Unidade de Cuidados Paliativos
Dirigido por Philipp Döring.
Remetendo a outra experiência marcante da Berlinale de 2023 – o documentário francês Nossos Corpos, de Claire Simon, que explorava com sensibilidade um hospital parisiense dedicado exclusivamente à saúde feminina em suas mais diversas facetas (de consultas rotineiras a tratamentos oncológicos e transições de gênero) –, em 2025 assisti a Palliativstation (Unidade de Cuidados Paliativos), notável documentário dirigido pelo alemão Phillip Döring. Com uma duração ainda mais extensa, ultrapassando as quatro horas, a obra, como o título anuncia, dedica-se a acompanhar o cotidiano de uma unidade de tratamentos paliativos, um ambiente raramente exposto com tamanho acesso no cinema do gênero.
Introduzindo seu universo com uma elegância narrativa notável ao sinalizar desde o início que estamos visitando espaços íntimos e usualmente mantidos atrás de cortinas, o filme abre a projeção revelando portas entreabertas e permitindo que entrevejamos leitos nos quartos que compõem as dezesseis unidades do departamento, criando uma sensação de observação respeitosa e nada sensacionalista. Essa introdução culmina na escuta de uma conversa entre um médico (cujo rosto vemos) e um paciente (que permanece fora de campo) e durante a qual a linguagem empregada já revela um cuidado imenso: ao invés de uma sentença direta sobre a ausência de cura, o médico explica que chegaram a um ponto em que não é mais possível "fortalecer" o paciente – um eufemismo delicado, porém claro, para comunicar a impossibilidade de recuperação e o fim das opções terapêuticas.
Ao longo de suas quatro horas, Unidade de Cuidados Paliativos nos apresenta aliás a diversos pacientes que representam idades e condições variadas: testemunhamos, por exemplo, a trajetória de um senhor cuja idade avançada é sublinhada pela presença do irmão caçula, também idoso (com mais de 80 anos); acompanhamos uma senhora que, durante sua internação, perde o marido com quem foi casada por décadas; e conhecemos a história particularmente trágica de uma mulher de apenas 39 anos cujos danos irreversíveis não decorrem diretamente do câncer que enfrentou, mas da radioterapia utilizada em seu tratamento, resultando em hemorragias que tornam sua condição terminal. Indo e voltando entre estes casos, a narrativa transita fluidamente entre esses indivíduos, permitindo que acompanhemos suas evoluções (melhoras e pioras) ao longo do tempo e construindo um retrato tocante de experiências no trecho final da vida.
Embora a presença dos pacientes seja central, claro, o filme concentra grande parte de seu foco na equipe médica, especialmente no chefe da equipe, Sebastian Pfrang – um homem relativamente jovem (por volta de 40 anos) cuja humanidade e dedicação se revelam profundamente comoventes; seu envolvimento transcende as obrigações profissionais, alcançando uma dimensão emocional genuína ao lidar com aqueles que se encontram sob seus cuidados. Esta dedicação é ilustrada pelo documentário de diversas maneiras: nas reuniões de passagem de plantão, onde os casos são discutidos em detalhe; no treinamento de estagiários e na integração de novos médicos à dinâmica da equipe; e, de forma marcante, na interação direta com os pacientes. Um exemplo notável é o esforço que ele faz para que uma paciente apavorada realize um exame de imagem dentro do hospital, evitando o deslocamento externo – um gesto de carinho que, embora demande tempo e recursos extras, demonstra uma empatia extraordinária.
As discussões da equipe, aliás, frequentemente extrapolam as questões puramente clínicas e terapêuticas: há uma preocupação constante com o estado psicológico dos pacientes e de seus familiares, que, não menos importante, contam com acompanhamento psicológico oferecido pelo hospital. Além disso, os próprios médicos se envolvem ativamente nesse cuidado, perguntando sobre os sentimentos, validando as angústias e reconhecendo o impacto emocional do processo – um trabalho muitas vezes complicado pela barreira linguística, exigindo o uso de tradutores digitais que fragmentam a comunicação e tornam o esforço em estabelecê-la ainda mais digno de admiração.
