencialmente em torno do espectro da morte.
Escrito por Schilinski ao lado de Louise Peter, o roteiro ancora sua narrativa em uma fazenda, acompanhando quatro garotas de gerações diferentes e cobrindo aproximadamente cem anos da história daquele lugar. Saltando de uma para outra sem qualquer tipo de ligação aparente, o filme até permite que eventualmente o espectador reconstrua mentalmente uma cronologia, estabelecendo conexões entre personagens comuns nas diferentes histórias, mas este exercício jamais se estabelece como propósito central da obra. Aliás, justamente por ancorar a narrativa em um único lugar ao longo de um extenso período (demonstrando um interesse similar aos de Aqui, de Robert Zemeckis, e do maravilhoso curta-metragem Quando Aqui, de André Novais - ambos inspirados no mesmo livro), o filme acentua, por contraste, a efemeridade humana: nós passamos, os espaços ficam.
Ao adotar este tipo de abordagem, O Som da Queda inevitavelmente ressalta a importância do registro da memória, já que, ao saltar de uma geração a outra, permite que o espectador perceba como determinado personagem cuja história acompanhávamos encontra-se morto há décadas embora sua existência, suas angústias e seus sonhos sigam presentes e urgentes em nossa percepção. Aliás, as próprias escolhas estéticas do filme remetem a este conceito de preservação do passado ao empregarem uma razão de aspecto reduzida que acentua a ideia de retrato (além de promover uma atmosfera claustrofóbica que salienta a angústia das mulheres que guiam a história). Além disso, o tom sépia adotado pelo diretor de fotografia Fabian Gamper em diversos instantes colabora para cimentar o conceito de passado e de sua continuidade através do registro fotográfico – uma preocupação complementada pela composição dos quadros, que em várias cenas investe na sugestão de frames dentro de frames, emoldurando os personagens com batentes de portas ou divisórias de janelas.
Além destas referências visuais, há, claro, a presença literal de fotos nas várias linhas cronológicas: quando observamos a geração mais antiga retratada no filme, por exemplo, o estranho costume de fotografar os mortos resulta em uma sequência incômoda durante a qual um cadáver é preparado para o evento, tendo seus olhos costurados para que permaneçam abertos enquanto a família posa ao seu redor – e não menos importante, neste sentido, é constatar a própria deterioração das fotografias ao longo do tempo, espelhando o desaparecimento gradual das pessoas e das memórias que deixaram/construíram. Para completar, em dois momentos particularmente significativos o filme enfoca retratos nos quais alguém, devido a um movimento durante o registro, surge como uma figura fantasmagórica - mais uma vez estabelecendo uma conexão visual direta entre o retrato como documento do passado e a inevitabilidade da morte.
Esta coesão visual do filme na representação de seus temas é notável, sendo ecoada pelo ótimo desenho de som, que contribui decisivamente para esta unidade. Durante as transições entre diferentes épocas, por exemplo, o som por vezes adquire qualidades analógicas – reminiscentes de um vinil ou de uma película antiga – que sublinham a sensação de passado. Enquanto isso, a câmera é movida com fluidez quase espectral, sugerindo uma presença fantasmagórica que pode ser interpretada não necessariamente como um espírito, como algo sobrenatural, mas como o eco de alguém que ocupou aquele espaço – e em determinados momentos, as personagens dirigem o olhar diretamente para a câmera, como se reconhecessem esta presença.
Outro aspecto fundamental da narrativa reside no fato de que esta é ancorada por quatro mulheres nas diferentes épocas retratadas, centralizando a subjetividade e a experiência femininas: vemos como são ignoradas, tratadas como mercadoria, objetificadas; testemunhamos a depressão resultante tanto da falta de propósito imposta por suas circunstâncias quanto da opressão sistemática que enfrentam. E mesmo quando há indícios de independência sexual – como na história mais próxima do nosso presente, possivelmente no início dos anos 80 (algo sugerido pela ainda existente divisão entre Alemanha Oriental e Ocidental) – percebemos o caráter autodestrutivo na relação da personagem com sua própria sexualidade, consequência de condicionamentos e abusos que a levaram a enxergar (em função da própria imaturidade) seu comportamento sexual como forma de controle quando na verdade constitui um mecanismo de autodestruição.
Alcançando momentos de beleza inquestionável ao contemplar a passagem do tempo, a natureza da morte e os mecanismos da memória, o filme inclui, por exemplo, a tocante reflexão de uma personagem sobre a bisavó falecida e como, com o passar do tempo, já não consegue lembrar de seu rosto – ainda que a recordação de seu cheiro e do toque de suas mãos enrugadas permaneça viva. Em O Som da Queda, a morte constitui presença constante, sendo observada especialmente através da perspectiva infantil diante da finitude – um terror que, embora não exclusivo das crianças, revela-se com particular intensidade quando estas são confrontadas pela primeira vez com a ideia de término e a compreensão de que este chegará para todos que conhece.
Em certos aspectos, portanto, poderíamos classificar este belo trabalho de Mascha Schilinski como um filme de terror no qual o monstro é, paradoxalmente, a própria vida – não por sua essência vital, mas por conter em si mesma a perspectiva inescapável da morte.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2025
15 de Maio de 2025
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