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Surda

★★★★★5/5 estrelas
12 min

Dirigido e roteirizado por Eva Libertad. Com: Miriam Garlo, Álvaro Cervantes, Elena Irureta, Joaquín Notario.

Não há como medir palavras: o que sinto por CODA – No Ritmo do Coração, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2022, é um profundo desprezo. Medíocre como narrativa, aquela bomba não consegue sequer ser a melhor versão da história que conta, já que é uma refilmagem de uma produção franco-belga infinitamente superior (A Família Bélier). A vitória da produção, no entanto, não foi surpresa: típico projeto criado justamente como ímã de troféu, CODA ainda contou com o velho impulso da Academia de usar a distribuição de estatuetas para propagandear suas próprias virtudes – ou “virtudes”, já que tradicionalmente se mostra bem mais disposta a proclamar como valoriza a diversidade do que de fato a estimulá-la através de ações eficazes.

Para constatar os imensos problemas de CODA – e não me refiro apenas à sua qualidade, mas à sua capacidade de representar uma comunidade com dignidade e respeito –, basta compará-lo ao espanhol Sorda (Surda, em tradução literal), dirigido por Eva Libertad e protagonizado por sua irmã na vida real, Miriam Garlo - uma atriz e artista multimídia que, embora não tenha nascido sem audição, a perdeu gradualmente devido a uma condição genética familiar. Há alguns anos, o desejo da atriz de engravidar inspirou um curta-metragem homônimo que obteve grande reconhecimento, incluindo a vitória no Goya (o Oscar espanhol) – e que agora deu origem a esta versão em longa-metragem que merecidamente conquistou o prêmio do público na seção Panorama da Berlinale.

Como o título sugere, o filme gira em torno de Ángela (Garlo), uma personagem com deficiência auditiva casada com um homem ouvinte, Héctor (o carismático Álvaro Cervantes) – e a decisão do casal de engravidar dá origem a uma série de apreensões, incluindo a incerteza sobre como será a audição da criança. Dedicando o primeiro ato à tarefa de estabelecer a profunda harmonia entre o casal, Surda ilustra, por exemplo, como Héctor, ao longo de seus três ou quatro anos de relacionamento, não apenas se esforçou para aprender a Língua de Sinais Espanhola (LSE) para se comunicar com a esposa como também toma cuidado para que esta jamais se sinta excluída das conversas com outras pessoas: durante uma consulta ginecológica, por exemplo, a médica se dirige a ele na expectativa de que traduza o que está dizendo à esposa e ele prontamente a corrige, apontando que Ángela faz leitura labial e é perfeitamente capaz de compreendê-la – um gesto simples, mas que demonstra respeito e afeto. Aliás, a maneira com que Garlo e Cervantes retratam o carinho, o amor e o respeito mútuos é fundamental para que o espectador se torne quase parte daquela relação: cenas cotidianas, como a que os traz dançando – ela acompanhando o ritmo do marido enquanto este traduz a letra da música em sinais –, criam o retrato de uma vida harmoniosa e sem impedimentos autoimpostos.

No entanto, mesmo então o filme começa a introduzir, com sutileza, as apreensões da protagonista: o relato de uma amiga sobre o filho adolescente ouvinte, que por vezes sente vergonha de se comunicar com os pais por sinais na frente dos amigos, desperta inquietação em Miriam – um sentimento que se acentua quando, em uma festa de aniversário, ela observa, à distância, o marido conversando com o jovem sem o uso de sinais, sugerindo a barreira de comunicação que poderá existir com sua própria filha caso esta nasça ouvinte. Além disso, o longa é hábil ao demonstrar que, por mais que haja sintonia entre o casal, há certa distância inerente às suas realidades distintas: em um plano visualmente eloquente, por exemplo, vemos Miriam em primeiro plano, no jardim de casa, enquanto ao fundo, desfocado, Héctor corta a grama usando fones de ouvido - uma imagem que sublinha a diferença em suas experiências sensoriais cotidianas.

Eficaz em levar o espectador a perceber os pensamentos e sentimentos da protagonista, Surda demonstra esta sua sensibilidade em outro plano simples e belo: trazendo o casal deitado na cama enquanto Héctor dorme com o rosto próximo ao da esposa, o quadro revela como Ángela observa a orelha do companheiro – e isto é o bastante para que compreendamos sua angústia sobre esta possível barreira futura. Ao mesmo tempo, ainda que deixe claro como Ángela leva uma vida normal e produtiva, Surda evita romantizar sua situação em passagens como aquela em que um grupo de amigos ouvintes do casal se reúne para um almoço e a conversa se torna um emaranhado de vozes simultâneas, impossibilitando a leitura labial e deixando a mulher deslocada. De forma similar, a dificuldade da comunicação durante o parto, quando as instruções da equipe médica são cruciais, também é construída com inteligência, mesclando tensão, confusão e um humor inesperado através da frustração crescente da personagem.

Sem cometer o erro fácil de vilanizar Héctor ao abordar as dificuldades que naturalmente surgem com a chegada do bebê, Surda ainda assim deixa patente como há certas questões que o sujeito jamais compreenderá plenamente, esquecendo-se, por exemplo, de sinalizar ao conversar com a criança para que esta se habitue à LSE. Além disso, ao testemunhar o marido testando a audição da filha quando crê estar sozinho com esta, Ángela pode até entender o impulso e a apreensão, mas se machuca ao perceber o quão importante é para ele que a criança ouça. São nestes instantes que a estratégia adotada por Libertad no primeiro ato se comprova fundamental: como passamos a amar aquele casal, um possível conflito nos angustia – principalmente por sermos capazes de compreender as razões de cada um.

E é então, no terceiro ato – e aqui me contenho para não revelar demais, pois mesmo que Surda não seja um filme de “spoilers” creio ser importante manter certa discrição neste caso –, que Eva Libertad toma uma decisão narrativa brilhante que eleva o filme a um patamar único, culminando em um desfecho que se revela a nota perfeita para encerrar uma obra maravilhosa. E que ajuda a firmar a posição deste longa como um dos melhores do Festival de Berlim de 2025.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025

22 de Fevereiro de 2025

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
5.0
★★★★★

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