Retratando o cotidiano da clínica em seus detalhes mais significativos, o longa continuamente revela a importância de cada gesto - e a paciência infinita da equipe de enfermagem ao caminhar lentamente com pacientes debilitados, ligados ao soro, um passo de cada vez, dia após dia, exemplifica a dedicação que define (ou deveria definir) a atuação na área da saúde – especialmente dos enfermeiros, que frequentemente assumem o trabalho mais extenuante. Além disso, é também interessante observar a flexibilidade adotada no tratamento em função dos contextos de cada paciente: em certos momentos, por exemplo, a equipe aponta como pode ser válido permitir que um paciente realize uma atividade teoricamente não recomendada ao reconhecer que o bem-estar proporcionado por esse pequeno prazer pode ser mais benéfico do que um rigor terapêutico cujo prognóstico já é nulo. E esta compreensão da necessidade de, por vezes, abrir mão de protocolos estritos em nome da qualidade de vida restante é profundamente humana – e neste sentido entram também as discussões éticas sobre a manutenção de medicamentos sem eficácia comprovada, apenas para preservar a esperança do paciente: a decisão de manter um remédio que não causa efeitos colaterais significativos - mesmo sabendo de sua inutilidade terapêutica - torna-se importante porque retirá-lo sinalizaria o abandono completo da esperança de cura.
Consciente da densidade emocional do material, Döring emprega uma estratégia curiosa e eficaz: de tempos em tempos, a câmera nos retira do ambiente hospitalar, oferecendo breves respiros visuais do mundo exterior: árvores, um pássaro sobre uma cerca e o movimento da rua, por exemplo. Estes breves intervalos, que duram poucos segundos a cada 40 minutos de mergulho no cotidiano do hospital, funcionam como um lembrete da existência para além daquelas paredes e se estabelecem como uma pausa fundamental para que o espectador processe a intensidade do que testemunha.
E é uma experiência por vezes extenuante de um ponto de vista emocional: entre outras coisas, é impossível evitarmos divagações, por exemplo, sobre o passado daquelas pessoas – como eram cinco anos, um ano, seis meses antes? A menção de uma paciente que fazia trilhas até o ano anterior evoca a imagem de indivíduos saudáveis, ativos, completamente alheios ao tormento que enfrentariam poucos meses depois; a fragilidade da existência e nossa tendência de evitar reconhecê-la se tornam palpáveis e, portanto, angustiantes. Aliás, se há uma conclusão lógica que surge destas reflexões é a responsabilidade do Estado em oferecer também cuidados paliativos dignos, focados não na cura impossível, mas na humanidade do processo de morrer – em suavizar a dor, oferecer conforto e garantir que a partida (palavra que particularmente uso a contragosto por sua implicação de uma continuidade na qual não acredito) seja o menos traumática possível.
Capturando momentos cujo peso rivaliza apenas com a importância de compreendermos plenamente sua inevitabilidade, Unidade de Cuidados Paliativos reconhece a importância, por exemplo, de investir alguns minutos em uma passagem como a que traz um enfermeiro organizando os pertences de um paciente recém-falecido – seus últimos meses de existência resumidos em uma caixa. Porém, acima de tudo, o filme comove profundamente não apenas por expor a vulnerabilidade humana no fim da vida, mas por celebrar a diferença que um tratamento verdadeiramente humano pode fazer: não se trata simplesmente de ministrar medicamentos ou procedimentos, mas da disposição em sentar ao lado do paciente, segurar sua mão, ouvir seu lamento ou simplesmente compartilhar com ele o silêncio – gestos que oferecem consolo em momentos de dor, medo e confusão. Ao longo de suas quatro horas, passamos a nos importar genuinamente com aqueles indivíduos que estão prestes a deixar de ser e, igualmente, com aqueles que dedicam suas vidas a cuidar deles. É um testemunho doloroso, mas belíssimo, da humanidade em ação.
Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2025
20 de Fevereiro de 2025
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