.jpg)
Dirigido por Clint Bentley. Roteiro de Clint Bentley e Greg Kwedar. Com: Joel Edgerton, Felicity Jones, Nathaniel Arcand, Paul Schneider, Clifton Collins Jr., Alfred Hsing, John Patrick Lowrie, John Diehl, William H. Macy, Kerry Condon e a voz de Will Patton.
Não me lembro de seu nome e tenho apenas uma vaga memória acerca de sua aparência; afinal, mais de trinta anos se passaram desde nossa única e breve interação, quando, depois de comprar o acervo de filmes em VHS de uma locadora que encerrava suas atividades, tentava decidir como transportá-los para o carro, já que as centenas de fitas se encontravam divididas entre bolsas, caixas e sacos plásticos. Ao me ouvir tentando calcular o peso do material, ele começou a juntar várias das sacolas e, erguendo-as, disse: “Ih, rapaz, a gente mede o peso das coisas não é no olhar; é no jeito que a gente consegue acomodar tudo nos ombros”. No momento, reagi à fala com uma breve risada, já que o sorriso que a acompanhou sugeria uma piada, mas horas depois ela ainda permanecia comigo e ainda hoje penso em seu significado com certa frequência. Uma interação de poucos minutos acabou se tornando uma das memórias mais duradouras nestes meus 51 anos – um impacto que, tenho certeza, ele jamais imaginou que provocaria naquele instante.
Sonhos de Trem me fez pensar no potencial contido em cada um dos inúmeros encontros cotidianos e em como o acúmulo do tempo traz consigo a construção de um acervo formado pela sensibilidade de todos com quem esbarramos ao longo da vida.
Dirigido por Clint Bentley a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Greg Kwedar (e que por sua vez é uma adaptação do livro de Denis Johnson), o filme traz a história de um homem comum que, nos 80 anos de sua existência prosaica, apaixonou-se, construiu uma família cuja falta sentia sempre que obrigado a viajar em busca de trabalho, testemunhou horrores, experimentou alegrias e ocasionalmente questionou se havia alguma grande razão por trás de tudo. Sujeito de poucas palavras, Robert Grainier (Edgerton) reconhece a felicidade simples de despertar sentindo o carinho feito em suas costas pelo toque gentil da esposa (Jones) e de ver a filha pequena notando pela primeira vez as chamas de uma vela, mas também se vê confuso diante da intolerância alheia e da arbitrariedade com que, de um momento para o outro, tudo que conhecemos pode se transformar de modo brutal.
Saltando entre diversos momentos da trajetória de Robert, o longa soa como uma jornada por passagens recordadas à distância, com a subjetividade que frequentemente (re)colore nossas lembranças, pintando incidentes felizes com tons quentes e trazendo cinza para aqueles vistos com dor e lamento. Neste sentido, a decisão de rodar o longa em uma razão de aspecto reduzida é perfeita ao instintivamente remeter o espectador – ao menos os mais velhos – às imagens congeladas em papel fotográfico e revisitadas ocasionalmente em álbuns que as expunham protegidas por um plástico cada vez mais empoeirado. Além disso, a magistral fotografia do brasileiro Adolpho Veloso explora a altura resultante dos quadros para ressaltar ao mesmo tempo a magnitude dos espaços que cercam aquelas pessoas, com suas árvores gigantescas (e tristemente vulneráveis à ação humana), rios e, claro, o céu – e não há “regra dos terços”, com suas convenções sobre a altura dos olhos do indivíduo no quadro, que se mostre válida diante das escolhas de Veloso, que encontra elegância e significado ao frequentemente enfocar os personagens na parte inferior de suas composições.
E mais: ao investir na fluidez dos movimentos de câmera para acompanhar o cotidiano de Robert, Gladys e a filha, o filme confere uma característica quase onírica a estas sequências, fazendo jus ao título da obra e à felicidade daquela pequena família – e mesmo que soe como um clichê de crítico, não posso deixar de apontar como remetem à estética malickiana e à sua habilidade de construir uma atmosfera reflexiva a partir da natureza. Já em outros momentos, Veloso inspira melancolia através de recursos mais rígidos, como os lentos zooms out que expõem a figura diminuta do especialista em explosões vivido lindamente por William H. Macy e que se tornam poesia ao surgirem justapostos em elipses criadas pela montagem de Parker Laramie. Aliás, Laramie também faz um trabalho soberbo ao evocar o caráter imprevisível de nossas memórias, que podem ser disparadas a qualquer momento por imagens tão díspares quanto uma cicatriz vertical no peito, um gesto casual ou uma tempestade que subitamente remete ao regador nas mãos de uma criança. Neste aspecto, Sonhos de Trem compreende como o passado jamais se encontra totalmente distante, moldando cada experiência presente ainda que não tenhamos total consciência de sua influência.
