Dirigido e roteirizado por Michel Franco. Com: Jessica Chastain, Isaac Hernández, Rupert Friend, Marshall Bell, Eligio Meléndez, Mercedes Hernández.
É curioso como o cineasta mexicano Michel Franco tende a dividir opiniões: se há aqueles que, como eu, admiram sua habilidade ao criar tensão e explorar dilemas morais e éticos em narrativas ambiciosas, há outros que veem em sua abordagem estética uma barreira incontornável para que mergulhem em suas obras. Desconfio que Sonhos, exibido como parte da mostra competitiva da Berlinale 2025, seguirá o mesmo caminho – mesmo que desta vez eu não sinta o impulso costumeiro de defendê-lo graças a questões que discutirei adiante.
Escrito pelo próprio diretor, o roteiro tem início com a jornada de Fernando (Isaac Hernández) do México a San Francisco, nos Estados Unidos: transportado por coiotes em um caminhão fechado que acaba abandonado à beira de uma estrada, colocando em risco sua vida e as de dezenas de outros imigrantes ilegais, o rapaz insiste em retornar ao país que já o havia deportado não por almejar alcançar o tal “sonho americano” (na realidade, um pesadelo), mas por querer se reunir com a mulher com quem mantinha um caso sigiloso. Interpretada por Jessica Chastain, Jennifer McCarthy é executiva de uma grande corporação pertencente à sua família e presidida por seu pai, dedicando-se particularmente aos projetos filantrópicos que visam trazer um rosto mais amigável à empresa – entre os quais vários ancorados em imigrantes latinos e na comunidade mexicana.
A partir daí, o longa poderia seguir por vários gêneros e se apresentar como um thriller sexual, um drama sobre diferenças de classe econômica e idade, ou até mesmo um romance mais convencional sobre duas pessoas cujo amor é encarado como tabu – e ao tentar abraçar todas estas possibilidades, Sonhos começa a perder seu centro narrativo, embora consiga também manter o espectador interessado na situação de seus personagens.
A dinâmica do casal, por sinal, é o ponto forte do longa: Chastain, como de hábito, oferece uma performance instigante ao compor sua personagem como uma mulher que, rica, acostumada ao conforto e ao poder, tem como fraqueza o desejo inquestionável que sente pelo parceiro mais jovem, um imigrante pobre, ilegal e que como bailarino provavelmente jamais atingirá uma estabilidade financeira que lhe permita equilibrar ao menos um pouco esta dinâmica (a Arte raramente gera riqueza). Vivendo uma atração palpável, mas desigual, Jennifer desenvolve uma obsessão crescente pelo rapaz, enquanto este lida com o ressentimento de não poder assumir publicamente o relacionamento, já que a família da executiva jamais o aceitaria.
Ilustrando a tensão entre os dois através de planos longos e diálogos mínimos para revelar as emoções dos personagens através de suas ações e de seu comportamento em cena, Michel Franco muitas vezes usa pequenos gestos na mise-en-scène para comunicar elementos da personalidade daquelas pessoas: em certo momento, por exemplo, Chastain entrega casualmente o casaco para uma subordinada, sem nem olhar para esta, evocando em um movimento breve sua posição de poder e sua distância emocional. Do mesmo modo, a fotografia de Yves Cape emprega contrastes na paleta de cores para demonstrar a posição e o temperamento de Jennifer e Fernando, adotando tons quentes nas cenas que envolvem o imigrante e seus amigos, e investindo em cores mais frias para acompanhar o cotidiano muitas vezes solitário da executiva. Através desta contraposição visual, o filme acaba por reforçar a ideia de que a mulher busca no parceiro um calor humano que falta em sua vida privilegiada e repleta de eventos sociais que, no entanto, só ressaltam o vazio que sente.
Dito isso, seus esforços de conexão são sempre limitados por seu pânico diante da possibilidade de ostracismo entre seus pares – e também por seu próprio preconceito: em determinada passagem, por exemplo, ela fica visivelmente incomodada ao ver o namorado conversando em espanhol com um garçom mexicano que os atende, sendo possível tanto a interpretação de que o desconforto vem de seu sentimento de exclusão ou (o mais provável) do fato de ver o namorado tratando um garçom como um igual.
Infelizmente, apesar das questões instigantes que apresenta, Sonhos perde o rumo no terceiro ato ao enfocar (não se preocupem, não há spoilers) uma ação específica de um dos personagens que, de tão extrema e condenável, anula qualquer possibilidade de discussão sobre os temas que o filme vinha construindo. Trata-se de uma escolha narrativa desastrosa, que destrói a complexidade da relação entre os personagens e reduz o conflito a uma questão moral binária, transformando o que poderia ser uma reflexão profunda sobre poder, classe e desejo em uma questão simplista e frustrante.
Neste sentido, a frustração também remete a obras anteriores de Franco – especialmente Chronic, que, depois de 90 minutos brilhantes, consegue a proeza de desmoronar totalmente em seus dez segundos finais. Desta vez, o estrago não é tão imenso, mas enfraquece o filme a ponto de tornar difícil que levemos a sério suas intenções originais.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
15 de Fevereiro de 2025
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