Emprestando seu olhar triste a um personagem nem sempre capaz de processar e compreender as próprias emoções, Joel Edgerton é tão hábil ao projetar a angústia diante da brutalidade inesperada de colegas quanto a alegria de voltar para casa e rever a família depois de meses de distância (e o desenho de som merece créditos pela delicadeza com que sugere o bater de corações do casal em seu reencontro). Limitado pelas circunstâncias de uma vida que já teve início em dificuldade, Robert escapa da raiva que cega muitos de seus companheiros, que preferem enxergar no Outro a responsabilidade por suas condições, ao exercer a empatia básica de reconhecer como gentileza diz mais do que cor de pele e como dignidade e honra se definem por ações, não pelo país de origem ou pela religião professada (e, não raro, aqueles que mais insistem em se definir por sua Fé são também os que menos fazem jus à generosidade que esta supostamente defenderia).
Mas Robert conta com outra virtude importante: a capacidade de questionar a si mesmo. Já mais velho, ele inicialmente se espanta com os modos bruscos dos colegas de trabalho mais jovens, tendendo a atribuir o comportamento a uma questão geracional – até se dar conta de que talvez se trate não de uma característica de geração, mas de idade: “Não sei se está diferente ou se sempre foi assim; talvez eu fosse mais bruto como esses garotos e só não me lembre”. (E se os rapazes parecem mais agressivos, é importante lembrar como a narrativa está presa à percepção do protagonista, dando corpo às suas impressões.) Com isso, Sonhos de Trem nos oferece um tipo precioso de personagem: aquele cujo amadurecimento testemunhamos, alguém que muda e aprende à medida que envelhece.
Ou que ao menos aprende nas áreas em que isto é possível. Pois uma das indagações recorrentes de Robert – e que certamente ecoam as nossas – jamais poderá obter uma resposta definitiva e satisfatória: para quê? por quê? O que nossas vidas significam – se é que significam algo. Não é à toa que, em três ou quatro momentos do longa, o sujeito pergunta “o quanto você sabe?” para a filha bebê, para um cachorro e para o mundo, esperando uma explicação que sabe que jamais virá. O único fato incontestável é que tudo passa rápido demais; em um milissegundo, acabamos antes que fosse possível deixarmos alguma marca de que existimos, produzindo um legado que só irá durar até a morte do último descendente que ainda se lembrava de nossos nomes – um neto ou, com muita sorte, um bisneto. Frequentemente, nem isso; somos esquecidos antes de virarmos pó.
Isto não significa que não tenhamos valor, apenas que somos uma parte minúscula de algo muito maior em escala. Quando Robert se dá a oportunidade de um breve passeio de avião ou contempla o lugar onde sempre viveu a partir de uma torre de observação, tudo se apresenta pequeno como é na realidade – e até as barracas que abrigam seu grupo de lenhadores testemunharam mais do que estes jamais conseguirão. Não é por acaso que Veloso lentamente fecha o quadro no rosto da personagem de Kerry Condon enquanto esta aponta como toda aquela região já esteve sob mil metros de gelo, já que tematicamente isto é fundamental para ressaltar a efemeridade humana diante das transformações do planeta – algo que pouco depois será frisado pela dolorosa observação de como já não é possível notar vestígios do incêndio florestal que tanto custou a Robert.
Assim, é apenas apropriado que o próprio filme se inicie e se encerre com os sons da natureza - pássaros, vento, o ranger dos troncos das árvores -, já que as oito décadas do protagonista nada representam de um ponto de vista macroscópico. Por outro lado, a beleza de Sonhos de Trem reside em seu reconhecimento de que, microscópicas como são, nossas curtas trajetórias são repletas de dores, sonhos e alegria e que talvez esta seja uma justificativa em si mesma.
Talvez ouvir a música de nosso nome na voz de quem amamos ou sofrer por sua ausência não seja algo que deixe marcas no mundo, mas isto não significa que haja uma resposta mais importante para que tenhamos existido por umas poucas décadas. No fim das contas, por menores que tenhamos sido, o peso que acomodamos nas costas representa sua própria e valiosa história.
18 de Fevereiro de 2026

.jpg)
.jpg)